Existiram piratas no Brasil? Conheça a história dos corsários brasileiros

Muito antes de o Brasil consolidar sua costa, o litoral do país já era palco de histórias sobre roubos, disputas e violências. Após a invasão portuguesa e a gradual ocupação europeia iniciada no período colonial, novas figuras passaram a desembarcar em terras brasileiras: os piratas.
Mais do que sujos e desalmados – como o imaginário popular faz acreditar –, muitos piratas que atracaram no Brasil já tinham uma boa riqueza para chamar de sua. Mas de onde vem a pirataria?
Pelos mares do “Novo Mundo”
Para se desfazer de alguns estereótipos, vale mencionar que a pirataria é bem mais antiga do que a “Era de Ouro” do Caribe, muito representada por produções de Hollywood. Ela remonta à Antiguidade, logo quando as primeiras civilizações começaram a navegar. O próprio ditador romano Júlio César já foi alvo de um sequestro por piratas do Mar Egeu em sua juventude.
A forma de pirataria mais conhecida teve seu estopim com as Grandes Navegações dos séculos 16 ao 18. O estabelecimento do Tratado de Tordesilhas em 1494, que dividiu o “Novo Mundo” (América) entre Portugal e Espanha, não satisfez nenhuma das outras nações europeias, que ficaram de fora do combinado validado pelo próprio papa.
Ignorar essa divisão territorial e enviar expedições para saquear riquezas e contrabandear mercadorias foi apenas uma questão de tempo. A partir do século 16, piratas franceses, ingleses e holandeses passaram a navegar pela costa americana. Um deles foi Alexandre Exquemelin, cirurgião francês que se converteu à pirataria e narrou a vida desses invasores em livros.
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Sua obra Bucaneiros da América (1678) é considerada um dos registros históricos mais importantes sobre os piratas do Caribe. Suas descrições detalhadas sobre a realidade de locais como Port Royal (Jamaica), Tortuga (Haiti) e Hispaniola (Haiti e República Dominicana) serviram de inspiração para a franquia de filmes de sucesso dos estúdios Walt Disney.
Jeitinho brasileiro
Quando se fala em pirataria no Brasil, a situação é diferente da observada no Caribe. A começar pelo tipo de pirata que navegava por aqui: a maioria eram corsários, aqueles que tinham uma carta de corso – documento oficial de monarcas que autorizavam donos de navios privados a atacar e saquear nações inimigas. Os espólios eram divididos entre o corsário e o Estado emissor.
Esses piratas, que não tinham nada de sujos e miseráveis, eram relacionados à nobreza e ao alto capital das nações de origem. Na realidade, eram verdadeiros empreendedores, como destaca Sheila Hue, professora do Instituto de Letras da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), em entrevista à GALILEU.
“Eles vinham como representantes das suas nações. E no caso dos ingleses, por exemplo, eram heróis nacionais quando voltavam. Então, eram piratas para a gente, mas não para eles”, explica a professora, que estuda registros históricos de viagem e tem publicado o livro Ingleses no Brasil: relatos de viagem, 1526-1608 (2020).
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A incidência de pirataria no Brasil foi relativamente alta em locais como Ilha Grande, Angra dos Reis, Ilhabela e São Sebastião, muito por conta das suas regiões de enseada, mas também por estarem na rota marítima com destino ao mares do sul e ao Oceano Pacífico. Tratavam-se de “pontos de abastecimento” antes do prosseguimento a regiões como as Ilhas Malvinas e a Passagem de Drake – ambos locais com histórias também associadas a piratas.
Pelo fato de que as motivações dos corsários eram estritamente de saque – nada pessoal com as nações inimigas –, as incursões na costa brasileira costumavam ser bem violentas. É o caso da invasão de Thomas Cavendish à vila de Santos, em 1591. O corsário inglês e sua esquadra surpreenderam todos os habitantes ao chegarem durante a Missa do Galo, em plena noite da véspera de Natal.
Ele não só fez a população prisioneira refém, como ocupou o colégio dos jesuítas e passou dois meses por lá saqueando e queimando o que via pela frente: casas, igrejas e conventos, arquivos públicos e engenhos de cana-de-açúcar. Sua posterior partida ao, que envolveu o incêndio da vila vizinha de São Vicente, não foi menos dramática.
