Uma escolha entre um Estadista mundialmente reconhecido e outro comprovadamente vinculado às milícias

Paulo Lemos
A eleição presidencial de 2026 no Brasil não é apenas uma disputa entre dois candidatos. É um referendum sobre dois modelos de país, duas visões de mundo e, sobretudo, duas biografias que a imprensa nacional e internacional já não hesitam em justapor.
De um lado, um presidente que o The New York Times descreveu como indiscutivelmente o estadista latino-americano mais importante deste século.
Do outro, um senador cuja trajetória política é indissociável das milícias cariocas e cuja campanha, segundo o jornal Estadão, embute o risco da ascensão das milícias ao topo do poder da República. Não se trata de retórica de campanha. Trata-se de um fato documentado, com fontes, datas e nomes.
O reconhecimento internacional de Lula como estadista não é uma construção recente nem um fenômeno restrito à imprensa amiga. É um consenso que atravessa linhas editoriais. Em julho de 2025, em entrevista ao New York Times, Lula foi retratado como um esquerdista em seu terceiro mandato e indiscutivelmente o estadista latino-americano mais importante deste século.
O jornal americano, que não é conhecido por sua simpatia por líderes de esquerda, destacou a firmeza de Lula diante das tarifas de 50% impostas por Donald Trump.
A manchete do portal do NYT foi inequívoca: Ninguém está desafiando Trump como o presidente do Brasil.
Em setembro de 2026, ao discursar na Assembleia Geral da ONU, Lula foi aplaudido quatro vezes durante uma fala de pouco mais de 21 minutos, um recorde para um chefe de Estado brasileiro.
Os aplausos vieram quando Lula citou o reconhecimento do tráfico transatlântico de escravos como crime contra a humanidade, quando criticou a postura de Israel em Gaza, quando defendeu a soberania das nações ao afirmar que o Brasil não cabe no quintal de ninguém e quando abordou o combate ao feminicídio.
O jornal britânico The Guardian, em editorial de setembro de 2026, defendeu abertamente a reeleição de Lula.
O texto alertou que a vitória de Flávio Bolsonaro ameaçaria não apenas a democracia brasileira, mas também a preservação da Amazônia, uma questão de consequências globais.
Do outro lado do ringue, a alcunha Flávio Miliciano não é uma invenção de adversários.
É uma descrição sustentada por uma montanha de evidências que incluem investigações da Polícia Federal, reportagens de veículos de referência e até condenações no Supremo Tribunal Federal.
A relação de Flávio Bolsonaro com as milícias cariocas começa nos primeiros anos de seu mandato como deputado estadual, iniciado em 2003.
Em 2005, ele condecorou com a Medalha Tiradentes o ex-capitão do BOPE Adriano da Nóbrega, apontado como chefe do Escritório do Crime, e que estava preso na época por homicídio.
Entre 2007 e 2018, contratou a mãe e a mulher de Nóbrega em seu gabinete. Em 2007, Flávio subiu à tribuna da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro para defender as milícias como um novo tipo de policiamento. Em outro discurso, disse que não se importaria em pagar mensalidades de R$ 30 ou R$ 40 às milícias para ter mais segurança.
A prática, porém, não ficou no passado. Em 2023, uma assessora do senador negociou pessoalmente com Robson Calixto, o Peixe, condenado pelo Supremo a nove anos de prisão por participação no assassinato da vereadora Marielle Franco, o repasse de quase R$ 200 mil de emenda parlamentar. A reportagem do Estadão revelou que a assessora Maria de Fátima Bezerra Castro tratou do repasse com Peixe, que é apontado como uma das figuras centrais do assassinato de Marielle e também é acusado de participar de uma milícia no Rio de Janeiro.
O dinheiro foi destinado para um projeto de futebol infantil tocado pelo Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio na Zona Sudoeste do Rio, reduto eleitoral dos irmãos Brazão, condenados como mandantes do homicídio da ex-vereadora.
As conversas entre a assessora e Peixe se deram por cinco meses, incluíram um telefonema iniciado por ela e só terminaram dois dias antes de a Polícia Federal prender Peixe e os irmãos Brazão.
No celular dele, o número da assessora estava salvo como Fafa Flávio Bolsonaro.
Em editorial, o Estadão foi direto: É extremamente preocupante que um candidato à Presidência tenha mantido vínculo tão próximo, até pouco tempo atrás, com um miliciano condenado pelo Supremo pela morte de Marielle.
E acrescentou: Sobre o fato mais escabroso, a proximidade entre o senador e um miliciano condenado, Flávio não deu uma satisfação sequer aos eleitores.
A imprensa internacional já compreendeu o que está em jogo. O jornal britânico The Guardian publicou editorial em que afirma que a eleição dificilmente poderia apresentar uma escolha mais clara e alerta que Flávio não é menos extremista que seu pai.
O texto também menciona o escândalo envolvendo o Banco Master, que se transformou em uma crise que alcançou a política e o Judiciário brasileiros. Flávio Bolsonaro pediu ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro quase US$ 27 milhões para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro.
A Polícia Federal investiga o senador por suspeita de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção no caso Dark Horse, que apura o suposto desvio de dinheiro público por Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para financiar a cinebiografia de Jair Bolsonaro.
A investigação, autorizada pelo ministro André Mendonça em 22 de julho e tornada pública em 10 de setembro, corre no Supremo Tribunal Federal, mas pode ser inteiramente paralisada caso Flávio Bolsonaro seja eleito presidente da República, por força de uma prerrogativa prevista na Constituição Federal.
É uma escolha entre um estadista reconhecido mundialmente por sua defesa da soberania, da democracia e da paz e um candidato cuja biografia política está irremediavelmente atada às milícias que controlam bairros inteiros do Rio de Janeiro, ao crime organizado que assassinou Marielle Franco e a um banqueiro investigado por fraudes bilionárias.
Como disse Lula em entrevista ao Flow Podcast: Esse menino não tem história política. Esse menino é ligado aos milicianos. Não é uma acusação. É um resumo.

Paulo Lemos é advogado e analista político em Cuiabá/MT.
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