Quem já teve câncer pode doar sangue? Especialista explica quem está apto e quais são as restrições

Milhares de brasileiros vencem o câncer todos os anos, mas uma dúvida frequente permanece após a cura, quem já teve câncer pode doar sangue? E, às vésperas do Dia Mundial do Doador de Sangue, celebrado em 14 de junho, o tema ganha ainda mais relevância. Muitos pacientes oncológicos precisaram receber transfusões durante o tratamento e, após a recuperação, desejam retribuir ajudando outras pessoas.
É o caso da moradora do bairro CPA III, em Cuiabá, Maria Conceição Ferreira de Lara, de 59 anos. Diagnosticada com câncer de mama, ela passou por cirurgia em 2020 e atualmente faz quimioterapia oral. Embora se considere curada, sabe que ainda não pode doar sangue por estar em tratamento.
“Eu me considero curada, mas continuo tomando os remédios e sei que hoje não posso doar porque ainda estou em tratamento. Se um dia eu puder, quero sim ser doadora. Eu sei o quanto isso salva vidas”, afirma.
Dados do Ministério da Saúde mostram que apenas entre 1,4% e 1,8% da população brasileira doa sangue regularmente. Embora mais de 3 milhões de bolsas sejam coletadas anualmente no país, o percentual ainda está abaixo do considerado ideal pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que estima uma taxa entre 3% e 5% da população para garantir estoques mais seguros e estáveis.
Segundo o médico oncologista Wilson Garcia, a primeira informação que precisa ficar clara é que pessoas com câncer ativo ou em tratamento não podem doar sangue.
“Pacientes com câncer ativo não podem doar sangue. Isso inclui pessoas em tratamento oncológico, em pós-operatório de cirurgia relacionada ao câncer, realizando quimioterapia, radioterapia ou hormonioterapia, bem como pacientes com doença metastática, ou seja, quando o câncer se disseminou para outros órgãos. Nesses casos, a doação é totalmente contraindicada, tanto para preservar a saúde do paciente quanto para garantir a segurança do receptor”, explica.
Uma dúvida comum é se o câncer pode ser transmitido por meio da transfusão. Segundo o especialista, isso não acontece.
“O câncer não é uma doença contagiosa. Uma pessoa não desenvolve câncer por receber sangue de alguém que teve a doença e se curou”, esclarece.
No entanto, os critérios para doação entre pessoas que já tiveram câncer são bastante rigorosos. De acordo com Garcia, o prazo mínimo para que um paciente curado possa ser considerado apto à doação é de cinco anos de remissão completa da doença.
“Após cinco anos de remissão total, alguns pacientes podem ser avaliados para doação. Porém, na prática, muitos bancos de sangue mantêm critérios bastante restritivos e frequentemente não aceitam esses doadores, mesmo após esse período”, afirma.
Segundo o oncologista, as exceções costumam envolver tumores muito iniciais, como alguns casos de câncer de pele não melanoma e lesões pequenas de colo do útero, desde que o tratamento tenha sido exclusivamente cirúrgico e que o paciente esteja há mais de cinco anos sem sinais da doença.
O médico explica que a avaliação leva em consideração diversos fatores, incluindo o tipo de câncer, os tratamentos realizados, o tempo de remissão, possíveis sequelas do tratamento e as condições gerais de saúde do paciente.
“O que define a aptidão para doar sangue é uma avaliação clínica completa. Por isso, duas pessoas que tiveram câncer podem receber orientações diferentes durante a triagem”, explica.
Outro ponto importante é o tipo de câncer enfrentado pelo paciente. Os chamados tumores sólidos incluem câncer de mama, próstata, pulmão, intestino e tireoide, entre outros. Já as neoplasias hematológicas afetam diretamente o sangue, a medula óssea ou o sistema linfático, como leucemias, linfomas e mielomas.
“Os critérios costumam ser ainda mais restritivos para pessoas que tiveram doenças hematológicas, devido às características dessas enfermidades e aos tratamentos empregados”, destaca.
Segundo Garcia, não existe uma regra única válida para todos os sobreviventes do câncer. Ainda assim, a principal orientação é “quem está em tratamento ou apresenta doença ativa não pode doar sangue, enquanto pacientes curados só podem ser avaliados após um período mínimo de cinco anos de remissão completa, respeitando as normas dos hemocentros”, pontua.
Para os pacientes oncológicos que necessitam de transfusões durante o tratamento, o sangue recebido passa pelos mesmos protocolos rigorosos de segurança aplicados a qualquer outro paciente.
Wilson Garcia reforça que esclarecer dúvidas sobre a doação de sangue é fundamental para combater a desinformação e estimular a solidariedade de forma segura.
“Muitos pacientes que venceram o câncer desejam ajudar outras pessoas após o tratamento. O mais importante é compreender que existem critérios técnicos para garantir a segurança de todos os envolvidos. A avaliação médica individual continua sendo o caminho mais seguro para definir a aptidão para a doação”, conclui.
A IMPORTÂNCIA DE DOAR SANGUE – O oncologista lembra que o sangue é indispensável em grandes cirurgias, transplantes, tratamentos oncológicos, atendimentos de emergência e no socorro a vítimas de acidentes e traumas graves. Além de transportar oxigênio dos pulmões para todas as células do organismo, ele não pode ser produzido artificialmente.
“Uma única doação pode beneficiar até quatro pessoas diferentes. Isso porque a bolsa coletada é processada e separada em diferentes componentes, como hemácias, plasma, plaquetas e crioprecipitado, que podem ser utilizados em pacientes com necessidades específicas’, detalha.
Para doar sangue, é necessário estar em boas condições de saúde, pesar no mínimo 50 kg e ter entre 16 e 69 anos de idade. Antes da coleta, todos os candidatos passam por uma entrevista clínica e por uma avaliação que verifica possíveis contraindicações temporárias ou definitivas à doação.









