“Pedófilo não é ungido”

“Pedófilo não é ungido”
Foto: Ilustração

Emirella Martins

O centro das atenções neste últimos dias é a pregação da Pastora Helena Raquel no 41º Congresso Internacional de Missões dos Gideões Missionários da Última Hora, onde ela falou sobre violência doméstica, abuso sexual e pedofilia no meio cristão. Com certeza, alguma publicação sobre o contundente sermão deve ter passado por sua timeline.

Digo, é impossível não ficar impressionada com a coragem em falar abertamente, em um dos maiores encontros evangélicos, sobre temas que sempre foram silenciados e omitidos pelas igrejas, o que ela chamou de corporativismo religioso.

Ela é uma renomada pastora, conferencista, autora de treze livros e mentora de mulheres, com mais de 30 anos de ministério, com projetos focados em mulheres. Atualmente também é líder da Assembleia de Deus Vida na Palavra (ADVIP) no Rio de Janeiro. Se autodefine como Filha de Deus e amante das sagradas letras.

Com sua voz potente pregou para todos com um sermão muito claro “Pedófilo não é ungido. Pedófilo é criminoso. Não existe capacidade de se encontrar na mesma figura um pastor e um abusador. Ou é pastor, ou é abusador.”

Uma mulher, pastora, cristã assim como todas as mulheres que a ouviam, ela falou em um espaço que a Lei Maria da Penha é ignorada, ela pregou o que muitas mulheres sempre quiseram ouvir de seus pastores, mas eram convencidas a dobrar o joelho em oração pela mudança do ‘seu’ agressor. Imagino quantas não gritaram por dentro, honrando a vida desta líder.

Seu sermão “Pare de orar por ele hoje e comece a orar por você. Você precisa ter coragem para sair, denunciar e buscar um lugar seguro. E não acredite em pedidos de desculpa, porque quem agride mata” foi muito mais eficiente do que diversas ações isoladas, cercadas pelo feminismo branco, confortavelmente sempre feitas para as mesmas pessoas, sem efeito real para quem verdadeiramente precisa.

Digo por experiência, este é um espaço de grande resistência para qualquer ação de proteção às mulheres. Certa vez, tive a oportunidade de participar de um programa de rádio evangélico com objetivo de levar informações sobre as leis voltadas à proteção das mulheres. Depois de certo tempo, os pastores líderes da igreja criaram uma regra impedindo que pessoas externas participassem dos programas. Foi perceptível o constrangimento da fiel tentando justificar a decisão para minha saída do programa, mas sabemos claramente as razões.

Muitas mulheres foram vítimas neste confinamento devoto, como afirma pesquisa realizada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em que 42,7% das mulheres evangélicas já sofreram violência doméstica, taxa maior do que entre as católicas.

Toda debate não é sobre a pastora em si, mas o assunto, o local, o momento e seu alcance. A retirada do véu diante de um problema tão sério e que por anos foi convenientemente tratado erroneamente. Afinal, nenhuma mulher deve viver submissa aos pés de um agressor.

Emirella Martins – Coronel Veterana da PMMT, Mestranda em Violencia Doméstica y de Género, Pós-Graduada e palestrante na área.

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Astrogildo Aécio Nunes

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