Escavações em antiga cidade bíblica revelam 3 reis até então desconhecidos

Escavações em antiga cidade bíblica revelam 3 reis até então desconhecidos
Fragmento de uma tabuleta cuneiforme com inscrição de uma concessão real de 762 a.C., emitida em nome de um recém-descoberto Tiglate-Pileser, rei da Assíria. — Foto: Museu Britânico/Iniciativa da Biblioteca Digital Cuneiforme.

A partir da cidade-estado bíblica de Assur, localizada no que hoje é o Iraque, surgiu a civilização assíria, que durou, aproximadamente, entre os anos de 2025 a.C. e 609 a.C. Até então, pesquisadores acreditavam conhecer todos os reis que governaram durante o último período da história assíria, porém, uma nova pesquisa indicou a existência de três novos governantes, desconhecidos até então.

Divulgado em julho, o estudo registrado na revista Journal of Cuneiform Studies, pôs em xeque a tese de que a Lista Real Assíria (LRA) continha, de forma confiável, todos os monarcas neoassírios conhecidos até Salmanasar V. Esta lista é um documento antigo conhecido a partir de três tabuletas de argila cuneiformes bem preservadas, que reúne a relação de governantes assírios.

A investigação foi conduzida por Alexander Johannes Edmonds, da Universidade de Münster, na Alemanha, e por Eckart Frahm, da Universidade Yale, autor do livro Assyria: The Rise and Fall of the World’s First Empire (Assíria: A Ascensão e Queda do Primeiro Império do Mundo, 2013).

Imagem da tabuleta cuneiforme Rm 75. — Foto: Museu Britânico
Imagem da tabuleta cuneiforme Rm 75. — Foto: Museu Britânico

A descoberta foi classificada como “uma surpresa”, segundo disse em comunicado Frahm, que é um dos maiores especialistas mundiais no império assírio. “Ninguém esperava que houvesse espaço para novos governantes desconhecidos nessa época”.

De acordo com o pesquisador, responsável por identificar um dos reis desconhecidos, a Lista Real Assíria parece fornecer uma versão idealizada da realeza assíria, “na qual tudo o que é instável é essencialmente apagado dos registros”. Mas que reis, afinal, podem ter sido esquecidos na história assíria? E por que isso aconteceu?

Inconsistências históricas

Há alguns anos, Frahm analisou uma tabuleta real em estado precário de conservação que estava guardada no Museu Britânico. Feita na escrita cuneiforme, ela registra a doação de terras feita por um rei assírio a um indivíduo e, como era comum na época, foi datada pelo nome do epônimo — um oficial que dava nome ao ano. Nesse caso, o documento corresponde a 762 a.C.

Estudos anteriores atribuíram a concessão a Adad-nerari III, que governou a Assíria entre 810 e 783 a.C.. A inscrição também menciona Tiglate-Pileser, identificado pelos pesquisadores como Tiglate-Pileser III, rei entre 745 e 727 a.C.. O problema é que nenhum dos dois reinava em 762 a.C., criando uma inconsistência cronológica que intrigava os estudiosos havia décadas.

Estela de Bel-harran-beli-usur, tabuleta de pedra assíria — Foto: Osama Shukir Muhammed Amin/Creative Commons
Estela de Bel-harran-beli-usur, tabuleta de pedra assíria — Foto: Osama Shukir Muhammed Amin/Creative Commons

A partir de uma nova leitura da primeira linha da inscrição cuneiforme, Frahm concluiu que a concessão provavelmente não foi emitida por Adad-nerari III. Afinal, a forma como o nome do rei aparece difere da registrada em outros documentos.

Segundo ele, o texto na verdade faz referência não ao famoso Tiglate-Pileser III, mas a um príncipe assírio até então desconhecido, que teria adotado o mesmo nome real. Essa hipótese é reforçada pela Crônica Epônima Assíria, um texto em escrita cuneiforme que descreve uma rebelião e insurgência na cidade de Assur em 763 e 762 a.C.

A rebelião teria sido causada pelo príncipe desconhecido. De acordo com a crônica, um eclipse solar ocorrido no início de 763 teria sido interpretado na época como um sinal de que havia chegado o momento da queda do rei. “A Crônica Epônima também indica que alguns anos antes, em 765, houve um surto de peste, uma epidemia nesta área, que pode muito bem ter sido a causa principal da crise geral que ocorreu”, nota Frahm.

Depois disso, os pesquisadores descobriram outros dois governantes: um novo Salmanasar (c. 747-745 a.C. ), cujo reinado se deu durante o caos generalizado na Assíria, e um novo Assur-uballiṭ (c. 913-912 a.C. ), que é mencionado em um texto que lista governantes que restauraram um vaso ritual de prata para cerveja, dedicado ao deus Assur (entidade suprema do império).

Apagamento histórico

Cada rei governou por menos de dois anos. Para Frahm, os nomes dos reis foram deliberadamente removidos dos registros, provavelmente por seus sucessores. Aššur-uballiṭ, por exemplo, mesmo possivelmente herdeiro legítimo de seu pai, foi substituído por outro príncipe. “E aquele outro príncipe não tinha interesse em indicar que havia ascendido ao trono em circunstâncias um tanto obscuras”, explica o especialista.

As descobertas alteram fundamentalmente a visão geral de como a Assíria se tornou um império — o primeiro do mundo, na visão de Frahm. A ascensão do império sob Tiglate-Pileser III, de acordo com o pesquisador, é frequentemente considerada o resultado de uma ascensão prolongada e imparável, iniciada no final do século 10 a.C., com alguns pequenos contratempos e uma longa série de sucessões entre pai e filho.

Segundo Frahm, a descoberta muda a compreensão sobre a formação do Império Assírio. Em vez de uma expansão contínua e estável, as evidências indicam que, antes da ascensão de Tiglate-Pileser III, o reino enfrentou disputas pelo poder, surtos de peste, um período de seca e instabilidade política. Paradoxalmente, esse cenário de crises acabou precedendo a transformação da Assíria em um grande império.

(Por Redação Galileu)

Astrogildo Aécio Nunes

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