Quando o brasileiro sabe em quem não votar, mas esquece de discutir o país em que quer viver

Quando o brasileiro sabe em quem não votar, mas esquece de discutir o país em que quer viver
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POR LAURA LUCENA

Há algo profundamente errado quando uma eleição deixa de ser uma escolha de projeto e se transforma numa escolha de inimigo.

O eleitor já não precisa explicar o Brasil que deseja. Basta dizer quem odeia. De um lado, vota-se para derrotar o PT. Do outro, para impedir o bolsonarismo. E, no meio desse tiroteio, desaparece justamente aquilo que deveria ser o centro de uma eleição presidencial: o projeto de país.

A velha metáfora resume bem o momento: a formiga, com raiva da barata, votou no inseticida. No fim, morreu todo mundo — inclusive o grilo, que resolveu não participar.

É uma piada. Mas talvez seja uma das melhores caricaturas da nossa política.

O voto “contra” existe e é legítimo. Rejeitar um projeto político também é uma decisão política. O problema começa quando a rejeição passa a substituir completamente a reflexão.

Pergunte a muitos eleitores por que não votarão em Lula e surgirá imediatamente uma coleção de palavras, acusações, escândalos e memes. Pergunte a muitos eleitores por que não votarão em Flávio Bolsonaro e acontecerá coisa semelhante.

Agora mude a pergunta:

Que Brasil você quer construir nos próximos quatro anos?

A conversa fica muito mais difícil.

Qual deve ser o tamanho do Estado? O que deve continuar público e o que pode ser entregue à iniciativa privada? Como financiar o SUS? O que fazer com a Previdência? Que política queremos para universidades, escolas públicas e institutos federais? Qual deve ser a política de valorização do salário mínimo? E os trabalhadores de aplicativos? E a escala 6×1? Como enfrentar as facções criminosas sem transformar segurança pública em slogan? O que fazer com nossas terras raras? Que relação o Brasil deve manter com Estados Unidos, China, União Europeia e nossos vizinhos sul-americanos? Que desenvolvimento queremos para Amazônia, Cerrado e Pantanal?

Essas perguntas deveriam incendiar uma campanha presidencial.

Mas quem incendeia as redes são Lula e Bolsonaro.

Ou melhor: o amor a um e o ódio ao outro.

E talvez esteja aí a característica mais inquietante da eleição do contra: sabemos cada vez mais sobre aquilo que rejeitamos e cada vez menos sobre aquilo que pretendemos construir.

Não quero saber apenas por que alguém é contra Lula. Quero saber o que colocaria no lugar das políticas de Lula.

Também não quero saber apenas por que alguém considera o bolsonarismo uma ameaça. Quero saber qual é a alternativa concreta que defende.

Porque destruir o projeto do outro não constitui, por si só, um projeto.

E há outra armadilha nessa guerra.

Transformamos políticos em identidades pessoais. Criticar meu candidato parece uma agressão contra mim. Reconhecer um acerto do adversário parece traição. Admitir um erro do meu campo parece fornecer munição ao inimigo.

Nesse ambiente, o fato perde importância. Importa saber de que lado ele veio.

É a política funcionando como torcida organizada.

Talvez por isso nossas redes estejam cheias de soldados e tão vazias de cidadãos.

Há gente guerreando desde o café da manhã. Compartilha vídeos, memes, cortes, frases, montagens e denúncias. Responde ao grupo da família, ataca o desconhecido, comemora a humilhação do adversário e termina o dia convencida de que participou intensamente da política.

Mas participou de quê?

Quantos leram os programas de governo dos candidatos?

Quantos conhecem seus projetos para saúde, educação, emprego, segurança, meio ambiente, ciência, cultura e desenvolvimento?

Quantos conhecem a trajetória legislativa daqueles que pretendem colocar no comando do país?

É aí que precisamos olhar para Lula e Flávio Bolsonaro — não como santos ou demônios, mas como homens públicos submetidos ao escrutínio dos eleitores.

O que Lula efetivamente realizou? O que prometeu e não cumpriu? O que deu certo? O que deu errado? Que acusações enfrentou? O que foi provado, anulado, arquivado ou permanece sob questionamento? E, principalmente, o que ele pretende fazer daqui para frente?

A mesma régua precisa valer para Flávio Bolsonaro. Qual é sua produção política? Quais projetos marcaram sua trajetória? O que defendeu durante seus mandatos? Que acusações enfrentou? O que foi comprovado, descartado ou permanece sob investigação? E qual Brasil seu programa pretende construir?

Sem duas réguas. Sem absolvição automática para o nosso lado e condenação sumária para o outro.

Isso é democracia adulta.

Há explicações para o fenômeno que estamos vivendo. A ciência política fala em polarização afetiva e partidarismo negativo: quando a rejeição ao grupo adversário passa a exercer enorme peso sobre a escolha política. O adversário deixa de ser simplesmente alguém que pensa diferente e passa a representar uma ameaça àquilo que somos.

As redes sociais encontraram terreno fértil nessa emoção. O conflito prende nossa atenção. A indignação circula. O escândalo mobiliza. E seres humanos reais convivem nesse ambiente com influenciadores profissionais, campanhas organizadas, conteúdos automatizados e interesses econômicos.

Forma-se uma espécie de praça pública enlouquecida, na qual todo mundo fala, poucos escutam e quase ninguém muda de opinião.

E eu me pergunto:

Onde ficou o Brasil nisso tudo?

Porque haverá uma manhã seguinte.

As urnas serão fechadas, os votos contados e alguém vencerá.

E, gostemos ou não, o vencedor será o presidente do Brasil inteiro.

Do petista e do antipetista. Do lulista e do bolsonarista. Da esquerda, da direita e de quem não se reconhece em nenhuma delas. Até daquele que anulou o voto, votou em branco ou decidiu não comparecer.

A democracia tem essa característica incômoda e maravilhosa: nós continuamos pertencendo ao mesmo país depois que termina a eleição.

Talvez seja hora, portanto, de abandonar por alguns minutos a guerra infantil do “meu lado contra o seu” e fazer uma pergunta muito mais difícil:

Em que país eu quero viver?

Depois disso, podemos perguntar qual candidato apresenta o projeto que mais se aproxima dessa resposta.

Essa ordem importa.

Porque escolher primeiro o inimigo e somente depois descobrir o projeto que apoiamos é colocar a política de cabeça para baixo.

E talvez seja exatamente isso que esteja acontecendo conosco.

Estamos escolhendo quem queremos derrotar antes de decidir o que queremos construir.

Essa é a eleição do contra.

E um país não se constrói apenas contra alguém.

Constrói-se a favor de alguma coisa.

No final, grilos, formigas, baratas e mosquitos continuarão habitando o mesmo jardim.

Laura Lucena é jornalista desde 1978, aposentada e independente, produtora cultural, poeta, cronista e escritora. Mora em Chapada dos Guimarães (MT) desde 2011, onde procura exercer sua cidadania ao máximo. É também guia de turismo.

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias Aef News

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