O eleitor não é o inimigo: o campo progressista precisa voltar a convencer

O eleitor não é o inimigo: o campo progressista precisa voltar a convencer
Fotos: Divulgação

Paulo Lemos

O resultado do primeiro turno deixou um recado que o campo progressista brasileiro não pode se permitir ignorar. Flávio Bolsonaro chegou ao segundo turno com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. São mais de 56 milhões de brasileiros de um lado e quase 54 milhões do outro, numa disputa que será decidida em 25 de outubro.

Diante de um país praticamente dividido ao meio, o pior caminho possível é transformar milhões de eleitores em inimigos.

Expressões como “pobre de direita”, “evangélico fanático”, “alienado”, “ignorante” ou qualquer outro rótulo depreciativo podem render curtidas dentro da própria bolha, mas não conquistam votos. Ninguém muda de opinião depois de ser humilhado. O ataque produz ressentimento, fecha as portas do diálogo e, muitas vezes, fortalece justamente a identidade política que se pretendia combater.

Se trabalhadores, moradores das periferias, pequenos empresários, produtores rurais, evangélicos e famílias de baixa renda votam em um projeto diferente daquele defendido pelo campo progressista, a pergunta inteligente não é “o que há de errado com eles?”. A pergunta é: por que não conseguimos convencê-los?

Autocrítica não significa abandonar princípios. Significa recuperar uma qualidade essencial da política: saber ouvir. E significa, antes de tudo, olhar para os próprios erros sem anestesia.

O campo progressista precisa reconhecer que perdeu capacidade de comunicação com setores populares que já foram sua base. Trocou a linguagem simples do dia a dia por jargões acadêmicos e siglas que ninguém entende na fila do posto de saúde. Confundiu militância digital com presença real nos bairros. Tratou movimentos sociais como correia de transmissão, não como interlocutores. Demorou a perceber que a pauta da segurança pública não é monopólio da direita — é demanda legítima de quem perde filhos para o crime organizado. E, em muitos momentos, preferiu a pureza ideológica à eficácia governativa, entregando ao adversário a bandeira da gestão e do equilíbrio fiscal.

É preciso compreender por que alguém que depende do SUS ou da escola pública, que recebe salário mínimo, trabalha seis dias por semana, paga aluguel, enfrenta juros altos e sente o preço dos alimentos no supermercado escolhe determinado candidato. Segurança, valores familiares, religião, emprego, inflação, corrupção, impostos e perspectivas para os filhos fazem parte da decisão política das pessoas. Ignorar essas preocupações ou tratá-las com superioridade moral é entregar o eleitor ao adversário.

Mas há um limite que o respeito não pode ultrapassar. Uma coisa é o eleitor que vota em Flávio Bolsonaro por convicção conservadora legítima — defende família tradicional, quer menos impostos, desconfia do Estado. Outra coisa é o eleitor que apoia ruptura institucional, nega o resultado das urnas, flerta com intervenção militar ou celebra a ditadura. Com o primeiro, dialoga-se. Com o segundo, não há mesa de negociação possível: há defesa intransigente da democracia. Confundir os dois é erro fatal — tanto para quem ataca quanto para quem tenta agradar.

E existe uma oportunidade extraordinária neste segundo turno: substituir a guerra de rótulos pela comparação concreta entre dois projetos de país. Não se trata de diferenças cosméticas. Trata-se de duas visões sobre quem paga a conta, quem recebe os benefícios e qual lugar cada grupo social ocupa na sociedade.

