Manifesto das Mãos Limpas

Manifesto das Mãos Limpas
Fotos: Divulgação

Por Paulo Lemos*

Escrevo este manifesto não como quem se coloca acima dos outros, mas como quem se recusa a naturalizar o que não pode ser naturalizado. Meu voto foi coerente com tudo o que defendi ao longo da minha trajetória como sujeito público e político. Quando saí da cabine de votação, percebi algo simples: minhas mãos estavam limpas. Limpas do sangue dos que morreram. Limpas de um centavo sequer dos cargos que ocupei nos três poderes da República. Limpas do ódio por quem pensa diferente de mim. Limpas da disposição de ser agressivo ou violento, como quem age como uma besta selvagem. Quem trabalhou comigo e acompanhou meu trabalho é testemunha disso.

Sempre lutei pela vida e para salvar vidas, sem pedir algo em troca. A satisfação de saber que contribuí para alguém se livrar da morte — de um bebê a um idoso, sem distinção — já é a melhor recompensa que posso receber. Herdei da minha mãe a vocação de amar e ajudar o próximo, inclusive nos casos de pessoas que me prejudicaram, me subestimaram ou abusaram da minha boa-fé. Isso está longe de ser trouxa: é uma questão de humanidade.

Quanto à minha atuação no serviço público, pode ser auditada de ponta a ponta. Todo trabalho que fiz pode ser escrutinado. Meus sigilos bancários, fiscais e telefônicos estão à disposição de qualquer pessoa que queira ver. Diferente dos fariseus que difamam, caluniam e praticam injúria, mas sequer permitem que alguém veja seu WhatsApp — porque, nesses casos, a casa cai.

Não havia entre meus dedos o sangue de Marielle, de Ana Clara, de Amarildo, de Mariana, de tantas Marias e de tantas vítimas de uma violência que parte do Brasil resolveu relativizar, justificar ou esquecer. Não aceito como normal a ação de milicianos sanguinários que ocupam territórios, aterrorizam comunidades e agem como esquadrões de extermínio, a exemplo do Escritório do Crime no Rio de Janeiro, onde se encomendava a execução de pessoas inocentes.

Também não precisei pisar sobre o caixão de centenas de milhares de brasileiros mortos durante a pandemia para votar nos responsáveis por essa catástrofe sanitária. Não precisei desprezar a dor de quem perdeu pai, mãe, filho, avó, irmão ou amigo. Tive perdas como essas e sei o quanto dói na alma de quem fica. Não transformei sofrimento em deboche, nem morte em estatística conveniente. Cada número era uma vida. Cada família precisava de acolhimento. Isso é o mínimo que um ser humano pode sentir e fazer por outro, sem acepção de pessoas.

Não estive ao lado daqueles que flertaram com o golpe, atacaram as instituições e tentaram desacreditar o instrumento mais elementar da democracia: o direito do povo de escolher, pelo voto, quem deve governá-lo. Não esqueço os ataques frontais, os boicotes e as trapaças, a manipulação de algoritmos nas mídias sociais, o cancelamento de voos para o Nordeste e a retirada de ônibus de circulação em vários lugares — Salvador, São Paulo, Teresina e alhures — no dia da eleição, para impedir que o eleitor trabalhador, dependente do transporte coletivo, chegasse à sua seção eleitoral.

Recuso a hipocrisia de quem fala em Deus, Pátria e Família enquanto cultiva o ódio e a violência como método político. De quem diz defender a pátria, mas se curva diante de interesses estrangeiros quando lhe convém. De quem posa de guardião da moral enquanto mantém, longe das câmeras e das redes sociais, uma vida contraditória entre o que fala e o que faz. De quem exige dos outros fardos morais que jamais carregou. Conheço muita gente assim. Com nome, RG e CPF. Gente que discursa contra a corrupção, mas conhece bem os atalhos da malandragem, do lobby, dos acertos e dos desvios — e depois posa de repositório de retidão moral. Gente que passa a semana fazendo aquilo que condena nos outros e, no fim de semana, aparece na igreja, publica fotografia de família perfeita e veste novamente a fantasia de “cidadão de bem”. Gente que acumulou patrimônio por caminhos sobre os quais seria melhor não fazer tantas perguntas, mas prefere contar a história edificante do “trabalho duro” enquanto aponta o dedo para quem se recusou a trilhar a mesma estrada sinuosa.

Me impressiona a quantidade de pessoas que falam de Jesus sem compreender uma linha do que Ele ensinou. Julgam, condenam, humilham e perseguem, enquanto transformam dinheiro, poder e status social em divindades. O Jesus que eles dizem crer é diferente daquele que eu conheço. O deles segura arma na mão, atira e mata, propaga o ódio e aliena pessoas por intermédio da religião, como aparelho de controle e manipulação. Eu me inspiro naquele Nazareno que, vendo o mesmo cenário no seu tempo, nas sinagogas, chamou os estelionatários e mercadores da fé de raça de víboras e sepulcros caiados.

Se eu resolvesse contar tudo o que vi, ouvi e presenciei ao longo da vida pública, profissional e política — especialmente sobre alguns dos que mais gostam de posar de juízes da moral alheia —, muitas máscaras cairiam e castelos ruiriam. Por isso, caso alguém vista a carapuça e fique incomodado com estas palavras, terá dois trabalhos: sentir e depois deixar de sentir. Nunca tive medo de ameaça, intimidação, arma, grito ou valentão de ocasião. Aprendi cedo a me defender e também a não recuar diante da prepotência e da ignorância. Não dou marcha à ré. Quem vier para cima de mim deve saber que encontrará alguém que conhece seus direitos, sua história, seus erros e acertos, seus limites e o que não tem fim.

Antes de apontar o dedo, olhe para as próprias mãos. Antes de condenar a vida dos outros, revise a sua. Antes de transformar Deus em instrumento político, pergunte-se se aquilo que você pratica quando ninguém está olhando suportaria a mesma exposição pública que você exige dos seus adversários. Porque memória eu tenho. E muita coisa que alguns preferem esquecer eu ainda lembro muito bem.

Hoje votei em paz. Posso concordar ou discordar de governos, partidos, candidatos e decisões políticas. Isso faz parte da democracia. Mas existe uma fronteira que, para mim, nunca esteve em negociação: entre a política e a barbárie; entre a democracia e o autoritarismo; entre a fé e a hipocrisia; entre defender a família e usá-la como figurino; entre combater a corrupção e apenas escolher qual corrupção merece indignação. Meu voto atravessou essa fronteira do lado que minha consciência permite. E, quando saí da urna, minhas mãos continuavam limpas, a consciência tranquila e a alma leve — por repudiar a morte calculada e intencional, por travar o bom combate e por ter cumprido o meu dever.

Paulo Lemos é advogado e analista político-social.

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