Operação da PF amplia desgaste no reduto de Bolsonaro e cria nova crise para campanha de Flávio

Operação da PF amplia desgaste no reduto de Bolsonaro e cria nova crise para campanha de Flávio
o Rio, que deveria ser fortaleza eleitoral, virou foco de desgaste para Flávio | Foto: Ilustração

A nova ação da Polícia Federal no Rio de Janeiro abriu mais uma frente de desgaste para a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro. Um dos alvos da sexta fase da Operação Unha e Carne é Márcio Canella, ex-prefeito de Belford Roxo e pré-candidato ao Senado pelo União Brasil. Canella é aliado de Flávio Bolsonaro e havia fechado acordo para disputar uma vaga com Rogéria Bolsonaro, mãe do presidenciável, como suplente.

A operação mira uma organização criminosa suspeita de usar uma rede de postos de combustíveis na Região Metropolitana do Rio como plataforma de lavagem de dinheiro. De acordo com a Polícia Federal, o grupo teria movimentado mais de R$ 7,6 bilhões nos últimos seis anos, conforme relatório do Coaf. A PF cumpriu 19 mandados de busca e apreensão em Niterói, São Gonçalo, Itaboraí, Resende e na capital fluminense, além de medidas de sequestro de bens, valores e suspensão de atividades econômicas de empresas ligadas aos investigados.

Canella não era um aliado distante de Flávio. Ele fazia parte da engenharia de palanque montada no Rio para sustentar a candidatura presidencial do senador. A presença de Rogéria Bolsonaro como suplente na chapa dava ao acordo uma chancela familiar e simbólica. Quando um nome desse núcleo vira alvo da PF, a crise deixa de ser periférica e passa a bater diretamente na organização eleitoral do PL fluminense.

O caso se soma a uma sequência de problemas que vêm contaminando o campo bolsonarista no Rio. Em maio, a CNN Brasil já havia informado que operações da PF pressionavam o PL a trocar o palanque no Estado para tentar blindar Flávio. À época, bolsonaristas defendiam a saída do ex-governador Cláudio Castro e de Márcio Canella da chapa ao Senado, diante do temor de que as investigações contaminassem o projeto presidencial do senador.

O Rio virou, assim, uma espécie de paradoxo eleitoral para Flávio Bolsonaro. É seu reduto histórico, mas também o ambiente onde se acumulam personagens investigados, alianças incômodas e suspeitas envolvendo setores da política, da segurança pública, da contravenção e de contratos públicos.

A Operação Unha e Carne já havia atingido nomes de peso da política fluminense. Em maio, a PF prendeu o deputado estadual Thiago Rangel, do Avante, na quarta fase da investigação. Segundo a Folha de S.Paulo, a ofensiva apurava supostas fraudes em compras de materiais e serviços, como obras, na Secretaria Estadual de Educação do Rio. A mesma operação já havia prendido Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Alerj.

Na quinta fase, a PF também mirou conexões entre políticos e o Comando Vermelho. A CNN informou que a operação apurava suposto vazamento de informações sigilosas de ações policiais para a facção. Entre os alvos estavam Rodrigo Bacellar, já preso, o contraventor Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho, e Marco Antônio Cabral, filho do ex-governador Sérgio Cabral. As defesas negaram irregularidades.

O desgaste da direita no Rio não começou agora. Em 2024, o deputado federal Carlos Jordy, do PL-RJ, então líder da oposição na Câmara na legislatura eleita em 2022, foi alvo da 24ª fase da Operação Lesa Pátria. Ele era investigado sob suspeita de ter orientado manifestantes que bloquearam rodovias após a eleição presidencial de 2022. Jordy negou irregularidades e atribuiu a operação a perseguição política.

Esse histórico ajuda a explicar por que a ação contra Canella pesa tanto. Flávio tenta construir uma candidatura nacional baseada em três pilares: legado Bolsonaro, discurso de segurança pública e denúncia de corrupção no governo Lula. Mas, no Rio, seu campo político convive com investigações que embaralham justamente essa narrativa.

A crise é ainda mais sensível porque a segurança pública é uma das vitrines escolhidas por Flávio para disputar a eleição de 2026. O senador tenta se apresentar como representante de uma direita dura contra o crime organizado. O problema é que, no Rio, operações recentes da PF têm tocado em temas como lavagem de dinheiro, contravenção, vazamento de informações policiais e suspeita de infiltração de interesses criminosos em estruturas políticas.

A ofensiva da PF contra Canella também complica a montagem da chapa local. Setores bolsonaristas já avaliavam substituir nomes do palanque para evitar que Flávio fosse arrastado por crises estaduais. Entre os cotados para reorganizar a chapa apareciam o deputado Carlos Jordy e o ex-secretário da Polícia Civil Felipe Curi.

Para adversários de Flávio, o caso oferece munição evidente. A campanha de Lula e partidos de esquerda podem explorar a contradição entre o discurso moralista da direita e a sucessão de operações no reduto bolsonarista. A narrativa provável será simples: quem prometia limpar o país tem dificuldades para explicar o próprio palanque no Rio.

Edilson Almeida | Redação RDM Brasilia

Astrogildo Aécio Nunes

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