Lula apresenta um programa que propõe reduzir a jornada para 40 horas semanais sem redução salarial, enfrentar a escala 6×1, manter a valorização real do salário mínimo, proteger trabalhadores de aplicativos, ampliar o Minha Casa Minha Vida, preservar o Bolsa Família, expandir o Mais Médicos, o ensino integral e os institutos federais, além de ampliar o papel da União no combate ao crime organizado. É um projeto a serviço de um modelo em que o Estado intervém para corrigir desigualdades, garantir direitos trabalhistas e oferecer serviços públicos universais. A aposta é que o crescimento se puxa por baixo — salário na mão do trabalhador, crédito popular, investimento público. Está a serviço, primordialmente, dos mais pobres e da classe trabalhadora formal e informal: quem ganha salário mínimo, quem depende do SUS, quem estuda em escola pública, quem recebe Bolsa Família, quem precisa de casa própria. Para a classe média, oferece expansão de universidades, concursos públicos e serviços públicos de qualidade — mas também cobra mais impostos de quem está no topo da pirâmide. Para a elite, significa maior regulação, taxação de lucros e dividendos, e menos espaço para privatizações.

Na prática, para os mais pobres, significa aumento real do salário mínimo e mais acesso a saúde, educação e moradia. Para a classe média, serviços públicos melhores, mas carga tributária potencialmente maior. Para a elite, mais impostos e menos liberdade para explorar trabalho sem regulação. O risco: pressão fiscal, inflação se a expansão não for bem calibrada, e dependência excessiva do Estado como empregador e provedor.

Flávio Bolsonaro apresenta outra concepção. Seu programa defende redução de ministérios e despesas administrativas, novo desenho fiscal, retomada das privatizações, maior participação da iniciativa privada, ampliação das escolas cívico-militares, vouchers educacionais em determinadas situações e uma política de segurança mais punitiva, incluindo redução da maioridade penal e construção de presídios. Também afirma que pretende manter programas sociais, combinando-os com fiscalização de fraudes e mecanismos de inserção no mercado de trabalho. É um projeto a serviço de um modelo em que o Estado enxuga funções, transfere serviços para a iniciativa privada e aposta que o crescimento vem de baixo imposto, desregulação e segurança jurídica para investidores. A lógica é: menos Estado, mais mercado; menos direitos garantidos, mais contratos livremente negociados. Está a serviço, primordialmente, da elite econômica — grandes empresários, agronegócio, setor financeiro, rentistas — e de parte da classe média que se identifica com valores conservadores, quer pagar menos imposto e vê no Estado um peso, não um aliado. Para os mais pobres, promete manter programas sociais, mas com fiscalização mais rígida e porta de saída pelo mercado de trabalho — o que, na prática, pode significar menos proteção e mais precarização.

Na prática, para os mais pobres, significa manutenção do Bolsa Família, mas com menos investimento em saúde, educação e moradia, e mais pressão para aceitar qualquer emprego, mesmo sem direitos. Para a classe média, alívio tributário no curto prazo, mas serviços públicos sucateados e necessidade de pagar plano de saúde e escola privada. Para a elite, menos impostos, mais privatizações, mais flexibilização do trabalho, mais lucro. O risco: aumento da desigualdade, precarização das relações de trabalho, sucateamento de serviços públicos e aprofundamento da violência estrutural.

Mas há um terceiro projeto em disputa — e este não está nas urnas, mas ronda a eleição. Trata-se do projeto de recolonização das Américas, expresso na nova Estratégia Nacional de Segurança dos Estados Unidos, que reafirma a Doutrina Monroe com um “Corolário Trump” e declara que Washington deve restaurar sua “proeminência” sobre todo o Hemisfério Ocidental. O documento é explícito: os EUA negarão a concorrentes de fora do Hemisfério a capacidade de “possuir ou controlar ativos estrategicamente vitais”. Em bom português: terras raras, lítio, cobalto, nióbio — tudo o que a transição energética e a indústria de defesa exigem — deve estar sob controle americano.

