Flávio se preparou para combater o crime organizado e a corrupção: conheça sua trajetória e seus parceiros

Paulo Lemos
Flávio Bolsonaro quer convencer o Brasil de que está preparado para enfrentar o crime organizado e a corrupção. É uma promessa eleitoral poderosa, especialmente num país atormentado pelo avanço das facções, pela lavagem de dinheiro, pela infiltração do crime na economia formal e pela histórica promiscuidade entre interesses privados e estruturas do Estado. O problema é que, antes de acreditar no discurso, o eleitor tem o direito de olhar para a trajetória de quem faz essa promessa, conhecer seus parceiros políticos e empresariais e compreender as relações que se acumularam ao seu redor ao longo dos anos.
A regra jurídica precisa ser estabelecida uma única vez: investigação não é condenação, amizade não significa coautoria e relação política ou profissional não transfere automaticamente responsabilidade criminal. Mas essa obviedade não pode ser utilizada como biombo para impedir o escrutínio. Em política, sobretudo numa eleição presidencial, não se examinam apenas antecedentes criminais. Examinam-se patrimônio, negócios, financiadores, aliados, intermediários, escolhas, relações de confiança e o ambiente de poder construído por quem pede as chaves da República.
As revelações mais recentes tornaram esse debate ainda mais necessário.
No caso Dark Horse, Flávio aparece no centro de uma investigação sobre o financiamento de um filme a respeito de Jair Bolsonaro. A Polícia Federal apura negociações envolvendo Daniel Vorcaro, ligado ao Banco Master, e valores superiores a uma centena de milhões de reais. Mensagens, repasses e estruturas financeiras internacionais passaram a fazer parte da investigação, inclusive movimentações relacionadas ao Havengate Development Fund, nos Estados Unidos, e a participação de Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, nesse universo financeiro.
A pergunta é direta: por que um projeto cinematográfico mobilizou tamanha quantidade de dinheiro, quem articulou esses recursos e como eles circularam? Não se trata de uma foto numa festa ou de um encontro protocolar. Há uma apuração policial sobre dinheiro, financiamento e operações financeiras envolvendo personagens próximos ao candidato.
É nesse ponto que surge um dos nomes que mais se repetem na trajetória recente de Flávio: Willer Tomaz.
Willer é amigo pessoal do senador, advogado e empresário. Flávio utilizou durante a campanha um apartamento pertencente a ele. Antes, o imóvel havia pertencido a Fabiano Zettel, justamente o cunhado de Vorcaro que surge no caso Dark Horse. Willer também aparece relacionado a viagens, aeronaves, empresas, apostas e investigações policiais.
A relação que publicamente poderia ser apresentada como mera amizade ganhou uma dimensão inteiramente diferente com os documentos encontrados pela Polícia Federal. Segundo a investigação, Flávio apareceu cadastrado como “usuário master” de conta bancária da Alcazar Holdings, offshore ligada a Willer. Um e-mail de maio de 2025 solicitou a retirada do acesso de Flávio. Para a PF, o conjunto de elementos justifica apurar eventual participação econômica ou societária de fato entre os dois. A corporação também pediu ao STF que seja investigada a hipótese de Flávio ser sócio oculto da BestBet, casa de apostas controlada por estrutura empresarial relacionada a Willer. A empresa e o advogado negam que Flávio seja sócio.
A novidade altera substancialmente o significado político dessa relação. Já não se discute apenas amizade, viagem ou utilização de imóvel. A Polícia Federal quer esclarecer se existiu vínculo econômico não declarado.
E os números envolvidos nesse universo são extraordinários.
Segundo documento do Ministério da Fazenda citado na investigação, Willer teria movimentado cerca de R$ 5 bilhões em apostas durante 2025, o que o colocou como o maior apostador identificado naquele levantamento. É justamente no setor de bets que se encontra parte das operações que despertaram o interesse dos investigadores.
