Jayme pede desculpas por ter apoiado Mauro Mendes; Wellington e Fávaro cobram investigação após operação da PF

Os três senadores de Mato Grosso fizeram, no plenário do Senado, uma ofensiva conjunta em torno da Operação Heritage e das suspeitas que atingem o grupo político do ex-governador Mauro Mendes (União). Jayme Campos (União) subiu o tom, chamou o governo construído pelo antigo aliado de “antro de corrupção” e “balcão de negócios”, pediu perdão por ter apoiado Mauro em 2018. Carlos Fávaro (PSD) e Wellington Fagundes (PL), adversários de Mauro na eleição, também cobraram aprofundamento das investigações.
O embate ocorreu menos de uma semana depois de a Polícia Federal deflagrar a Heritage, que apura suspeita de desvio de mais de R$ 308 milhões relacionada ao acordo firmado pelo Governo de Mato Grosso com a Oi. A operação atingiu Mauro, familiares, o deputado federal Fábio Garcia (União), integrantes do primeiro escalão do governo e outros investigados. Foram cumpridos 25 mandados de busca e apreensão e determinadas medidas como bloqueio de até R$ 316 milhões, quebra de sigilos, recolhimento de passaportes e proibição de contato entre investigados.
A PF investiga se os créditos pagos pelo Estado passaram por uma estrutura de fundos e empresas em cascata para ocultar ou dissimular a origem, circulação e destino final do dinheiro. A existência dessa estrutura e seus vínculos são objeto da investigação; ainda não há decisão judicial reconhecendo que os investigados tenham cometido os crimes apurados.
Foi nesse cenário que Jayme fez o discurso mais duro até agora contra Mauro, rompendo publicamente com o ex-governador poucos dias depois de ter sua candidatura ao Palácio Paiaguás derrotada dentro do próprio União Brasil.
“Lamentavelmente, hoje, o Estado de Mato Grosso passou a ser um verdadeiro balcão de negócios, passou a ser um estado que não é do povo, é um estado privado, um estado de meia dúzia de cidadãos que estão, com certeza, usurpando o erário público”, disparou.
Mais adiante, Jayme afirmou que Mato Grosso teria se transformado em “um antro de corrupção” e falou em “grandes negociatas feitas na calada da noite”. As acusações são do senador e não representam conclusão da Polícia Federal ou do STF sobre responsabilidade criminal de Mauro ou dos demais investigados.
Perdão por Mauro
O discurso também marcou um acerto de contas político. Jayme lembrou que foi um dos principais responsáveis por apresentar Mauro ao eleitorado em 2018, quando o empresário voltou à disputa pelo governo depois de ter deixado a Prefeitura de Cuiabá.
“Diante das câmeras de televisão do Senado Federal, dos ouvintes da Rádio e da TV Senado, eu quero pedir ao povo de Mato Grosso minhas desculpas. Perdão por ter saído, em 2018, puxando por estas mãos aqui, deste homem que conhece palmo a palmo do nosso estado, e apresentando o cidadão Mauro Mendes”, declarou.
Jayme afirmou que esperava que Mauro fosse “um homem de bom caráter” e que correspondesse às expectativas depositadas nele.
“Por isso eu estou aqui, com a minha humildade, que é peculiar, pedindo perdão para o povo de Mato Grosso, por lhe dar, com certeza, essa oportunidade”, completou.
A fala ocorre em meio a uma ruptura recente dentro do União Brasil. Em 30 de julho, Jayme tentou ser homologado candidato ao governo, mas foi derrotado por 30 votos a 19 na convenção. O grupo liderado por Mauro venceu a disputa interna, retirou a candidatura própria do União e levou o partido para a chapa de reeleição de Otaviano Pivetta (Republicanos).
Uma semana depois, em 6 de agosto, a Heritage atingiu justamente o núcleo político que venceu Jayme na convenção. Desde então, a operação já provocou mudanças na chapa e no governo: Fábio Garcia deixou a vaga de vice de Pivetta e voltou à disputa pela Câmara Federal; Gisela Simona (União) foi escolhida para substituí-lo. Mauro Carvalho deixou a Casa Civil, enquanto Francisco Lopes saiu do comando da Procuradoria-Geral do Estado.
Usina ligada a Pivetta
Jayme estendeu as acusações ao entorno do atual governador.
Ao tratar do caminho percorrido pelos R$ 308 milhões, afirmou que recursos chegaram a empresas privadas relacionadas ao ex-chefe da Casa Civil Mauro Carvalho e mencionou “o próprio governador”, citando uma usina no Piauí.
