A máscara caiu de vez: da mentira deslavada, do desconhecimento sobre o Brasil, do ódio que antecede o preconceito, à covardia e crueldade diante da dor alheia

Paulo Lemos
O debate da TV Globo entre Lula e Flávio Bolsonaro não foi apenas um confronto de propostas. Foi o retrato definitivo de um abismo moral. De um lado, a verdade factual e a dignidade do trabalho; do outro, a indústria da mentira, o deboche capacitista e a mais profunda covardia diante da dor de mães que perderam seus filhos para a violência que tantos insistem em negar.
Comecemos pelos números, que são frios, mas escancaram a desproporção. Levantamentos de checagem em tempo real classificaram 16 das 17 falas de Flávio Bolsonaro como falsas ou enganosas. Em outro placar, o candidato do PL acumulou 75 declarações falsas ou distorcidas. A mentira, quando se torna método, não é um erro: é uma escolha deliberada que corrói a própria possibilidade do debate democrático.
Mas a gravidade do que se viu não se esgota na aferição de veracidade. Ela atinge o terreno da mais profunda crueldade. E o primeiro sintoma veio com a piada sobre os nove dedos.
O deboche capacitista e a resposta que ecoou
Durante uma discussão sobre o salário mínimo, Flávio afirmou: “Não adianta nada o salário mínimo ser de R$ 1.621 se você dá com uma mão e tira com os nove dedos!”. A frase faz referência direta ao acidente de trabalho que Lula sofreu em 1964, aos 17 anos, quando era torneiro mecânico e teve parte do dedo mínimo da mão esquerda amputada por uma prensa. Usar uma deficiência provocada pela luta por sobrevivência como piada é a expressão máxima de um deboche que desumaniza quem trabalha.
A resposta de Lula foi imediata e transformou a ofensa em defesa da dignidade dos trabalhadores: “Ele me chamou de nove dedos. Se tem alguém que sabe o que é o mundo do trabalho sou eu. Não vou permitir que um miliciano me chame de nove dedos, não vou permitir! Você vai ter que pedir desculpa”. Pressionado, Flávio recuou ao vivo: “Lula, se eu te ofendi porque te chamei de nove dedos, peço desculpas, de verdade. Não queria te ofender”. O pedido de desculpas, no entanto, não apaga o fato de que a provocação foi calculada e revelou o que o candidato pensa sobre a classe trabalhadora.
Ana Clara: a covardia diante da mãe
Se a piada sobre os nove dedos expôs o deboche, o caso de Ana Clara expôs a covardia. A menina de 5 anos foi morta por um tiro de fuzil em Niterói, em 2021, e Flávio Bolsonaro atuou como advogado do policial militar acusado pelo disparo. A mãe de Ana Clara, Cristiane Gomes da Silva, estava na primeira fila da plateia, ao lado de Geraldo Alckmin e Janja.
Quando confrontado por Lula sobre por que defendia o policial, Flávio respondeu sem olhar nos olhos de Cristiane. Pior: confundiu-se e chamou a mãe pelo nome da filha morta: “Ana Clara [sic], eu quero falar com a senhora e prestar de verdade a minha solidariedade”. Cristiane reagiu na hora: “Ela morreu”. Em vez de humanidade, Flávio repetiu o enredo que a família contesta há anos: “Era uma troca de tiros numa comunidade conflagrada”. A mãe foi taxativa: “Eu estava lá, eu vi minha filha morrer e não tinha traficante lá”. O senador ainda teve a desfaçatez de dizer que o PM “nem sequer foi julgado ainda” — omitindo que foi ele próprio quem assinou um recurso ao STJ contra a decisão de levar o réu a júri popular.
Marielle e a emenda de R$ 200 mil
No mesmo auditório, testemunhando a cena, estava Marinete Silva, mãe de Marielle Franco. A presença não foi acidental: Lula lembrou que Flávio destinou uma emenda parlamentar de R$ 200 mil a um projeto associado a um miliciano condenado por envolvimento no assassinato da vereadora. A ligação entre o candidato e o “Escritório do Crime” é antiga: em 2005, ele homenageou com a Medalha Tiradentes o ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega, apontado como chefe da milícia.
A pandemia: a mentira sobre o deboche do pai
Se há um episódio que sintetiza a metodologia da mentira aplicada à memória da pandemia, é a defesa que Flávio tentou fazer do pai no debate. Lula lembrou que Jair Bolsonaro foi filmado rindo e imitando uma pessoa asfixiada por falta de ar durante a crise de oxigênio em Manaus. Flávio rebateu de imediato: “É mentira. Se você pegar 10 segundos antes e 10 segundos depois, você vai ver que é exatamente o contrário. É o presidente Bolsonaro criticando que à época se defendia que as pessoas precisavam sentir falta de ar para depois irem pro hospital”. Pediu, ainda, que sua equipe publicasse nas redes a “versão real” do vídeo.
A checagem, porém, desmentiu a versão. O serviço Fato ou Fake, do g1, e a Agência Lupa classificaram a declaração de Flávio como falsa. A gravação divulgada pela equipe do senador foi editada, omitindo cerca de 30 segundos do material original de uma live oficial de 18 de março de 2021. No vídeo completo, o então presidente imita sons de sufocamento e diz: “Você vai para casa, e quando você estiver lá… (sons de sufocamento) com falta de ar, aí você vai para o hospital”. Agências de checagem relembraram que Bolsonaro imitou publicamente cidadãos sufocando por falta de ar em mais de uma oportunidade durante transmissões ao vivo naquele ano. A alegação de que não havia vacinas também é falsa: a campanha de vacinação no Brasil começou em 17 de janeiro de 2021, dois meses antes da transmissão citada.
A cena é reveladora. Flávio não apenas mentiu sobre o que o pai fez: editou a realidade para tentar apagar o deboche e, quando confrontado com os fatos, insistiu na versão fabricada. É a mesma lógica que o levou a desviar os olhos da mãe de Ana Clara e a repetir um enredo que ela própria desmentiu no auditório.
Outros fatos graves que o debate expôs
O debate também trouxe à tona outras facetas que desmentem o personagem que Flávio tentou encenar. Ele foi confrontado sobre o voto contrário à ampliação da licença-maternidade quando era deputado estadual, e reconheceu o voto, justificando que “estava errado”. Lula lembrou ainda que Flávio nunca trabalhou de verdade: seu primeiro emprego foi “falso, no gabinete do pai”. E citou as ligações com o banqueiro Daniel Vorcaro, envolvendo R$ 134 milhões não explicados, além da orgia no iate da Covaxin durante a pandemia, quando negociava propinas enquanto o país enterrava vítimas evitáveis.
A diferença entre os candidatos não é de porcentagem. É de substância. É a diferença entre a verdade e a mentira; entre a empatia e o deboche; entre a coragem de encarar a dor e a covardia de desviar o olhar. Flávio Bolsonaro pode até tentar maquiar seu discurso, mas a máscara caiu. E, contra fatos — e contra a dor de mães que clamam por justiça — não há argumento que resista.

Paulo Lemos é Advogado e Analista Político-social em Cuiabá/MT
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