A Alcazar e a Cathedral Holdings, empresas relacionadas ao mesmo grupo, estão registradas na Ilha da Madeira, em Portugal. A Cathedral aparece na estrutura empresarial ligada à BestBet. A localização em jurisdição com regime fiscal favorecido não constitui irregularidade por si mesma, mas torna ainda mais importante conhecer beneficiários, movimentações, relações societárias e origem dos recursos quando existem investigações sobre lavagem de dinheiro e eventual sociedade oculta.
A proximidade financeira também aparece nas viagens. Empresa ligada ao universo empresarial de Willer intermediou ou custeou passagens utilizadas por Flávio e familiares em deslocamentos pela Europa. A versão de Flávio é de que sua relação com Willer é exclusivamente de amizade. A questão que a investigação agora tenta responder é justamente se os documentos bancários confirmam essa afirmação ou revelam uma relação econômica mais ampla.
Outro episódio descoberto pela Polícia Federal acrescenta um elemento cinematográfico a uma história que já seria incomum sem ele. Em um hangar do Aeroporto Internacional de Brasília utilizado por empresas de aviação de Willer, agentes localizaram, atrás de uma parede de madeira, uma porta metálica que dava acesso a uma sala-cofre equipada com máquina de contar cédulas, malas vazias apropriadas para transporte de valores e prateleiras. Não havia dinheiro no ambiente quando os policiais entraram, e Willer sustenta que a estrutura servia legitimamente a empresas de transporte de valores e clientes da aviação. A PF pediu perícia para identificar quem utilizava o local e esclarecer se valores haviam sido retirados anteriormente.
Seria irresponsável atribuir essa sala a Flávio ou afirmar que dinheiro ilícito foi guardado ali. Não há prova disso. O que importa politicamente é que o episódio ocorre dentro do mesmo universo empresarial de uma pessoa cuja relação financeira com Flávio acaba de ser submetida a escrutínio policial.
A essa altura, a sucessão de coincidências começa a adquirir outra densidade. Vorcaro aparece no financiamento do filme. Zettel aparece na movimentação financeira e no histórico do apartamento. Willer aparece no apartamento, nas viagens, nas aeronaves, nas bets e nas empresas. Flávio aparece como usuário master de uma conta da Alcazar e passa a figurar numa hipótese policial de eventual vínculo econômico com esse mesmo grupo.
Pode haver explicação para tudo. Mas justamente por isso ela precisa ser dada.
E há outro dado recente que merece atenção. O escritório individual de advocacia de Flávio emitiu ao menos R$ 13,7 milhões em 62 notas fiscais entre janeiro de 2023 e julho de 2026, período em que ele exercia o mandato de senador. Aproximadamente metade das notas analisadas pelo UOL foi emitida para outros advogados ou escritórios. A Transparência Internacional-Brasil cobrou explicações sobre a natureza dos serviços e também sobre relações financeiras identificadas no contexto das investigações.
Faturar milhões com advocacia não constitui ilícito. Advogados podem prestar consultoria, elaborar pareceres, negociar contratos e executar inúmeros serviços extrajudiciais que jamais aparecerão em processos públicos. Mas R$ 13,7 milhões recebidos por uma sociedade individual pertencente a um senador e candidato à Presidência são evidentemente matéria de interesse público, sobretudo quando sua movimentação financeira passa a integrar o campo de atenção de uma investigação policial.
Não é a primeira vez que as finanças de Flávio provocam perguntas.
O caso das rachadinhas resultou em denúncia contra Flávio, Fabrício Queiroz e outros acusados por crimes que incluíam peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Posteriormente, decisões judiciais anularam provas essenciais e retiraram a justa causa necessária ao prosseguimento da acusação. O processo terminou sem julgamento integral do mérito que declarasse inexistente todo o conjunto de fatos investigados.
Naquela investigação apareceram movimentações milionárias em dinheiro vivo, negócios imobiliários e suspeitas relacionadas à antiga loja de chocolates de Flávio. O encerramento processual precisa ser respeitado, mas não reescreve a história nem elimina os fatos que deram origem às investigações.
