Ridicularizaram setecentos mil mortos: agora querem seu voto

Paulo Lemos
Você lembra. Não finja que não lembra. Os caminhões frigoríficos com corpos empilhados.
Manaus sem oxigênio, gente morrendo sufocada em casa, valas coletivas abertas com pressa, famílias se despedindo por videochamada porque não podiam enterrar seus mortos.
O presidente da República chamando aquilo de gripezinha, dizendo “e daí?”, zombando de quem chorava, receitando remédio sem eficácia comprovada enquanto sabotava a vacina que salvava.
709.195 brasileiros morreram por Covid-19, segundo o IBGE. A CPI da Pandemia concluiu que Bolsonaro teve “papel preponderante” para que o país alcançasse essa marca.
O relatório final pediu o indiciamento do ex-presidente por nove crimes, incluindo charlatanismo, prevaricação, epidemia com resultado morte e crimes contra a humanidade — extermínio e perseguição, conforme o Estatuto de Roma.
Em setembro de 2025, o ministro Flávio Dino determinou a abertura de inquérito pela Polícia Federal para investigar as conclusões da CPI. E o clã nunca pediu perdão, porque nunca teve vergonha. Foi o ensaio.
Quem ridicularizou setecentos mil mortos não vai hesitar com você, até porque eles exalam a violência e morte por onde passam.
Agora entenda a máquina que está sendo montada de novo, peça por peça, e que se prepara para voltar ao centro do poder.
Comece pelo bolso, que é onde tudo dói primeiro.
A Faria Lima pauta a taxa de juros do Banco Central com a desculpa de controlar a inflação.
O resultado é que o Brasil tem o maior juro real do mundo, a 9,30%, segundo levantamento da MoneYou em parceria com a Lev Intelligence.
Crédito caro para quem produz, investimento sufocado, comércio fechando, indústria definhando, e uma dívida pública que devora o orçamento que deveria pagar hospital, escola e segurança.
Enquanto isso, o rentismo lucra com a ciranda que ele mesmo mantém e remete os ganhos para fora, sem compromisso com o país que os gerou.
A Globo, cuja expansão foi chancelada pela ditadura militar, admitiu em editorial de 2013 que “o apoio editorial ao golpe de 64 foi um erro” — reconhecimento tardio de uma aliança que moldou décadas de formação da opinião pública brasileira.
Agora ela mudou suas próprias regras do debate do último turno, para excluir o candidato do Missão, Renan Santos, para beneficiar Flávio, segundo denúncia em Carta Aberta do jovem concorrente ao Planalto.
A máquina avança sobre a fé — e aqui é preciso ser preciso, porque o alvo não é a religião, é o uso dela. Mendonça, ministro que se autointitulou terrivelmente evangélico, e
Nunes, chamado por críticos de ministro-bacanal, simbolizam a captura de instituições por conveniência política e moralismo seletivo.
Silas Malafaia transformou púlpito em palanque e bênção em moeda de troca, atuando como porta-voz de cerca de 90 mil igrejas evangélicas que abrigam 74 milhões de brasileiros — 36% da população.
A Frente Parlamentar Evangélica reúne 219 deputados e 26 senadores no Congresso Nacional. Criticar isso não é atacar a fé de milhões de evangélicos brasileiros — é justamente defendê-los dos pastores que a usam como mercadoria.
A máquina domina o digital. Meta, Google, X e outras big techs manipulam algoritmos, alcance e entrega de conteúdos.
Dado oficial do governo brasileiro revela que, dos 20 websites mais usados no Brasil, 12 pertencem a um punhado de corporações de big tech dos Estados Unidos — Alphabet, Meta, OpenAI, X, Microsoft e suas plataformas.
O documento aponta “manipulação psicológica de usuários”, “políticas de moderação que promovem extremismo”, “lobby legislativo” e “fragilização de independência do jornalismo”.
