Seu filho precisa de ajuda. Mas de qual ajuda?

Andréa Fernandes da Rocha
“Deixa que eu faço.” Essa talvez seja uma das frases mais comuns na relação entre adultos e crianças. Às vezes, ela surge pela pressa; em outras, para evitar a frustração da criança ou porque ela realmente ainda não consegue realizar a tarefa sozinha. Ajudar faz parte do cuidado, mas existe uma pergunta essencial que fazemos com menos frequência: que tipo de ajuda estamos oferecendo?
Imagine uma criança tentando fechar o zíper da mochila. Podemos fechá-lo por ela, segurar a base enquanto ela puxa ou apenas esperar mais alguns segundos antes de interferir. Todas são formas de suporte, mas não oferecem a mesma experiência. A Terapia Ocupacional nos ensina uma distinção fundamental: há ajudas que substituem a participação e ajudas que tornam a participação possível.
Pense no preparo do lanche. Se antes a criança recebia o prato pronto, em certo momento ela já pode escolher a fruta ou colocar algo na mesa. Ela ainda precisa do adulto, mas o seu papel mudou. O desenvolvimento infantil exige justamente isso: que a ajuda se transforme à medida que a criança se transforma. Não se trata de adotar a lógica do “se vira sozinho” ou exigir independência precoce — crianças diferentes necessitam de níveis e formas distintas de suporte pelo tempo que for preciso. A questão é garantir que o apoio oferecido preserve espaço para a ação da criança.
Às vezes, ajudar é fazer junto, dividir a tarefa em etapas, adaptar um objeto ou dar uma pista. Quando o adulto faz tudo, a criança recebe apenas o resultado; quando recebe o suporte certo, ela experimenta a própria capacidade e aprende a lidar com os desafios. Desenvolvimento não é caminhar para uma autossuficiência isolada, mas ampliar as possibilidades de agir, escolher e reconhecer quando precisamos do outro.
Por isso, diante do próximo “me ajuda?”, o caminho não é escolher entre fazer pela criança ou deixá-la sozinha, mas sim perguntar: qual é a ajuda necessária para que ela continue participando? É nessa resposta que o cuidado deixa de apenas resolver uma dificuldade e passa a construir possibilidades.
Andréa Fernandes da Rocha -Terapeuta ocupacional, mãe de três e autora de Pequenos e Decisivos Passos na Infância, pela Alta Books.
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