Pequenos e Decisivos Passos na Infância

Pequenos e Decisivos Passos na Infância
Imagem Pessoal

Andréa Fernandes

Há acontecimentos da infância que parecem pequenos demais para merecer atenção.

Uma criança tentando abotoar a própria camisa. Outra insistindo em servir o suco sozinha, mesmo que algumas gotas caiam sobre a mesa. Uma pergunta feita no meio da correria. Uma frustração diante de algo que ainda não consegue fazer. Um brinquedo compartilhado, uma escolha respeitada, uma tentativa que não deu certo.

Para o adulto, são cenas comuns. Para a criança, são experiências.

E talvez uma das coisas mais importantes que aprendi trabalhando com desenvolvimento infantil seja justamente esta: o aparentemente banal pode carregar processos de transformação que só se tornam visíveis quando olhamos a experiência ao longo do tempo.

O desenvolvimento de uma criança não acontece apenas nos grandes acontecimentos, nas aprendizagens formais ou nos marcos que costumamos acompanhar com tanta atenção. Ele também acontece na repetição das pequenas experiências cotidianas.

É no cotidiano que a criança experimenta o próprio corpo, encontra limites, testa possibilidades, participa das relações e começa a perceber os efeitos de suas ações sobre o mundo.

Quando tenta colocar o sapato e encontra um adulto disposto a esperar, não está apenas aprendendo a se vestir. Está vivendo a experiência de tentar.

Quando derruba alguma coisa e encontra a possibilidade de reparar o que aconteceu, aprende muito mais do que uma regra doméstica. Descobre que o erro não precisa significar o fim da tentativa.

Quando sua opinião é ouvida, mesmo que nem sempre possa ser atendida, começa a compreender que sua voz tem lugar nas relações.

Quando participa das pequenas tarefas da casa, não está apenas aprendendo habilidades. Está descobrindo que pertence àquele grupo e que sua participação produz efeitos reais.

É assim que experiências aparentemente simples começam a produzir significados.

A criança não é apenas alguém sendo moldado pelo mundo. Ela observa, interpreta, responde, experimenta e constrói compreensões sobre si mesma a partir daquilo que vive.

Pouco a pouco, pode aprender: “eu consigo tentar”, “posso pedir ajuda”, “meu erro pode ser reparado”, “minha presença importa”, “há coisas que ainda não consigo fazer, mas posso aprender”.
Ou pode construir significados muito diferentes.

Quando o adulto antecipa constantemente suas dificuldades, ela perde oportunidades de descobrir o que conseguiria fazer. Quando suas tentativas são interrompidas porque demoram demais, pode aprender que o resultado importa mais do que o processo. Quando suas escolhas nunca encontram espaço, pode tornar-se competente para muitas tarefas e, ainda assim, ter dificuldade para reconhecer aquilo que deseja.

Isso não significa transformar cada gesto dos pais em uma decisão capaz de definir o futuro de uma criança. Nenhuma infância é construída por uma única cena, assim como nenhum pai ou mãe consegue responder de maneira ideal o tempo inteiro.

O desenvolvimento acontece na pluralidade das experiências.

É justamente por isso que pequenos passos importam.

Uma criança não precisa de adultos perfeitos. Precisa de relações suficientemente seguras para experimentar, errar, participar, perguntar, discordar, pedir ajuda e tentar novamente.

Também precisa de oportunidades compatíveis com suas possibilidades. Para algumas crianças, um passo aparentemente simples exigirá muito mais tempo, apoio ou adaptação. Desenvolvimento não é competição. Comparar trajetórias diferentes pode nos fazer perder justamente aquilo que deveríamos observar: de onde aquela criança partiu e quais possibilidades conseguiu construir.

Talvez precisemos olhar menos para a velocidade e mais para o percurso.

Na clínica, muitas vezes vejo conquistas que poderiam passar despercebidas para quem olha apenas para o resultado final: a criança que pela primeira vez inicia uma brincadeira; aquela que consegue pedir ajuda em vez de abandonar uma tarefa; a que tolera errar e tenta novamente; a que começa a expressar uma preferência; a que participa de algo que antes apenas observava.

São pequenos movimentos.

Mas pequenos não significa insignificantes.

A infância é atravessada por milhares dessas experiências. Algumas duram poucos minutos e desaparecem da memória dos adultos. Ainda assim, participam silenciosamente da construção da maneira como a criança se relaciona consigo mesma, com os outros e com aquilo que acredita ser capaz de fazer.

Talvez educar e cuidar também exijam aprender a reconhecer esses movimentos.

Nem sempre o desenvolvimento chega fazendo barulho.

Às vezes ele aparece numa tentativa que ontem não existia, numa pergunta que finalmente foi feita, numa mão adulta que soube ajudar sem fazer no lugar, numa criança que descobre que pode participar um pouco mais da própria vida.

É por isso que alguns dos passos mais decisivos da infância parecem, à primeira vista, tão pequenos.

Andréa Fernandes é terapeuta ocupacional, mãe de três e autora do livro Pequenos e Decisivos Passos na Infância, pela Alta Books.

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias Aef News

Astrogildo Aécio Nunes

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