Vínculo entre ROCKBRIDGE NETWORK e o CLÃ BOLSONARISTA põe EM PERIGO AS TERRAS RARAS E OS MINERAIS ESTRATÉGICOS DO BRASIL

Esqueça por um instante o santinho, o comício e o horário eleitoral. A disputa pelo poder no século XXI começa muito antes do pedido de voto. Começa no dinheiro que financia ideias, nas empresas que controlam tecnologia, nas redes sociais que distribuem informação, nos influenciadores que fabricam tendências e nas organizações que formam políticos, jornalistas e lideranças para os próximos dez ou vinte anos.
É por isso que o caso da Rockbridge Network merece atenção no Brasil.
Criada nos Estados Unidos em 2019 por J.D. Vance, hoje vice-presidente americano, e pelo empresário Chris Buskirk, a Rockbridge construiu uma rede financiada por grandes empresários conservadores para atuar em mídia, pesquisas, mobilização eleitoral e organizações religiosas.
Documentos obtidos pela Reuters apontaram orçamento de cerca de US$ 75 milhões para 2024 e participação de nomes poderosos do universo tecnológico e financeiro, como Peter Thiel.
Não estamos falando simplesmente de pessoas fazendo campanha para um candidato.
Estamos diante de uma concepção muito mais sofisticada: construir primeiro o ecossistema que produz o candidato e influencia o ambiente no qual o eleitor forma suas opiniões.
Documentos revelados no Brasil descrevem justamente essa lógica. O projeto da chamada Rockbridge Network Brasil falava em “alfa político”: transformar investimento financeiro em capital político permanente. A proposta previa núcleos de mídia, atuação em universidades e juventude e suporte técnico e de dados ao Legislativo.
Uma Rockbridge Brazil LLC chegou a ser registrada no Wyoming em maio deste ano. A organização americana sustenta que o projeto brasileiro foi abandonado e não chegou a operar.
A fórmula é fácil de compreender: mídia para disputar narrativas; universidades e juventude para formar novas lideranças; dados para orientar parlamentares; investidores próximos dos centros de decisão.
A eleição deixa de ser o começo do processo e passa a ser apenas uma de suas etapas.
Essa arquitetura se conecta a um ecossistema maior da direita americana.
A 1789 Capital, criada por Buskirk e outros investidores, surgiu a partir de discussões realizadas no ambiente da Rockbridge.
Donald Trump Jr. tornou-se sócio da gestora. Depois, a 1789 investiu na Polymarket, plataforma de mercados de previsão, e Trump Jr. entrou em seu conselho consultivo. O Founders Fund, de Peter Thiel, também investiu na empresa.
Peter Thiel, por sua vez, é cofundador da Palantir, companhia especializada em transformar enormes volumes de dados em inteligência operacional. São conexões empresariais e pessoais documentadas.
O que não está demonstrado é que todas essas organizações tenham atuado coordenadamente para interferir na eleição brasileira.
Confundir uma coisa com a outra enfraqueceria justamente a investigação que precisa ser feita.
O sinal de alerta aumentou quando vieram a público ações de contas estrangeiras no X promovendo conteúdos relacionados à candidatura de Flávio Bolsonaro e gráficos da Polymarket.
A campanha afirmou desconhecer e não financiar essas iniciativas. As acusações de que a Rockbridge teria oferecido apoio eleitoral irregular também ainda não foram comprovadas de forma conclusiva.
É exatamente por isso que transparência e investigação são necessárias.
Há, entretanto, uma dimensão econômica particularmente sensível: os minerais estratégicos brasileiros.
Documentos relacionados à tentativa de implantação da estrutura no Brasil mencionaram tecnologia, energia, nióbio, lítio, urânio e terras raras.
São recursos essenciais para semicondutores, inteligência artificial, baterias, defesa, energia e a nova economia tecnológica.
O interesse dos Estados Unidos por essas cadeias de suprimento não é segredo nem, por si só, irregular.
A disputa mundial por minerais críticos envolve americanos, chineses, europeus e outros grandes atores econômicos.
O Brasil, por sua dimensão territorial e potencial mineral, tornou-se peça importante nesse tabuleiro.
Por isso, qualquer proximidade entre organizações políticas estrangeiras, candidatos brasileiros e investidores interessados nesses setores precisa ser acompanhada com transparência.
Não há, até agora, prova pública de que apoio político tenha sido trocado por acesso às reservas brasileiras. Essa hipótese não pode ser apresentada como fato.
Mas a pergunta é legítima: quais interesses econômicos acompanham as organizações estrangeiras que procuram construir influência política no Brasil?
Esse debate torna-se ainda mais relevante porque o próprio país passou a tratar minerais críticos e estratégicos como assunto de soberania econômica, tecnológica e geopolítica.
A questão ultrapassa Bolsonaro, Lula, direita ou esquerda.
Um investidor americano tem o direito de querer investir no Brasil. Um político brasileiro tem o direito de conversar com autoridades estrangeiras. Uma organização estrangeira pode participar legitimamente de debates internacionais.
O limite aparece quando interesses externos eventualmente passam a financiar, de maneira proibida ou oculta, a disputa política interna ou quando relações eleitorais se misturam com vantagens econômicas futuras.
É justamente esse limite que precisa ser esclarecido no caso Rockbridge.
As novas formas de influência política dificilmente chegarão numa mala de dinheiro.
Podem aparecer como publicidade, pesquisas, dados, consultorias, influenciadores, formação política, organizações civis, plataformas digitais e algoritmos.
Por isso a pergunta democrática do nosso tempo já não pode ser apenas: quem colocou dinheiro na campanha?
Precisamos perguntar também: quem financia as estruturas capazes de influenciar aquilo que milhões de brasileiros veem, compartilham e acreditam?
Quando essa discussão alcança recursos como terras raras, lítio, urânio e nióbio, ela passa também pelo futuro econômico do país.
Não se trata de impedir investimentos estrangeiros nem relações internacionais.
Trata-se de estabelecer uma linha que nenhuma potência, empresa, organização ou grupo político deveria ultrapassar: as riquezas estratégicas do Brasil e a escolha de seus governantes precisam estar submetidas às leis e aos interesses definidos democraticamente pelos brasileiros.
Essa é a questão central que o caso Rockbridge coloca sobre a mesa.

Paulo Lemos é – Advogado e Analista Político em Cuiabá/MT
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