Como destaca a Revista Pesquisa Fapesp, o plano do corsário era atravessar o estreito de Magalhães e seguir na sua onda de pilhagem, se não fosse pelas fortes tempestades que dispersaram sua frota. O infortúnio fez com que a tripulação, já faminta e exausta, se revoltasse e fizesse com que Cavendish retornasse a Santos. Dessa vez, a recepção foi bem diferente: dos 75 homens do início da expedição, apenas 16 retornaram à Inglaterra.
Franceses à vista
Entre movimentos que geraram histórias dignas de filme, a pirataria francesa é a que realmente se destaca ao longo da costa do Brasil. Jean França, historiador e professor de história brasileira na Unesp, estuda literatura de viagem e recentemente publicou o livro Navegantes franceses no Brasil Colônia: relatos de viagem, 1615-1767 (2026), que conta com registros escritos da época.
Em entrevista à GALILEU, ele explica que, no século 17, o Estado francês estava com sua marinha passando por modernizações após um período de guerras civis ter demandado imensos recursos financeiros da Coroa, que havia deixado o poder naval de escanteio. Os corsários foram formalizados pela marinha real e se tornaram instrumentos importantes do expansionismo francês.
Um grande ponto de cobiça dos piratas eram os portos do Rio de Janeiro, onde o ouro descoberto na atual região de Minas Gerais era estocado antes de partir para Portugal. Em 1710, esse foi o alvo de Jean-François Duclerc, corsário que, além de bombardear Angra dos Reis e áreas próximas, tentou aportar na Baía de Guanabara com mais de mil homens.
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O desfecho disso foi um fracasso: repelido pelo fogo pesado das fortalezas da baía, o francês desembarcou suas tropas na praia de Guaratiba, zona oeste do Rio, e iniciou uma marcha a pé até a cidade. Lá, ele e seu exército foram atacados, rendidos e presos. Meses depois, Duclerc foi misteriosamente assassinado enquanto estava sob prisão domiciliar.
Teorias sobre a morte variam desde motivações políticas até passionais. Jean relata que esse cativeiro era “flexível”, de forma que o corsário teria se envolvido uma mulher da alta sociedade. O marido, com ciúmes, contratou um mercenário para matá-lo na calada da noite.
O sequestro do Rio de Janeiro
A humilhação do ataque e a morte de Duclerc repercutiu na própria França, que faria outra investida sobre a cidade carioca um ano depois e pela liderança do corsário René Duguay-Trouin. Dessa vez, a expedição era maior e mais bem armada, contando com quase seis mil homens. Para se ter noção, o Rio não tinha mais que 12 mil pessoas em população.
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“Ele tentou três vezes pegar os navios que levavam ouro para a Europa lá pela região dos Açores, por onde eles chegavam em Portugal. Falhou as três vezes. Pensou, então, em ir direto à sede do ouro, que escoava, na sua maior parte, pelo porto do Rio de Janeiro”, diz o historiador.
Sheila complementa que a invasão foi cinematograficamente beneficiada por um nevoeiro comum até hoje na Baía de Guanabara, causado pela queda de temperatura durante a madrugada e a alta umidade relativa do ar. Apesar de estarem cientes do ataque, os portugueses não estavam preparados para os 18 navios com 700 canhões que se aproximaram da orla e bombardearam a cidade.
Qualquer contra-ataque foi desautorizado e o Rio de Janeiro permaneceu sequestrado pelas tropas de Trouin por cerca de dois meses. A devolução só ocorreu mediante o pagamento de 610 mil cruzados, 100 caixas de açúcar, 200 bois e dezenas de escravos.
O rastreio dessas e de outras histórias sobre a pirataria no Brasil se dá, principalmente, pelo estudo e tradução de relatos de expedições, documentos diplomáticos, cartas de corso e registros navais dessas épocas. Através deles, é possível reconstruir histórias que revelam as estratégias – e também os podres – de um sistema comercial transatlântico que dominou os mares no passado.
(Por Fernanda Zibordi)






