MULHER NA POLÍTICA: CONVIDADA PARA A FOTO, BOICOTADA NA DISPUTA

MULHER NA POLÍTICA: CONVIDADA PARA A FOTO, BOICOTADA NA DISPUTA
Imagem Pessoal

A política brasileira gosta de celebrar a participação feminina. Partidos promovem encontros, criam secretarias e exibem candidaturas como demonstração de diversidade. Mas existe enorme distância entre convidar uma mulher para ser candidata e oferecer condições para que ela realmente possa ser eleita.

É nessa distância que sobrevive uma das formas mais sofisticadas do machismo político.

Mulheres são procuradas para compor chapas e fortalecer nominatas. O problema começa quando decidem disputar para valer. Descobrem que filiação não significa pertencimento, candidatura não significa prioridade e igualdade jurídica está longe de representar igualdade política.

Nos bastidores, onde são distribuídos recursos, estrutura, equipes, alianças e apoio territorial, a democracia costuma ser menos igualitária do que aparece na propaganda.

A Ciência Política ajuda a compreender o fenômeno. Robert Michels formulou a “lei de ferro da oligarquia”: organizações tendem a concentrar poder em pequenos grupos. Nos partidos, essa lógica muitas vezes se transforma em familiocracia, na qual sobrenomes e parentesco funcionam como atalhos para o poder.

Enquanto mulheres independentes precisam construir espaço praticamente do zero, esposas, filhas ou irmãs de políticos podem chegar à disputa amparadas por capital político acumulado: estrutura, contatos, bases eleitorais, financiadores e reconhecimento do sobrenome.

O problema não é o parentesco. Uma mulher não pode ter sua capacidade diminuída por ser esposa, filha ou irmã de político. A questão é outra: quando partidos privilegiam integrantes das mesmas famílias enquanto dificultam o surgimento de lideranças vindas da universidade, do empresariado, do serviço público, das profissões, dos bairros e dos movimentos sociais, ocorre uma reprodução quase hereditária do poder.

Pierre Bourdieu ajuda a explicar esse mecanismo pelo conceito de capital político. Algumas candidatas começam a corrida vários metros à frente; outras precisam primeiro conquistar o direito de permanecer na pista.

Nesse contexto, desistências de mulheres politicamente experientes merecem reflexão. A ex-delegada Ana Cristina Feldner deixou a primeira suplência; a vice-prefeita de Cuiabá, Coronel Vânia; a ex-vice-prefeita Jacy Proença; e a ex-prefeita de Sinop Rosana Martinelli renunciaram às suas candidaturas. Cada decisão possui circunstâncias próprias e seria incorreto atribuí-las a uma única causa. Mas o conjunto provoca uma pergunta incômoda: por que ainda é tão difícil transformar participação feminina em competitividade eleitoral efetiva?

Simone de Beauvoir demonstrou como estruturas historicamente construídas reservaram às mulheres posições secundárias nos espaços de poder. Na política contemporânea, esse mecanismo tornou-se mais sutil. O machismo já não precisa dizer: “mulher não pode participar”. Pode simplesmente dizer “seja candidata” e, depois, direcionar dinheiro, estrutura e prioridade para outros.

A mulher entra na fotografia, mas nem sempre entra na divisão do poder.

Talvez esse seja o aspecto mais perverso. O boicote pode ocorrer dentro do próprio partido que convidou a candidata. Primeiro vem o estímulo, depois a filiação e os discursos sobre protagonismo feminino. Quando começa a campanha real, algumas descobrem que foram chamadas para ocupar espaço na nominata, não necessariamente para conquistar espaço no poder.

Hannah Arendt compreendia a política como espaço de ação pública e pluralidade. Quando as portas desse espaço são controladas por oligarquias e famílias tradicionais, perde a mulher e perde a própria democracia.
Por isso, não basta aumentar o número de candidatas. É preciso perguntar quais mulheres conseguem competir, quem recebe recursos, quem participa das decisões e quantas lideranças independentes sobrevivem politicamente depois das eleições.

Democracia não se faz apenas colocando nomes femininos na urna. Ela exige condições para que a professora, empresária, policial, agricultora, médica, advogada, servidora ou liderança comunitária possa disputar sem depender de marido, pai, irmão ou padrinho político.

O desafio não é apenas colocar mais mulheres na política. É impedir que a velha política continue escolhendo quais mulheres têm permissão para chegar ao poder.

João Edisom de Souza – Professor universitário e analista Político -@joaoedisom

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