A compra da mansão do Lago Sul, em Brasília, por aproximadamente R$ 6 milhões, também foi objeto de intenso escrutínio. Parte relevante foi financiada pelo BRB e depois quitada antecipadamente. As condições do financiamento não foram consideradas irregulares, informação que precisa constar de qualquer análise séria. Ainda assim, patrimônio e origem de recursos são temas legítimos quando o proprietário pretende assumir a Presidência da República.
O capítulo mais perturbador dessa trajetória, porém, permanece no Rio de Janeiro.
Flávio Bolsonaro homenageou Adriano da Nóbrega na Assembleia Legislativa, e a mãe e a ex-mulher de Adriano trabalharam em seu gabinete. Adriano seria posteriormente apontado pelo Ministério Público como liderança ligada ao Escritório do Crime. Não é necessário transformar Flávio em integrante de milícia para reconhecer a gravidade política dessa proximidade. Os vínculos documentados já falam por si.
Major Ronald também foi homenageado por Flávio e, muitos anos depois, seria condenado no processo relacionado aos assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes. Domingos Brazão, posteriormente condenado no mesmo caso, recebeu o voto de Flávio quando foi indicado ao Tribunal de Contas do Estado, numa eleição em que contou com apoio esmagador da Assembleia. Nesse último episódio, é evidente que ninguém poderia antecipar em 2015 um homicídio ocorrido anos depois.
Mais significativa é a relação com Robson Calixto, o Peixe. Mensagens obtidas pela Polícia Federal mostraram Peixe, posteriormente condenado no caso Marielle, tratando com integrante do gabinete de Flávio sobre uma emenda parlamentar destinada a uma entidade. A comunicação e a emenda existem e ajudam a reconstruir o ambiente de relações políticas daquele período.
O mesmo método precisa ser aplicado aos aliados contemporâneos. Márcio Canella, Douglas Ruas, Rodrigo Bacellar e Cláudio Castro ocuparam posições importantes no mesmo campo político e foram alcançados em momentos diferentes por investigações ou procedimentos das autoridades. Isso não transfere responsabilidade penal a Flávio, mas alianças não são acidentes naturais. Políticos escolhem quem recebem no gabinete, quem promovem, quem colocam no palanque e com quem constroem seus projetos de poder.
É fácil compartilhar o capital eleitoral de um aliado quando ele rende votos e, depois, tratar sua história como assunto exclusivamente pessoal quando surgem investigações. A responsabilidade penal realmente é individual. A responsabilidade política pelas escolhas também existe.
Nem todas as conexões apresentadas contra Flávio possuem o mesmo peso. Sua atuação como advogado de pessoas acusadas de crimes graves, por exemplo, não é elemento válido para criminalizá-lo. O advogado não se confunde com o cliente e a defesa criminal é indispensável ao Estado Democrático de Direito.
Outra situação é utilizar influência política para abrir portas no Estado. Flávio participou de reunião no BNDES com Francisco Maximiano, que posteriormente se tornaria conhecido no escândalo da Precisa Medicamentos e da Covaxin. A reunião ocorreu anteriormente e tratava formalmente de outro negócio. Não demonstra participação de Flávio no caso Covaxin, mas mostra sua capacidade de aproximar pessoas de seu círculo de instituições públicas poderosas.
É exatamente essa capacidade que se torna fundamental quando alguém pede para assumir o Palácio do Planalto.
A campanha presidencial também acrescentou novas controvérsias, desde investigação sobre publicação contra Lula até pagamentos à Elytron, empresa que anteriormente havia apresentado nos Estados Unidos tecnologia de inteligência artificial voltada a operações de influência política. A campanha afirma que contratou serviços de segurança da informação, e não há demonstração pública de que ferramentas ilegais de manipulação eleitoral tenham sido utilizadas. Em vez de especulação, a resposta deveria ser transparência sobre contrato, objeto, serviços prestados e pagamentos.
