O que se comia no Brasil 180 anos atrás? Restos achados em cerâmicas dão pistas

O que se comia no Brasil 180 anos atrás? Restos achados em cerâmicas dão pistas
Fragmentos de cerâmica com esmalte interno e moldada em torno de oleiro e fragmentos de cerâmica moldada à mão e com decorações típicas de influências indígenas, africanas e europeias — Foto: Universidade Autônoma de Barcelona (UAB)

Mesmo quem não é brasileiro sabe o quanto o nosso país é multicultural e etnicamente diverso. Não seria diferente para uma população cuja história foi escrita pela interação entre povos indígenas, populações africanas, comunidades luso-brasileiras e “gringos”. As diferenças são perceptíveis até os dias de hoje, seja no poder aquisitivo, nas ocupações geográficas ou nas manifestações culturais brasileiras. Ainda assim, pouco se sabia sobre como isso era refletido na alimentação cotidiana de cada grupo étnico.

Um estudo liderado por pesquisadores da Universidade Autônoma de Barcelona (UAB), publicado na revista científica Royal Society Open Science no dia 15 de julho, reconstruiu parte dessa dieta por meio da análise de resíduos alimentares. Eles foram encontrados preservados em 180 vasos de cerâmicas utilizados entre o final do século 19 e o início do século 20 na Baía de Babitonga, localizada no litoral norte de Santa Catarina.

O que é arqueologia molecular?

Não muito distante da realidade contemporânea, há mais de um século, o acesso aos alimentos variava de acordo com a origem e o status socioeconômico dos consumidores. As comunidades indígenas, africanas e afrodescendentes – a minoria social – dependiam dos recursos marinhos para se alimentar. Já os “gringos” – em destaque os alemães – consumiam espécies vegetais e produtos cultivados na terra.

Em comunicado, os pesquisadores explicaram que a pesca e a exploração dos recursos costeiros representavam uma fonte de alimento mais acessível para comunidades com recursos escassos. Enquanto isso, a pecuária e certas culturas agrícolas estavam mais relacionadas à propriedade privada e a uma economia de mercado em expansão.

Distribuição geográfica dos sítios arqueológicos históricos da Baía da Babitonga — Foto: Universidade Autônoma de Barcelona (UAB)
Distribuição geográfica dos sítios arqueológicos históricos da Baía da Babitonga — Foto: Universidade Autônoma de Barcelona (UAB)

As diferenças já eram perceptíveis desde os materiais que compuseram os vasos. Antes de realizarem as análises moleculares, os cientistas constataram que as cerâmicas pertencentes às comunidades indígenas, afrodescendentes e luso-brasileiras foram moldadas à mão para armazenar peixes, frutos do mar e milho.

Em contrapartida, os vasos dos imigrantes, sobretudo europeus, foram feitos em torno de oleiro (aquelas “mesinhas” rotatórias que você se imagina quando pensa na palavra “escultura” ou, quem sabe, no filme Ghost: Do Outro Lado da Vida). Nelas, eram guardadas culturas agrícolas, carnes e, até mesmo, laticínios.

“Os resíduos preservados nessas cerâmicas mostram que a dieta cotidiana refletia as profundas diferenças sociais e culturais que caracterizavam o Brasil no final do século 19. A arqueologia molecular nos permite recuperar parte dessa história que dificilmente constaria em documentos escritos”, explicou André Colonese, da UAB.

E assim foi feito. Ficou à cargo da arqueologia molecular analisar os lipídeos preservados em mais de 180 fragmentos de cerâmica e as proteínas presentes em uma seleção dessas peças. As técnicas envolvidas permitiram que os pesquisadores identificassem os tipos de alimentos que eram cozidos ou armazenados em cada recipiente.

Também foi possível – ouso dizer, o fato mais incrível dessa história – que a equipe conseguiu especificar os alimentos que estavam, há mais de um século, consumidos e degradados. Entre eles, havia peixes da família Sciaenidae, ovos de galinha e biomarcadores compatíveis com o processamento de milho, arroz, mandioca, feijão, frutas e verduras, além de gorduras animais.

(Por Júlia Sardinha)

Astrogildo Aécio Nunes

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