Futuro presidente da Aprosoja rebate ‘agro ostentação’ e defende fim do Fethab II: ‘A conta não fecha’

Futuro presidente da Aprosoja rebate ‘agro ostentação’ e defende fim do Fethab II: ‘A conta não fecha’
Crédito: Reprodução/EstúdioOD

O futuro presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT), Luiz Pedro Bier, defendeu o fim da cobrança do Fethab II, previsto para 2027, e afirmou que a crise financeira enfrentada pelos produtores não permite a manutenção da contribuição, mesmo diante da necessidade de investimentos em infraestrutura. Em entrevista ao PodOlhar, videocast do Olhar Direto, o dirigente também rebateu a imagem de riqueza e ostentação associada ao agronegócio, afirmando que a realidade da maioria dos agricultores está distante do que aparece nas redes sociais.

Atual vice-presidente da Aprosoja e candidato em chapa única à presidência da entidade para o triênio 2027/2029, Bier afirmou que o governador Otaviano Pivetta (Republicanos) reafirmou, durante uma conversa recente, o compromisso de encerrar a cobrança do Fethab II. Segundo ele, o recurso já não consta na previsão orçamentária apresentada pelo governo.

Embora reconheça a importância da contribuição para a execução de obras rodoviárias, o dirigente argumentou que o atual cenário de endividamento e redução das margens de lucro tornou a cobrança insustentável.

“Contribuir com o Estado quando as obras são feitas, que foi o que aconteceu, para nós é ótimo. Aumenta a eficiência logística. Eu não gosto de andar no pó, ninguém gosta. Frete caro. O problema é que na situação que estamos não cabe discussão. A conta já não fecha”, declarou.

Para exemplificar a situação, Bier citou a própria experiência como produtor rural em Gaúcha do Norte, município onde, segundo ele, a primeira ligação asfáltica completa foi concluída há apenas quatro meses. Apesar do avanço, afirmou que ainda depende de duas rotas sem pavimentação e enfrenta problemas frequentes com pontes danificadas para transportar a produção.

“Volta e meia eu fico sem ponte para levar a minha soja que está sendo colhida para o armazém. Acontece com frequência, porque a ponte cai, estraga, aí tem que arrumar”, relatou.

Mesmo convivendo com essas dificuldades, Bier sustentou que a prioridade neste momento deve ser aliviar os custos dos produtores. Ele ressaltou que a contribuição incide sobre o faturamento da atividade, e não sobre o lucro, ampliando o impacto financeiro em um período de margens reduzidas.

“Quando a fazenda não tem dinheiro, eu não compro trator. Se a agricultura não tem dinheiro para pagar asfalto, não faz asfalto da maneira que estava fazendo”, comparou.

O dirigente também mencionou um empréstimo de R$ 1,5 bilhão obtido pelo governo estadual, que, segundo ele, poderá ajudar a compensar a redução dos recursos destinados à infraestrutura.

“Não pode sangrar o produtor nesse momento. E quem está falando é um produtor que tem duas saídas sem asfalto”, reforçou.

‘Agro ostentação’ não representa a realidade

Durante a entrevista, Bier também foi questionado sobre a percepção de que o agronegócio é formado predominantemente por grandes proprietários com elevado poder aquisitivo. Ele reconheceu que o próprio setor contribuiu para construir essa imagem, mas afirmou que ela não corresponde à realidade da maioria dos agricultores mato-grossenses.

“Talvez até um pouco da culpa é do setor. Não só do setor, mas criou-se uma imagem que o agro é rico, que só tem milionário, e não é a realidade”, afirmou.

Na avaliação do futuro presidente da Aprosoja, as redes sociais ajudam a reforçar uma percepção distorcida da atividade rural, especialmente pela exposição de veículos de luxo e demonstrações de riqueza que costumam atrair maior engajamento.

“E o Instagram, gente, hoje em dia, ele dá uma falsa impressão de muita coisa. Aí vê caminhonetona, vê ostentação do agro, é o que gera like, né? Mas não é a realidade”, criticou.

Bier contrapôs essa imagem ao cotidiano dos produtores que conhece, descrevendo agricultores que trabalham diretamente nas lavouras e mantêm hábitos simples, apesar dos investimentos em tecnologia e maquinário.

“O agricultor que eu conheço é o agricultor que vai trabalhar de chinelo, shorts do Palmeiras. É, vai lá em cima do trator, cara. Assim, é uma pessoa simples, é um cara que trabalha muito”, declarou.

Ele ainda defendeu a eficiência da agricultura mato-grossense e afirmou que o setor merece ser bem remunerado pela produtividade alcançada. Ressaltou, porém, que as grandes distâncias entre as regiões produtoras e os centros urbanos dificultam a compreensão da realidade enfrentada no campo.

“Não é tanto a agro ostentação assim. Isso tem, mas são menos”, concluiu.

Entrevista completa

Luiz Pedro Bier é candidato à presidência da Aprosoja-MT na eleição marcada para 9 de novembro. Ele encabeça a chapa Aprosoja Decidida, que tem Diego Francisco Bertuol como candidato a vice-presidente. Mais de 9 mil associados estão aptos a participar do processo eleitoral.

No episódio do PodOlhar, Bier também aborda o endividamento rural, as dificuldades de acesso ao crédito, os riscos climáticos para a safra 2026/2027 e a relação da Aprosoja com os governos estadual e federal.

O dirigente ainda comenta as críticas de politização da entidade e defende o diálogo com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mesmo diante das divergências ideológicas entre parte dos produtores e o governo federal.

A entrevista completa está disponível no canal do Olhar Direto no YouTube e nas principais plataformas de podcast.

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