Pesticida contra a malária pode ter ajudado mosquitos a se apaixonar

Quando um inseto consegue sobreviver a um pesticida, é sinal de que ele tirou a sorte grande. Foi isso o que aconteceu com alguns mosquitos que resistiram ao inseticida dieldrin, usado para controle da malária na década de 1950. Mas, cientistas sugerem que a sorte de alguns desses sobreviventes foi ainda maior do que se imaginava. Tudo porque essa resistência ao inseticida pode ter vindo com um brinde: uma ajudinha na hora de encontrar o amor.
Segundo um estudo publicado na revista Science nesta terça-feira (4), os mosquitos-pregos (Anopheles) – vetores da malária – sofreram significativas mutações genéticas após serem constantemente expostos ao pesticida. Essa alteração pode ter aprimorado a capacidade do inseto de localizar parceiros em ambientes barulhentos. O que começou como uma estratégia de sobrevivência, pode ter virado uma vantagem romântica.
Azar no veneno, sorte no amor
Logo no início, pulverizar o inseticida nas paredes das casas – local onde os mosquitos se resguardavam – pareceu funcionar. O problema foi que, em poucos anos, parte da população desenvolveu uma mutação no gene Rdl que os tornaram resistentes ao dieldrin que, por sua vez, logo deixou de ser usado, já que se mostrou tóxico às pessoas.
Era de se esperar que, sem o veneno exercendo pressão seletiva, essa mutação desaparecesse aos poucos. Mas ela permaneceu circulando entre as populações africanas por décadas, intrigando os pesquisadores. Afinal, por que carregar uma alteração genética que reduz a atividade de certos neurônios – algo não vantajoso do ponto de vista evolutivo?
A resposta começou a surgir quando duas linhas de pesquisa se encontraram por acaso. De um lado, uma equipe de cientistas estudava como o gene Rdl afetava o sistema nervoso dos mosquitos. Os experimentos mostraram que bloquear a ação desse gene deixava os neurônios responsáveis pela audição mais sensíveis aos sons.
Do outro lado, pesquisadores observaram que essa mesma mutação aparecia com frequência diferente entre mosquitos de áreas urbanas e rurais da África subsaariana. A coincidência levantou uma hipótese: e se a resistência ao pesticida estiver melhorando a capacidade auditiva dos insetos? Como escutam com os pelos que carregam nas patas, que os permite perceber o movimento de partículas de ar próximas à fonte do som, os mosquitos passaram a ter mais sucesso na hora de procurar sua cara metade.
Hora da serenata
Foi aí que os cientistas decidiram reproduzir essas ondas sonoras e o resultado chamou atenção: os machos portadores da mutação tinham probabilidade significativamente maior de voar até o alto-falante e pousar sobre ele do que os indivíduos sem a alteração genética. Tudo indicava que eles detectavam aquele zumbido com mais facilidade.
Mas ouvir melhor não significa namorar melhor. Agora restava descobrir se a vantagem auditiva fazia diferença na prática, sobretudo na de encontrar um parceiro para reprodução.
Então, a equipe colocou grupos de 25 machos e 25 fêmeas em pequenas gaiolas durante dois dias. Metade dos casais ficou em uma incubadora relativamente silenciosa, com cerca de 70 decibéis. A outra metade enfrentou um ambiente de aproximadamente 93 decibéis de ruído branco contínuo, simulando o barulho intenso encontrado em muitas cidades.
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Os machos resistentes ao dieldrin praticamente não sentiram a diferença: seu sucesso reprodutivo permaneceu próximo de 40% em ambos os cenários. Já no ambiente mais barulhento, a taxa de acasalamento caiu de aproximadamente 42% para 33%.
Se a hipótese estiver correta, a mutação teria deixado de ser apenas um escudo contra pesticidas para se transformar em uma vantagem competitiva justamente onde o barulho poderia atrapalhar os encontros entre mosquitos.
Ainda assim, os resultados ainda precisam ser comprovados por novos estudos. Um dos principais argumentos contrários à ideia é que existe um aparente paradoxo entre os lados. Afinal, se esses mosquitos realmente ouvem melhor, seria intuitivo imaginar que evitassem ambientes mais barulhentos, certo? Compreender esse mecanismo exigirá estudos nas antenas – onde ficam os órgãos auditivos dos insetos – e não apenas experimentos comportamentais.
Quanto mais barulhento, melhor?
O padrão observado foi consistente: quanto maior o barulho, mais comum era encontrar mosquitos que carregavam a mutação. Além disso, fêmeas sem essa alteração genética apresentavam menor probabilidade de acasalar nas áreas urbanas do que nas regiões rurais.
Mesmo que a hipótese ainda precise de confirmação, a pesquisa reforça uma ideia conhecida pelos biólogos evolutivos: quando uma espécie muda para sobreviver a uma ameaça, essa transformação dificilmente fica restrita ao problema original. No caso dos mosquitos, um pesticida abandonado há décadas pode ter deixado uma herança genética que continua moldando seu comportamento até hoje.
(Por Júlia Sardinha)






