Baleia é flagrada vivendo “luto” por filhote natimorto em vídeo raro; assista

Baleia é flagrada vivendo “luto” por filhote natimorto em vídeo raro; assista
Jubarte interage com seu filhote natimorto. Nas imagens: a) Liberação da membrana amniótica; b) Partes da membrana amniótica flutuando na superfície; c) Baleia jubarte fêmea descansando ao lado de seu filhote natimorto; e d) contato visual com o filhote natimorto — Foto: Jan-Olaf Meynecke e André Mulville

Uma baleia jubarte (Megaptera novaeangliae) fêmea foi observada interagindo repetidamente com um filhote natimorto logo após o parto, em um comportamento que pode apresentar semelhanças com respostas de “luto” já registradas em outros grandes mamíferos. O episódio, ocorrido na costa de Queensland, na Austrália, em 17 julho de 2025, foi descrito como o primeiro registro conhecido desse tipo de comportamento em uma baleia jubarte.

A observação foi feita por Andrew Mulville, da Sea World Foundation, a cerca de um quilômetro da costa da Gold Coast, na Australia. Segundo relato publicado nesta quarta-feira (16) na revista científica Discover Animals, o pesquisador estava no mar quando percebeu duas baleias adultas circulando na mesma área, mergulhando, vocalizando e rolando na superfície.

Por volta das 8h30, o especialista visualizou na água uma membrana amniótica, sinal de que um nascimento havia ocorrido. Não havia, porém, sangue ou placenta visíveis. Ao posicionar uma câmera debaixo d’água, Mulville encontrou o filhote, com menos de quatro metros de comprimento, já morto e afundado no fundo arenoso.

Na sequência, ele registrou a mãe se aproximando repetidas vezes do corpo e tocando-o na cabeça com a nadadeira peitoral. O comportamento chamou a atenção porque, embora interações semelhantes já tenham sido documentadas em algumas baleias dentadas — grupo que inclui orcas e golfinhos —, esse tipo de ocorrência é muito raro entre as baleias de barbatanas, categoria à qual pertencem as jubartes. Veja vídeo:

Mãe permaneceu junto ao filhote

Nas duas horas seguintes, Mulville continuou observando as baleias. A mãe permaneceu nas proximidades do filhote morto e mergulhava continuamente em sua direção. A outra baleia adulta também ficou por perto, em um comportamento que os pesquisadores interpretaram como possível acompanhamento da mãe e do filhote.

Em condições normais, quando o filhote nasce normalmente, uma fêmea jubarte pode empurrá-lo em direção à superfície para ajudá-lo a respirar. Nesse caso, porém, a mãe não apresentou esse comportamento, o que pode indicar que ela percebeu que o filhote não estava vivo. As duas baleias adultas ainda foram vistas na mesma região nos dois dias seguintes, de acordo com relatos feitos por pessoas em terra.

Para Olaf Meynecke, da Universidade Griffith, que participou da análise do caso ao lado de Mulville, o episódio deve ser interpretado com cautela. “É muito importante não humanizar um encontro como esse”, afirma, em entrevista à revista New Scientist.

Segundo o pesquisador, ainda que não seja possível concluir que a baleia estava vivenciando luto, houve uma alteração comportamental significativa. “É preciso entender que se trata de um mamífero, e temos evidências, não necessariamente de luto, mas da mudança de comportamento realmente drástica que vemos em outros mamíferos, como elefantes, quando perdem um membro do grupo ou seus filhotes”, observa Meynecke.

Nascimento do filhote levanta outras preocupações

Para além do comportamento da mãe, o caso também chamou atenção pelo contexto em que ocorreu. Em julho de 2025, sete filhotes de jubarte e outro filhote de baleia de idade não confirmada foram encontrados mortos na mesma região. Nenhum deles, porém, parecia ser o animal observado pelos pesquisadores durante o nascimento.

O episódio também apresentou outra particularidade: a mãe aparentemente não havia expelido a placenta, estrutura responsável por fornecer oxigênio e nutrientes ao feto durante a gestação. De acordo com Meynecke, essa situação é incomum e pode ter representado um risco para a fêmea. Apesar disso, a causa da morte do filhote observado não foi determinada. Dessa maneira, os pesquisadores não afirmam que exista uma relação entre os diferentes casos de mortalidade registrados na região.

Vale salientar, no entanto, que o registro ocorre em meio a uma mudança no comportamento reprodutivo das jubartes no sul de Queensland. À medida que a população desses animais se recuperou e aumentou, tornou-se cada vez mais comum observar fêmeas dando à luz centenas de quilômetros ao sul de áreas tradicionalmente associadas à reprodução da espécie, na região da Grande Barreira de Corais.

Enquanto não há uma explicação definitiva para essa mudança na distribuição dos nascimentos, os pesquisadores tentam acompanhar a baleia envolvida no episódio. Fotografias da nadadeira caudal foram inseridas em um banco de dados com cerca de 16 mil jubartes. A expectativa é que ela possa ser reconhecida caso volte a aparecer na região em temporadas futuras.

(Por Arthur Almeida)

Astrogildo Aécio Nunes

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