É um poder privado, transnacional, que decide o que milhões de brasileiros veem, pensam e compartilham, sem que ninguém tenha votado nele.
A máquina desce ao chão, onde ela mata. Estudo do Geni-UFF e do Instituto Fogo Cruzado mostra que, em 2024, 3,4 milhões de pessoas — 29,7% da população da região metropolitana do Rio — viviam sob controle de grupos armados.
As milícias controlam 49,4% das áreas dominadas, o equivalente a 201 km², sendo o grupo com maior atuação armada em extensão territorial.
As bets, muitas ligadas a esquemas de lavagem de dinheiro, como a Dark Horse, dominam territórios e impõem terror onde nem as facções conseguiam chegar.
A Operação Narco Bet, deflagrada pela Polícia Federal em outubro de 2025, desarticulou esquema de lavagem de dinheiro vinculado ao tráfico internacional de drogas que usava bets para movimentar recursos: 11 prisões e R$ 630 milhões bloqueados em bens e valores.
Famílias são desgraçadas, dívidas se acumulam, casamentos se rompem, jovens se matam, e o dinheiro sujo circula com aparência de entretenimento, com o Estado olhando para o lado.
A máquina se projeta no mundo. Trump volta ao centro da cena com tarifaço sobre o Brasil e porta-aviões encostando na América do Sul. Não é coincidência, não é gesto isolado.
É pressão calculada para desestabilizar o país e favorecer quem se alinha, sem pudor, aos interesses estrangeiros.
Quem entrega a soberania em troca de proteção pessoal não governa — obedece.
Agora junte as peças e responda com honestidade: a quem serve tudo isso?
O beneficiário final tem nome, rosto e ficha. Flávio Bolsonaro é investigado no Supremo Tribunal Federal por corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas — investigado, não condenado, e a diferença importa num Estado de Direito.
O caso Dark Horse apura o financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro com recursos do Banco Master, de Daniel Vorcaro.
Flávio teria negociado diretamente com Vorcaro um aporte de US$ 24 milhões (cerca de R$ 134 milhões na cotação da época) para financiar a produção.
Documentos e mensagens analisados pelo Intercept apontam que pelo menos US$ 10,6 milhões — cerca de R$ 61 milhões — foram pagos entre fevereiro e maio de 2025. Em 25 de abril de 2025, a Entre Investimentos, ligada ao Banco Master, transferiu US$ 3.333.334 ao fundo Havengate, que recebia recursos para o filme. Seis dias depois, Flávio e Vorcaro desembarcaram na Flórida em jatos diferentes, com 19 minutos de diferença.
E o risco institucional é claro: se eleito presidente, a investigação pode ser paralisada automaticamente por força do artigo 86, §4º, da Constituição, que impede a responsabilização do presidente por atos anteriores ao mandato. Ou seja: a eleição funciona como blindagem.
E não para por aí. A Polícia Federal investiga uma emenda parlamentar de Flávio Bolsonaro no valor de R$ 199 mil destinada ao Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (Ifop), ONG sediada na Taquara, área de influência dos irmãos Brazão — Domingos e Chiquinho, condenados como mandantes do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes.
O repasse foi articulado por Robson Calixto Fonseca, o “Peixe”, policial militar da reserva, ex-assessor de Domingos Brazão no TCE-RJ e condenado por organização criminosa no caso Marielle.
A PF identificou que Peixe operava como captador de emendas para ONGs controladas pela milícia: entre 2020 e 2024, esse conjunto de organizações captou R$ 268 milhões em repasses parlamentares.
Marielle foi executada com cinco tiros na cabeça. Disputaria contra Flávio a candidatura ao Senado no mesmo ano.
A coincidência é grande demais para ser ignorada.
E há mais. Flávio Bolsonaro, mesmo já ocupando o cargo de senador, atuou como advogado na defesa de policiais acusados de assassinato.