“Os R$ 308 milhões do negócio com a Oi também foram parar em empresas particulares lá do Estado de Mato Grosso, do ex-secretário-chefe da Casa Civil de Mato Grosso, demitido no dia de ontem, e até do próprio Governador. São sócios de um empreendimento, de uma usina, no Estado do Piauí”, afirmou Jayme.
Documentos societários divulgados nesta quarta-feira (12) mostram que o Green Lake Fundo de Investimentos em Participações realizou aportes de R$ 10,9 milhões na Brasbio, usina em construção em Uruçuí, no Piauí, ligada ao grupo empresarial de Pivetta. O Green Lake aparece entre os fundos analisados pela PF na estrutura financeira investigada na Heritage. Também aparecem investimentos na usina de empresas ligadas a Mauro Carvalho.
A existência do investimento, porém, não significa que esteja comprovado que os R$ 10,9 milhões tenham origem nos R$ 308 milhões pagos pelo Estado. É justamente a origem, movimentação e destinação dos recursos dentro da cadeia de fundos que está sob apuração da Polícia Federal.
Fávaro: “nada fique encobertado”
Carlos Fávaro pediu um aparte durante o discurso e acompanhou a cobrança por investigação, embora tenha adotado tom mais cauteloso sobre responsabilidades individuais.
“Fico muito triste. Mais uma vez, o Mato Grosso tendo, na sua história, uma operação policial com denúncias tão graves”, afirmou.
O senador defendeu o direito de defesa dos investigados, mas cobrou que as apurações avancem.
“Defendo o pleno direito de defesa, o amplo direito de defesa, mas que nada fique encobertado. O povo mato-grossense não merece, Senador Jayme Campos, passar por mais essa tristeza.”
Fávaro também aproveitou o aparte para solidarizar-se politicamente com Jayme após a derrota dentro do União. Disse lamentar que o senador, mesmo aparecendo competitivo nas pesquisas para governador, não tenha conseguido disputar a eleição pelo partido e afirmou que estará “sempre junto” dele.
Wellington rejeita tese eleitoral
Wellington, candidato ao governo e adversário direto de Pivetta, também entrou no debate e tentou afastar a tese sustentada por Mauro de que a Heritage seria resultado de perseguição eleitoral.
O senador lembrou que denúncias sobre o acordo da Oi e fundos ligados ao Banco Master já haviam sido levadas anteriormente à CPI do Crime Organizado pelo ex-governador Pedro Taques (PSB), hoje também adversário de Mauro na disputa pelo Senado.
“E não venham dizer que isso é denúncia apenas eleitoreira, porque isso foi feito lá atrás, e nós nunca acusamos. Nós só pedimos as investigações”, afirmou Wellington.
Segundo ele, o período eleitoral não pode funcionar como obstáculo à atuação dos órgãos de investigação.
“Como se alguém que roubasse durante a campanha não pudesse ser investigado. Isso é um absurdo”, declarou.
Wellington também mirou Pivetta. Disse que o atual governador reivindicava participação nas realizações dos mais de sete anos em que foi vice de Mauro, mas agora tentaria se afastar dos episódios sob investigação.
“O atual Governador, que foi por sete anos e pouco Vice-Governador, disse que não sabia, não acompanhou, sendo que, uma semana atrás, ele dizia que tudo o que aconteceu no Governo durante esses sete anos e pouco foi mérito dele também. Agora começam as denúncias e já quer se esquivar”, afirmou.
Na terça-feira (11), Wellington já havia afirmado que Mato Grosso estava “mergulhado em escândalos” e relacionado a saída de Fábio Garcia da vice de Pivetta ao desgaste provocado pela Heritage.
Mauro fala em “armação”
Mauro nega irregularidades e afirma que a operação é utilizada politicamente para tentar retirá-lo da disputa. Desde a deflagração da Heritage, ele sustenta que o acordo com a Oi foi analisado por órgãos de controle e que a negociação representou economia aos cofres estaduais. Também classificou o episódio como “armação eleitoral” e comparou o que enfrenta à perseguição que atribui aos adversários do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O governo sustenta que o débito cobrado pela Oi superava R$ 600 milhões e que o acordo por R$ 308 milhões evitou um desembolso maior. A Polícia Federal, por outro lado, concentra a investigação não apenas na validade formal do acordo, mas principalmente no caminho percorrido pelos créditos e nos fundos e empresas que receberam recursos posteriormente.
A Heritage apura, em tese, possíveis crimes de organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro, crimes contra o Sistema Financeiro Nacional e uso indevido de informação privilegiada. As diligências estão em andamento e não há condenação contra Mauro, Pivetta ou os demais citados.
(Olhar Direto)