E eis que a campanha chegou, nesta quinta-feira, 22 de outubro, a um ponto que pode ajudar a transformar suspeitas em respostas verificáveis. Lula e Flávio assinaram no Tribunal Superior Eleitoral um acordo para abertura de sigilos bancários, fiscais e telefônicos, envolvendo candidatos, familiares e empresas relacionadas. Depois de disputa entre as campanhas, a Alcazar Holdings acabou entrando na discussão. A própria empresa protocolou manifestação concordando com a abertura de seus dados e negando que Flávio faça parte de seu quadro societário.
É uma oportunidade que deve ser aproveitada.
Se a relação com Willer é exclusivamente de amizade, os documentos poderão ajudar a demonstrá-lo. Se Flávio jamais teve participação econômica na Alcazar ou na BestBet, a abertura dos dados poderá esclarecer por que apareceu como usuário master da conta da offshore. Se os R$ 13,7 milhões faturados pelo escritório correspondem integralmente a serviços advocatícios efetivamente prestados, contratos, notas e registros podem dissipar dúvidas. Se as viagens custeadas por empresas de Willer foram posteriormente ressarcidas, isso também pode ser documentalmente demonstrado.
A política brasileira ganharia muito se esse fosse o padrão: menos gritos e mais extratos, menos teorias e mais documentos, menos acusações genéricas e mais transparência verificável.
Porque, quando reunimos Banco Master, Daniel Vorcaro, Fabiano Zettel, Willer Tomaz, Dark Horse, milhões de dólares no exterior, Alcazar Holdings, BestBet, R$ 5 bilhões movimentados em apostas por um amigo próximo, acesso bancário como usuário master, apartamento, viagens, aeronaves, faturamento milionário do escritório, Fabrício Queiroz, dinheiro vivo, Adriano da Nóbrega, Major Ronald, Brazão, Peixe, emendas e aliados investigados, já não estamos falando de um único episódio desconfortável.
Estamos falando de uma trajetória política que exige escrutínio extraordinário.
Isso não permite afirmar que Flávio Bolsonaro chefie organização criminosa, participe de milícia ou tenha cometido todos os crimes investigados ao redor desses personagens. Tal conclusão seria irresponsável.
Permite, entretanto, uma conclusão política bem mais simples: quem pretende construir sua candidatura presidencial sobre a promessa de enfrentar o crime organizado e a corrupção tem a obrigação de explicar minuciosamente seu próprio círculo de poder.
Presunção de inocência é garantia constitucional. Confiança política precisa ser conquistada.
Um país não escolhe presidente perguntando apenas se existe sentença criminal transitada em julgado. Escolhe alguém a quem entregará influência sobre a Polícia Federal, inteligência, bancos públicos, ministérios, orçamento, nomeações e instrumentos gigantescos de poder estatal.
É por isso que a pergunta mais relevante talvez nem seja se cada personagem dessa história praticou um crime ao lado de Flávio. A questão é saber que ambiente de poder ele construiu, quem recebeu sua confiança, quem financiou seus projetos, quem abriu ou recebeu portas, quais relações permaneceram ocultas e quantas delas ainda precisam ser explicadas.
Flávio Bolsonaro afirma estar preparado para combater o crime organizado e a corrupção. Sua trajetória permite ao eleitor fazer uma pergunta desconfortável, mas absolutamente legítima: se é esse o combate que pretende liderar no Brasil, quem exatamente foram os parceiros escolhidos para acompanhá-lo até aqui?
Agora que os sigilos começaram a entrar na mesa, a melhor resposta já não precisa vir dos discursos.
Pode vir dos documentos. A inclusão do “usuário master”, da hipótese de sociedade na BestBet, dos R$ 5 bilhões movimentados em apostas, dos R$ 13,7 milhões do escritório e do acordo de sigilos de hoje, 22 de outubro, deixa o artigo bem mais atual e concentra a crítica em fatos documentalmente verificáveis, em vez de depender apenas de associações políticas antigas

Paulo Lemos é advogado e analista político-social
Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias Aef News





