PERDI, MAS FUI ROUBADO!

PERDI, MAS FUI ROUBADO!
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João Edisom de Souza

Perder nunca foi fácil. Reconhecer que perdemos por nossos próprios erros parece ser ainda mais difícil. Na política, nos negócios e nas relações pessoais, o fracasso costuma produzir um fenômeno curioso: em vez de uma análise honesta sobre aquilo que fizemos de errado, inicia-se uma verdadeira operação de busca por culpados. A responsabilidade é sempre dos outros. Fomos traídos, enganados, prejudicados ou roubados. Tudo parece aceitável, menos admitir que o adversário foi melhor.

Sigmund Freud, fundador da psicanálise, ajuda a compreender esse comportamento por meio dos mecanismos de defesa do ego. A projeção permite atribuir aos outros sentimentos, defeitos e responsabilidades que temos dificuldade de reconhecer em nós mesmos. Já a racionalização constrói explicações aparentemente lógicas para justificar decisões equivocadas. Assim, o fracassado não fracassou por incompetência, arrogância ou erros estratégicos. Fracassou porque alguém conspirou contra ele.

O filósofo Friedrich Nietzsche, ao analisar o ressentimento, identificou um mecanismo pelo qual a incapacidade de enfrentar a própria condição pode transformar-se em hostilidade contra aqueles que alcançaram o sucesso. Em vez de reconhecer os méritos do vencedor, procura-se desqualificá-lo. Sua vitória deixa de ser consequência de competência, esforço ou estratégia e passa a ser apresentada como produto de manipulação, sorte ou fraude.
É nesse terreno que prosperam as teorias conspiratórias. Quando a realidade contraria nossas expectativas, inventar uma conspiração pode ser psicologicamente mais confortável do que reconhecer nossos limites. A narrativa de que fomos roubados, mesmo sem apresentar provas, transforma a derrota em uma suposta injustiça e preserva a imagem de superioridade que construímos de nós mesmos.

Jean-Paul Sartre, ao desenvolver o conceito de má-fé, mostrou como o ser humano pode fugir da responsabilidade por suas escolhas. Assumir os próprios erros exige reconhecer que poderíamos ter agido de outra maneira. Culpar terceiros, ao contrário, oferece o conforto de uma inocência imaginária.

Na política, esse comportamento ganha dimensões ainda mais preocupantes. Candidatos derrotados frequentemente responsabilizam partidos, assessores, pesquisas, imprensa e até os próprios eleitores. Raramente reconhecem que suas propostas não convenceram, que suas estratégias foram equivocadas ou que seus adversários compreenderam melhor os sentimentos da população.
O mais grave é que essa incapacidade de reconhecer a derrota impede o aprendizado. Quem acredita que nunca errou também acredita que nada precisa mudar. E quem transforma todo vencedor em inimigo jamais compreenderá as razões de sua própria derrota.
Reconhecer os méritos de quem venceu não significa concordar com suas ideias. Significa apenas possuir maturidade intelectual e equilíbrio emocional para admitir que o mundo não existe para confirmar nossas convicções.

O fracasso não diminui necessariamente uma pessoa. O que revela sua verdadeira dimensão moral é a maneira como ela reage à derrota. Afinal, perder faz parte da vida. Transformar a própria incompetência em conspiração é uma escolha.

João Edisom de Souza – Professor universitário e analista Político – @joaoedisom

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