Peixes deste lago conseguem viver mais de 400 anos, descobre novo estudo

Alguns esturjões-do-lago (Acipenser fulvescens), encontrados nos Grandes Lagos, na fronteira entre os Estados Unidos e o Canadá, podem viver mais de 400 anos, atravessando cerca de 15 gerações humanas. É o que sugere um estudo publicado em abril no Journal of Fish Biology. Embora os pesquisadores ressaltem que a estimativa ainda precisa ser confirmada por métodos independentes, os resultados já colocam o animal entre os vertebrados mais longevos conhecidos. Também se levanta a possibilidade de a espécie ser o peixe de água doce com a maior longevidade já identificada.
“As estimativas de idade para os maiores peixes que capturamos em cada população não representam necessariamente a idade máxima que pode atingir”, lembra Edward Baker, pesquisador do Departamento de Recursos Naturais de Michigan e coautor do estudo, à revista Smithsonian. Segundo ele, podem existir indivíduos ainda maiores e mais velhos do que os encontrados pela equipe, os quais chegaram a até 435 anos.
Um peixe que atravessa séculos
O esturjão-do-lago é o maior peixe dos Grandes Lagos e costuma atingir entre 1,2 e 1,8 metro de comprimento, com peso de aproximadamente 14 a 36 kg. Apesar de ter um esqueleto predominantemente cartilaginoso, pertence ao grupo dos peixes ósseos. Seus ancestrais remontam a cerca de 200 milhões de anos, muito antes do surgimento da espécie humana.
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Antes do estudo, pesquisas indicavam que esses animais normalmente poderiam viver, em média, entre 50 e 100 anos. Um esturjão capturado em 1953, na fronteira entre Minnesota e o Canadá, tinha 154 anos e era considerado o indivíduo mais velho já registrado.
A nova estimativa, porém, muda de forma significativa esse cenário. Para chegar aos resultados, os pesquisadores analisaram dados de milhares de esturjões coletados entre 1980 e 2024 em cinco cursos d’água associados aos Grandes Lagos Superiores: Black Lake, Sturgeon River, Menominee River, St. Clair River e Lake Winnebago.
Cálculo de idade
Estimar a idade de um peixe selvagem não é uma tarefa simples. Em muitas espécies, os pesquisadores contam anéis de crescimento presentes nas escamas, de maneira semelhante à análise dos anéis de um tronco de árvore. Cada marca, chamada de ânulo de crescimento, costuma corresponder a um ano de vida.
O problema é que essa técnica se torna menos confiável em animais muito velhos. No caso dos esturjões, que crescem lentamente, os anéis passam a ficar cada vez mais próximos, até se tornarem difíceis de distinguir ou deixarem de se formar de maneira clara.
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Por isso, a equipe optou pelo emprego do chamado sistema de captura-marcação-recaptura. Os pesquisadores capturavam os peixes, registravam sexo e comprimento, colocavam uma pequena etiqueta de identificação sob a pele e depois os devolviam à água.
As etiquetas continham um número exclusivo de 15 dígitos e apresentaram retenção próxima de 100%. Dessa maneira, quando um peixe era recapturado anos mais tarde, os cientistas conseguiam identificar o mesmo indivíduo e comparar seu novo tamanho com o registrado anteriormente.
Segundo Baker, alguns esturjões puderam ser reconhecidos até 42 anos depois da captura anterior. A partir desses registros, os pesquisadores calcularam quanto cada peixe crescia, em média, a cada ano. Depois, incorporaram aos cálculos diferenças entre machos e fêmeas, entre populações e entre indivíduos mais jovens e mais velhos.
Machos podem chegar a 435 anos
O estudo desenvolveu uma equação para estimar a idade de esturjões próximos dos maiores tamanhos observados nas populações analisadas. Para um macho de 1,60 metro, considerado aproximadamente o comprimento máximo dessa população, a idade mediana estimada ficou entre 87 e 215 anos. Para uma fêmea de 1,80 metro, a faixa foi de 90 a 248 anos.
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Alguns dos maiores indivíduos analisados, contudo, apresentaram idades medianas estimadas de até 435 anos para machos e 292 anos para fêmeas. Esses números não significam, necessariamente, que a equipe tenha encontrado um peixe comprovadamente com 435 anos. Eles representam estimativas produzidas a partir do crescimento observado nos animais e, por isso, precisam de confirmação.
“Gostaríamos de tentar a datação por radiocarbono como forma de verificar nossas estimativas de idade e já entramos em contato com os autores do trabalho realizado com o tubarão-da-Groenlândia”, indica Baker. A datação por radiocarbono é uma técnica que permite estimar a idade de materiais biológicos a partir da quantidade de carbono radioativo remanescente neles.
Implicações para a conservação
A possível longevidade extraordinária também ajuda a explicar por que o esturjão-do-lago é tão vulnerável à exploração humana. No fim do século 19, estima-se que cerca de 15 milhões desses peixes habitassem os Grandes Lagos. Atualmente, a população corresponde a menos de 1% daquele número. “Consideramos que a pesca desregulamentada foi o que levou ao declínio das populações de esturjão-do-lago no início do século 20”, afirma Baker.
Outro fator responsável foi o seu ritmo lento de reprodução. As fêmeas normalmente atingem a maturidade sexual entre 20 e 25 anos e podem se reproduzir apenas uma vez a cada quatro a nove anos. Isso significa que uma redução significativa da população pode levar décadas ou até séculos para ser revertida.
Como o novo estudo sugere que alguns esturjões ainda vivos podem ser indivíduos que sobreviveram à intensa exploração ocorrida há muitas décadas, isso torna a preservação dos peixes adultos especialmente importante, já que a reposição natural da população ocorre lentamente.
(Por Arthur Almeida)
O esturjão-do-lago — um peixe enorme e longevo dos Grandes Lagos — pode sobreviver por muito mais tempo do que os cientistas pensavam anteriormente, de acordo com um estudo recente. Aqui, um esturjão-do-lago juvenil é capturado durante uma avaliação da pesca no sistema fluvial St. Clair-Detroit — Foto: James Boase/USFWS
(Por Arthur Almeida)