Reportagem amplamente noticiada revela que ele integrou a defesa do cabo Bruno Delaroli, policial militar acusado de matar Ana Clara Machado, de 5 anos, em 2021.
Flávio assinou recurso ao Superior Tribunal de Justiça para tentar impedir que o caso fosse a júri popular.
O recurso foi negado. A mãe da criança declarou: “Saber que uma pessoa que concorre à presidência tá defendendo um monstro… é surreal e assustador”.
Miliciano é policial que envergonha a farda, que troca o juramento pela propina e transforma o poder de proteger em licença para matar.
Quem defende esse tipo de gente, ainda que no papel, revela de que lado está.
E não para por aí. Flávio Bolsonaro defende abertamente as bets, o mesmo setor que devastou o orçamento de centenas de milhares de famílias brasileiras, transformando sonhos em dívidas, casamentos em ruínas e jovens em apostadores compulsivos.
Setor sobre o qual recaem fortes indícios de ser usado para lavar dinheiro e até para financiar o crime organizado mais pesado do país.
Ele não defende as bets por acaso: defende porque entende que esse dinheiro sujo circula em benefício próprio e dos aliados.
Quem protege o cassino protege a banca. E a banca, aqui, é o crime.
Mídia, fé, algoritmos, milícias, bets, tarifas e navios não convergem por acaso: convergem para blindar essa candidatura e manter vivo o projeto de poder de uma família. Cada peça lucra com o atraso, com a desinformação, com a miséria e com a submissão.
E cada uma protege as outras, porque sabem que, sozinhas, não sobrevivem.
E se esse projeto chegar ao poder central do país, o que virá? Não será continuidade. Será aceleração.
O Banco Central seguirá submisso ao rentismo, e o povo pagará juros de agiota para sobreviver. As bancadas religiosas receberão ministérios e orçamentos em troca de obediência e silêncio.
As big techs ganharão ainda mais espaço para manipular eleições sem freio. As milícias serão tratadas como parceiras, não como crime organizado.
As bets continuarão destruindo famílias com o aval do Estado. A política externa será entregue a Washington, e a soberania brasileira será leiloada em nome de conveniência pessoal.
A imprensa crítica será perseguida, e o país descerá mais um degrau rumo ao autoritarismo com fachada democrática.
E, na próxima crise sanitária, ninguém pode duvidar: o clã fará de novo o que já fez. 709.195 mortos não foram acidente. Foram ensaio.
Eles já mostraram do que são capazes. A única coisa que muda na próxima vez é que estarão mais preparados.
Mas indignação sem programa é só eco. O que fazer, então?
Primeiro, regular as big techs com obrigação de transparência algorítmica, auditoria independente e direito de recurso — do mesmo modo que se regula qualquer setor com poder sobre a vida pública.
Segundo, rever o mandato e a autonomia do Banco Central, para que a política monetária sirva também ao emprego e ao crescimento, não apenas ao rentismo.
Terceiro, tributar grandes fortunas e lucros e dividendos, corrigindo a injustiça de um sistema em que quem ganha mais paga proporcionalmente menos.
Quarto, regulamentar as bets com rigor, rastreando origem de recursos e responsabilizando plataformas por lavagem de dinheiro.
Quinto, enfrentar o crime organizado com política séria de segurança pública, inteligência e controle de fronteiras — não com retórica de guerra que só mata pobre.
Sexto, defender a soberania brasileira com política externa independente, sem alinhamento automático a Washington nem a qualquer outra potência.
Sétimo, e mais importante: memória. Sem punir os crimes da pandemia, os crimes da milícia e os crimes do poder, o Brasil vai repetir todos eles.
Desmontar esse arranjo exige mais do que eleição. Exige coragem, organização, povo na rua, voto consciente e instituições que não se curvem. Exige soberania.
E soberania, como se vê, é exatamente o que querem que o Brasil nunca tenha.

Paulo Lemos é advogado em Cuiabá-MT.
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