SE O ABSURDO DÁ VOTO, DE QUEM É A CULPA?

SE O ABSURDO DÁ VOTO, DE QUEM É A CULPA?
Imagem Pessoal

João Edisom de Souza

Começou o horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão. E, pelo que estamos assistindo, talvez seja um dos piores dos últimos tempos quando o assunto é proposta. Economia, saúde, educação, emprego, renda, segurança, infraestrutura e desenvolvimento parecem assuntos secundários. O espetáculo principal é outro: atacar adversários, fabricar inimigos, espalhar medo e pronunciar barbaridades capazes de transformar uma eleição numa competição para descobrir quem assusta mais o eleitor.

Por viver nos bastidores de campanhas, tenho feito uma pergunta simples a alguns candidatos: vocês realmente acreditam no que estão falando?

As respostas são mais assustadoras que os discursos. Muitos admitem que não. Reconhecem que determinadas falas são exageradas, absurdas e até indefensáveis. Mas justificam: “é isso que dá voto”. Se for verdade, temos um problema muito maior do que maus políticos.

Talvez seja necessário perguntar: são os políticos que enlouqueceram ou existe uma parcela do eleitorado que desenvolveu gosto eleitoral pelo absurdo, pela mentira e pela maldade?

A Psicologia Social ajuda a explicar essa engrenagem. O eleitor não decide apenas racionalmente. Medo, raiva, ressentimento e pertencimento interferem nas escolhas. Daniel Kahneman demonstrou a força dos processos rápidos e intuitivos nas decisões humanas. Tajfel e Turner mostraram como a identidade de grupo constrói a lógica do “nós contra eles”. Na política, isso produz uma consequência perigosa: derrotar o inimigo pode proporcionar mais satisfação do que melhorar a própria vida.

O eleitor deixa de perguntar “qual é a proposta para o meu bairro?” e passa a perguntar “como vamos derrotar aqueles que eu odeio?”. É uma extraordinária vitória da manipulação política.

Aristóteles compreendia a política como instrumento do bem comum. Hannah Arendt alertou para o perigo de sociedades nas quais a mentira sistemática destrói nossa relação com a própria realidade. Hoje juntamos as duas tragédias: abandonamos o bem comum e relativizamos a verdade.

Explicar como melhorar a saúde exige conhecimento. Gerar empregos exige planejamento. Discutir educação exige políticas públicas. Falar sobre saneamento, habitação ou desenvolvimento econômico exige números, orçamento e competência. Já fabricar um inimigo exige apenas um microfone. A proposta precisa convencer. O medo só precisa assustar.

A Ciência Política conhece a eficiência das campanhas negativas. Quando o candidato não consegue convencer o eleitor de que é bom, tenta convencê-lo de que o outro é terrível. A eleição deixa de escolher o melhor e passa a selecionar aquele que provoca menos medo dentro de uma realidade artificialmente aterrorizante.

Mas seria confortável responsabilizar somente os políticos. Existe também um mercado do absurdo. Se agressividade gera voto, candidatos serão agressivos. Se mentira mobiliza, aparecerão mentirosos. Se humilhar adversários produz aplausos, surgirão especialistas em humilhação. Políticos observam o eleitor e aprendem rapidamente quais comportamentos são recompensados.

Não estou falando de sadismo como diagnóstico psicológico, mas precisamos reconhecer certo prazer político na destruição do outro. Para alguns, já não basta vencer uma eleição; é preciso humilhar o adversário. Não basta defender seu candidato; é necessário odiar o candidato do vizinho.

Assim produzimos uma aberração democrática: eleitores com problemas reais escolhendo candidatos especializados em problemas imaginários.

Falta médico, mas discutimos fantasmas ideológicos. Falta emprego, mas combatemos inimigos inventados. A escola precisa melhorar, o esgoto corre pela rua, a violência cresce, a renda não chega ao fim do mês, mas o eleitor comemora porque seu candidato “acabou” com o adversário num vídeo de trinta segundos. Enquanto isso, nada muda na sua vida.

Forma-se um círculo de mediocridade: o político oferece baixaria porque acredita que o eleitor gosta; o eleitor consome baixaria e confirma que a estratégia funciona. Um alimenta o pior do outro. Talvez, portanto, a pergunta não seja quem é pior, político ou eleitor, mas quem vai parar primeiro?

Porque existe uma verdade incômoda: se o absurdo dá voto, haverá alguém disposto a dizer absurdos. Se a mentira elege, haverá candidatos dispostos a mentir. E se a maldade for premiada nas urnas, não deveríamos nos surpreender quando os vencedores governarem reproduzindo aquilo que o eleitor decidiu recompensar.

O voto não escolhe apenas políticos. O voto também ensina aos políticos que tipo de política vale a pena fazer.

João Edisom de Souza – Professor universitário e analista Político
@joaoedisom

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