Sem humanidade, não há democracia; com crueldade, há tirania; com o método miliciano, há morte

Por Paulo Lemos
A democracia não começa na urna. Começa antes: no reconhecimento de que quem pensa diferente continua sendo humano. Eleições, partidos, Parlamento, tribunais e Constituição só permanecem de pé quando existe uma fronteira moral que impede que o adversário político seja convertido em inimigo a ser humilhado, perseguido ou eliminado. Quando essa fronteira desaparece, a disputa deixa de ser democrática e passa a flertar com a tirania.
O Brasil já conheceu uma política dura, mas ainda capaz de preservar essa humanidade. Em 2008, quando Ruth Cardoso morreu, Lula cancelou compromissos e foi ao velório prestar solidariedade a Fernando Henrique Cardoso. Em 2015, Dilma Rousseff compareceu ao velório de Thomaz Alckmin, filho de Geraldo Alckmin. Em 2017, quando Marisa Letícia agonizava no hospital, FHC foi encontrar Lula e oferecer condolências.
Nada disso apagou divergências. Lula e FHC continuaram adversários. Dilma e Alckmin seguiram em campos políticos distintos. Mas havia um limite: a dor do outro ainda era reconhecida como dor. Essa talvez seja a definição mais simples de civilização.
Nos últimos anos, porém, esse limite foi sendo corroído. A pandemia de Covid-19 expôs isso de forma brutal. O Brasil superou 700 mil mortes. Famílias inteiras foram atravessadas pelo luto, hospitais colapsaram, profissionais de saúde chegaram ao limite e milhares de pessoas morreram sem conseguir respirar. Nesse cenário, o então presidente Jair Bolsonaro protagonizou episódios públicos de deboche relacionados à falta de ar de pacientes. Não se tratava mais de discordância sobre medidas sanitárias. Era a transformação do sofrimento em espetáculo político.
A democracia começa a adoecer exatamente aí: quando a compaixão passa a ser tratada como fraqueza e a crueldade, como sinal de força.
Depois veio algo ainda mais grave. A derrota eleitoral de 2022 foi seguida por uma articulação para impedir a posse do governo eleito e romper a ordem constitucional. Hoje, isso já não pertence ao terreno da suspeita ou da retórica partidária. Em setembro de 2025, Jair Bolsonaro foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 27 anos e três meses de prisão, em ação penal relativa à tentativa de golpe de Estado. O STF reconheceu seu papel de liderança na organização criminosa. A condenação transitou em julgado e a pena passou a ser cumprida.
Mais perturbador ainda foi o plano “Punhal Verde e Amarelo”. Segundo os autos julgados pelo Supremo, o plano envolvia o monitoramento e a eliminação de Luiz Inácio Lula da Silva, Geraldo Alckmin e Alexandre de Moraes. O general da reserva Mário Fernandes foi apontado como responsável por sua elaboração e posteriormente condenado. O próprio STF registrou que o objetivo era manter o grupo no poder à força, ainda que isso implicasse matar autoridades, destruir instituições e gerar caos social.
É aqui que surge a expressão “método miliciano”. Não a utilizo como rótulo jurídico automático contra qualquer pessoa ou grupo político, mas para descrever uma lógica de poder: intimidar, vigiar, constranger, transformar o adversário em ameaça, normalizar a violência e admitir sua eliminação quando ele se torna obstáculo. O método miliciano não debate; coage. Não persuade; amedronta. Não aceita alternância; busca domínio. E, quando levado às últimas consequências, produz morte.
Por isso, reduzir tudo a “polarização” é insuficiente. Polarização existe quando dois campos disputam intensamente dentro das regras. Outra coisa é atacar a legitimidade das eleições, conspirar contra a posse de quem venceu e planejar a neutralização física de autoridades.
A diferença é fundamental. Direita e esquerda pertencem à democracia. Conservadores, liberais, social-democratas, socialistas e outras correntes podem competir legitimamente pelo voto. O que não pertence à democracia é a ideia de que perder uma eleição autoriza romper o sistema que produziu o resultado.
Também é preciso distinguir justiça de vingança. Responsabilidade criminal é individual. Cada acusado deve responder apenas pelos atos que lhe forem comprovados, com contraditório, defesa, recursos e julgamento por autoridade competente. É justamente essa garantia que diferencia o Estado de Direito da lógica autoritária. Democracia pune crimes sem transformar o réu em inimigo sem direitos.
Talvez por isso aquelas imagens do passado sejam tão importantes: Lula consolando FHC; Dilma abraçando Alckmin; FHC procurando Lula no hospital. Eram adversários. Mas a dor ainda não tinha partido.
Uma sociedade pode suportar crises econômicas, governos ruins, escândalos e disputas eleitorais ferozes. O que ela não suporta indefinidamente é a desumanização como método político.
Primeiro, ri-se da dor. Depois, banaliza-se o ódio. Em seguida, o adversário deixa de ser cidadão e vira inimigo. Quando isso acontece, perseguir parece aceitável. Silenciar parece necessário. Eliminar pode passar a ser tratado como solução.
É assim que democracias morrem por dentro antes mesmo de suas instituições desaparecerem por fora.
Por isso, a reconstrução democrática brasileira não depende apenas de eleições livres ou de crescimento econômico. Depende de recuperar um princípio anterior a tudo isso: ninguém perde sua humanidade porque pensa diferente.
Sem humanidade, não há democracia.
Com crueldade, há tirania.
Com o método miliciano, há morte.

Por Paulo Lemos, advogado e analista político-social
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