Por que padre não pode casar?

Por que padre não pode casar?
Por que padre não pode casar? — Foto: Foto de Oleksandr P/Pexels

Entre as diferentes religiões, é relativamente comum que sacerdotes tenham a permissão de casar e formar famílias. Nas religiões protestantes, por exemplo, é normal que os pastores sejam casados e tenham filhos. No judaísmo, os rabinos também podem casar, assim como os imames no islamismo. Em religiões indígenas, muitos líderes espirituais, como os xamãs, também não encontram nenhuma restrição caso queiram se casar.

No entanto, a Igreja Católica se coloca como exceção ao vetar o casamento para seus padres — o Código de Direito Canônico, um conjunto de regras que equivale a uma “Constituição” dessa religião, veta o casamento para os ordenados no Cânone 1087. Mas, para entender o porquê dessa regra, primeiro é preciso entender como ela funciona. E, para começo de conversa, já é preciso dizer que ela tem exceções.

Embora a doutrina católica não se divida, as diferenças culturais entre o globo fazem com que existam duas tradições distintas para a fé: o Rito Oriental e o Rito Latino. O Rito Oriental é praticado em países como a Índia, a Ucrânia, o Líbano e a Síria e segue algumas tradições locais. Lá, homens que já eram casados podem ser ordenados padres, embora não possam se casar depois da ordenação. Caso se divorciem, também não podem assumir uma nova esposa.

No Rito Latino, que é seguido no Brasil e no Ocidente em geral, essa regra também é válida em teoria — no entanto, é extremamente incomum encontrar padres casados por aqui (geralmente, são sacerdotes de outras religiões que se converteram ao catolicismo). Essa falta de casados é uma questão cultural, claro, mas que vem também da regra do celibato, válida para ambos os ritos. O celibato está estabelecido para padres e bispos no Cânone 277.

O casamento não é expressamente proibido na Bíblia, mas não é recomendado para os que pretendem se tornar líderes religiosos. O apóstolo Paulo escreveu, nas cartas aos Coríntios: “O homem que não é casado preocupa-se com as coisas do Senhor, em como agradar ao Senhor. Mas o homem casado preocupa-se com as coisas deste mundo, em como agradar sua mulher, e está dividido” (1 Coríntios 7:32-35).

Na teologia do Cristianismo, o padre representa Jesus Cristo, que era casto e solteiro. Ao permanecerem também celibatários e solteiros, os padres podem devotar sua vida à Igreja e estarem mais próximos à sua figura modelo.

No entanto, é preciso dizer que alguns historiadores afirmam que as regras de celibato da Igreja advêm principalmente de filósofos pagãos, que associavam o espírito ao bem e a carne ao mal, e teriam contaminado a Igreja com esses ensinamentos em seus primeiros séculos de existência.

Padre não pode casar, mas não foi sempre assim

Pedro, um dos 12 apóstolos de Jesus, foi também o primeiro bispo de Roma, portanto o primeiro papa. E era casado. Não foi o único: nos primeiros séculos da Igreja Católica, o celibato ainda não era uma regra universal, de modo que muitos padres eram casados e tinham filhos, assim como alguns papas (embora esses casamentos, assim como hoje, tivessem acontecido antes da ordenação). Exigia-se apenas que esses sacerdotes, após serem ordenados, vivessem em continência (abstinência conjugal). O celibato apenas se tornou obrigatório a partir do Concílio de Latrão I (1123) e do Concílio de Latrão II (1139).

Mas não foram apenas preocupações morais que levaram a essas decisões. No passado, o padre era mais que um líder religioso — era visto como uma figura de autoridade, a quem todos deviam respeito. Eles eram as pessoas mais cultas da sociedade, tinham residências espaçosas e confortáveis e circulavam entre a elite.

Por isso, o nepotismo era um problema para a Igreja Católica. Era comum que padres, bispos e até papas usassem de sua posição para garantir benefícios materiais, posições eclesiásticas e terras para seus parentes. Eles garantiam a manutenção desse poder deixando suas posições na Igreja como “herança” para seus filhos.

Um dos exemplos mais famosos é o do Papa Bento IX (pontificado: 1032–1048), que foi nomeado papa com apenas cerca de 20 anos — escolha que foi amplamente influenciada por sua poderosa família, os Condes de Túsculo, que controlavam grande parte de Roma durante o século 11.

Bento IX ficou famoso por sua imoralidade e corrupção e chegou a ser expulso de Roma. Além disso, os Condes de Túsculo também mexeram os pauzinhos para colocar outros de seus membros no trono papal ao longo dos anos. De certa forma, a imposição do celibato serviu para acabar com essas tramoias e para voltar a centralizar o poder dentro da Igreja Católica, em vez de deixá-lo nas mãos de famílias interesseiras.

Padres poderão casar no futuro?

Embora o assunto ainda seja tabu na Igreja Católica, volta e meia há sinais de que as coisas podem mudar. Em 2017, em uma entrevista, o Padre Francisco disse estar aberto à ideia de permitir que padres se casassem. Já em 2023, em outra entrevista, o papa declarou que “não há contradição em um padre se casar”. O debate, claramente, está longe de ser encerrado.

(Por Victor Bianchin)

Astrogildo Aécio Nunes

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