O Brasil, com a segunda maior reserva de terras raras do mundo, está no centro dessa disputa. Os Estados Unidos já desembolsaram mais de 5,5 bilhões de dólares em acordos que garantem acesso preferencial à produção brasileira, com cláusulas de “controle de compra” que direcionam o minério para empresas americanas e seus aliados. A candidatura de Flávio Bolsonaro sinaliza que, se eleito, tornará essas reservas “mais acessíveis aos EUA” como parte de uma aliança estratégica contra a China. Em maio de 2026, quando Lula recusou a proposta americana de exclusividade e afirmou que o Brasil manteria a soberania sobre seus recursos, exigindo processamento local e abertura para todos os parceiros, a resposta de Washington veio em forma de tarifas, sanções e pressão sobre o processo eleitoral.

A pergunta que o eleitor precisa fazer, portanto, não é apenas qual projeto oferece mais benefícios sociais ou menos impostos. É também: quem vai controlar o subsolo brasileiro? Quem vai decidir o ritmo da exploração, o destino do minério, a industrialização no território nacional? Um projeto que entrega terras raras aos EUA em troca de alinhamento geopolítico não é apenas um projeto econômico — é um projeto de renúncia à soberania. E renúncia à soberania tem consequência concreta: menos empregos qualificados, menos arrecadação, menos capacidade de financiar saúde, educação e infraestrutura.

Isso não é fantasia conspiratória. É a política externa americana declarada em documento oficial. E é a razão pela qual a eleição brasileira de 2026 não é apenas sobre Lula ou Flávio Bolsonaro. É sobre se o Brasil continuará a ser um país que decide seu próprio destino ou voltará a ser um quintal.

Também é preciso reconhecer os problemas reais do presente. A dívida pública está próxima de 83% do PIB, os juros permanecem elevados, famílias estão endividadas e o custo de vida continua pressionando o orçamento doméstico. Portanto, nenhum projeto merece cheque em branco. Tanto propostas de expansão de políticas públicas precisam explicar seu financiamento quanto promessas de cortes de gastos e redução de impostos precisam dizer concretamente onde ocorrerão esses cortes e quem será atingido por eles.

O campo progressista tem outra tarefa: voltar ao território. Menos conversa exclusivamente entre convencidos e mais presença em bairros, igrejas, feiras, sindicatos, pequenos comércios, assentamentos, universidades e comunidades. Escutar antes de responder. Perguntar antes de ensinar. Explicar antes de acusar. E explicar, sobretudo, que a soberania não é abstração — é a diferença entre decidir o preço do minério que sai do subsolo e aceitar o preço que o comprador impõe.

Mas é preciso ter clareza: o território não é neutro. Igrejas neopentecostais, milícias, redes de agronegócio e plataformas digitais já operam como estruturas organizadas de produção de voto. Não se trata apenas de “estar presente” — trata-se de disputar espaços capturados por redes conservadoras consolidadas, com recursos, mídia própria e capilaridade que o campo progressista perdeu. Voltar ao território exige organização, financiamento, formação de quadros e tempo — não apenas boa vontade.

E não se pode ignorar a assimetria das condições. A máquina pública, o Congresso, o poder econômico e boa parte dos meios de comunicação não estão distribuídos de forma equilibrada entre os dois campos. O convencimento é necessário, mas não é suficiente. Sem organização, recursos e instituições, a conversa mais generosa não chega à mesa da cozinha.

O eleitor que votou diferente não deixou de ser trabalhador, vizinho, amigo ou cidadão porque escolheu outro candidato.

E talvez esteja justamente aí a chave desta eleição.

Não se trata de derrotar 56 milhões de brasileiros. Trata-se de convencer parte deles — e de não confundir o adversário democrático com o inimigo da democracia. Mas trata-se, também, de não confundir soberania com isolamento, nem alinhamento com submissão. O Brasil que queremos não é o que decide sozinho nem o que obedece — é o que negocia em igualdade.

Política democrática não é a arte de escolher quem merece ser ouvido. É a capacidade de construir maioria.

E maioria se constrói com respeito, escuta, proposta e convencimento — mas também com organização, clareza, soberania e coragem para reconhecer os próprios erros.

Paulo Lemos é Advogado e Analista Político

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