Tatuagens podem ser tóxicas? Entenda o que diz a ciência

Tatuagens são um dos maiores símbolos culturais da vida moderna: estima-se que entre 12% e 32% de toda a população adulta mundial possua pelo menos uma. O termo vem de “tatau”, da língua falada no Taiti, onde era usada para descrever as marcas feitas nos corpos de nobres, sacerdotes e guerreiros. Quando os marinheiros ocidentais chegaram à Polinésia no século 18, tomaram para si a prática das tatuagens.
Mas será que a tinta é tóxica? Há muitos estudos apontando que sim, embora isso não signifique que as pessoas tatuadas estejam necessariamente sob risco. A resposta para essa pergunta tem mais nuances do que apenas “sim” ou “não”.
A tinta de uma tatuagem é composta de aproximadamente 100 substâncias diferentes, incluindo pigmento, solventes, estabilizantes, conservantes e impurezas do processo industrial. Os compostos mais preocupantes são os hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (HAPs), as aminas aromáticas primárias (AAPs) e os metais pesados (como níquel, cromo, cádmio e arsênio) que podem ser encontrados nas tintas em diferentes concentrações. Muitas dessas substâncias foram desenvolvidas para uso industrial, como tinta de carro e toner de impressora, não para serem aplicadas na pele.
A exposição a essas substâncias está associada a doenças cardiovasculares, gastrointestinais e neurodegenerativas, além de um risco maior de vários tipos de câncer, incluindo de pulmão, rim, fígado, pele e bexiga — dependendo da substância específica. O risco pode variar muito de um fabricante para outro e até a cor pode ser um fator importante — há estudos que sugerem que pigmentos vermelhos estão desproporcionalmente associados a relatos de alguns tipos de câncer de pele, embora ainda não existam evidências suficientes para estabelecer uma relação de causa e efeito.
Aliás, é importante falar dos ratos porque é justamente aí que está um gargalo científico: a grande maioria dos problemas associados às substâncias citadas está relacionada ao uso oral, respiratório ou dérmico. O uso intradérmico, como o da tatuagem, ainda tem poucas pesquisas específicas. Falta estudar, por exemplo, os efeitos em humanos no longo prazo, já que a pessoa fica com a tatuagem pela vida toda.
Riscos analisados pelos cientistas
Mas isso não significa que os cientistas não estejam trabalhando. Os estudos que existem apontam uma associação crescente entre os compostos presentes nas tintas de tatuagem e riscos à saúde.
O centro do problema está no fato de que a tinta não fica apenas onde foi injetada. Após a tatuagem, parte da tinta é capturada por macrófagos (células imunológicas de defesa) e outras células da pele, enquanto outra parte permanece dispersa entre fibroblastos na derme. Uma quantidade significativa se acumula nos nódulos linfáticos, a partir dos quais seus compostos podem contribuir para uma série de problemas, como câncer em diversos órgãos, linfoma não-Hodgkin e melanoma maligno.
Um estudo recente investigou essa jornada da tinta pelo sistema linfático. Ele constatou que, nos nódulos linfáticos, os macrófagos (células imunológicas de defesa), que são os que mais “comem” essa tinta, frequentemente sofrem morte celular, o que pode, em tese, enfraquecer a resposta a vacinas e aumentar a suscetibilidade ao câncer.
Não é só câncer
Apesar de o câncer ser uma ameaça no longo prazo, os riscos à saúde associados às tatuagens mais bem documentados são as reações alérgicas e inflamatórias. Algumas cores, especialmente as amarelas, vermelhas e verdes, podem provocar coceira persistente, dermatite, inflamações, inchaço e granulomas (pequenos nódulos causados pela reação imunológica).
Essas reações podem surgir meses ou anos após a realização da tatuagem e podem ser desencadeadas pela exposição ao Sol ou por alterações na função imunológica. Até mesmo a remoção da tatuagem pode ser um fator de risco, pois o processo de quebra do pigmento pode gerar substâncias menores e tóxicas. Pessoas com doenças autoimunes ou sistema imunológico debilitado podem ficar especialmente vulneráveis.
E as tatuagens Sak Yant?
Existe uma história difundida na internet de que as tatuagens Sak Yant seriam as únicas a utilizar uma tinta “pura”, livre de tóxicos. As Sak Yant são tatuagens baseadas em antigos yantras indianos e incorporam elementos das tradições hindu, animista e budista, com origens observadas em Tailândia, Camboja e Laos. São consideradas símbolos poderosos capazes de afastar influências negativas e, dentro da tradição, tidas como sagradas.
O costume milenar virou atração turística: muita gente faz uma em Bangkok, submetendo-se ao processo doloroso conduzido por monges budistas ou mestres espirituais. Celebridades como Angelina Jolie e Ed Sheeran possuem suas Sak Yant.
Segundo a crença, a receita da tinta seria secreta, às vezes descrita como contendo ervas, cinzas, carvão, óleos e até ingredientes exóticos. Não há evidência comprovada, porém, de que essa tinta seja especialmente segura ou completamente não tóxica. Pesquisadores que estudam Sak Yant observam que muitas histórias sobre “ingredientes mágicos” ou fórmulas secretas são exageradas e que, atualmente, muitos praticantes utilizam tintas comerciais comuns.
Regulamentação é importante
Apesar das evidências de que alguns componentes das tintas possam representar riscos, é preciso frisar que tatuagem não é veneno. O risco depende de vários fatores: composição da tinta, qualidade do fabricante, higiene do procedimento, tamanho da tatuagem e resposta individual do sistema imunológico, entre outros. Por isso, o ideal é sempre realizar a tatuagem em estúdios confiáveis e com profissionais responsáveis.
O assunto é tão relativamente inexplorado que até as regulamentações ainda são recentes. A Agência Europeia de Produtos Químicos (ECHA), por exemplo, só formalizou sua regulamentação em 2020, estabelecendo limites máximos de concentração para mais de 4.000 substâncias nas tintas para tatuagem.
No Brasil, a Anvisa possui regulação para alguns produtos usados em tatuagens e bane alguns tipos de compostos químicos. Mas as normas e a fiscalização ainda são consideradas insuficientes.
(Por Victor Bianchin)






