O problema não é errar. É o que a criança aprende sobre si depois do erro.

O problema não é errar. É o que a criança aprende sobre si depois do erro.
Imagem Pessoal

Durante um atendimento, uma menina olhava para mim antes de praticamente cada resposta. Ela sabia a matéria, mas hesitava. Quando escrevia, apagava. Antes de tentar, dizia: “Não sei”. Não era falta de conhecimento — era o medo de errar.

As notas eram acompanhadas de perto e os erros, rapidamente corrigidos. A família queria o melhor, sem qualquer intenção de machucar. Mas as crianças não aprendem apenas com o que dizemos; aprendem com o que se repete nas relações. Aquela menina parecia ter aprendido que o erro não terminava na correção — ele continuava no modo como ela passava a olhar para si mesma.

Para reduzir o risco, muitas crianças começam a se proteger:

Perguntam antes de tentar e buscam confirmação o tempo todo;

Escolhem apenas o que já sabem e evitam o que é difícil;

Dizem “não consigo” quando, na verdade, querem dizer: “Não sei se posso correr o risco de falhar.”

Nem toda criança intolerante ao erro precisa apenas “aprender a lidar com a frustração”. Precisamos olhar para como o erro é vivido ao redor dela. Há as que foram excessivamente cobradas, as que foram corrigidas o tempo todo e aquelas que foram tão ajudadas que quase não tiveram a oportunidade de errar. Quando o adulto antecipa a dificuldade ou faz pela criança, tira dela uma experiência fundamental: errar e descobrir que é possível continuar.

O maior prejuízo do medo de errar é a diminuição da participação. A criança explora menos, arrisca menos e aprende menos. Existe uma diferença enorme entre pensar “Eu errei” e sentir “Eu sou um erro.”

A menina que olhava para mim precisava aprender conteúdos, mas precisava, acima de tudo, descobrir que uma resposta errada não mudava o vínculo nem o seu valor. Confiança não nasce de uma história sem erros, mas da certeza de que um erro não encerra as nossas possibilidades.

Crianças precisam de orientação, mas a forma como a correção chega muda tudo:

Em vez de “Está errado”, experimente: “Olha novamente. O que você percebe?”

Em vez de “Você sabia isso”, tente: “Vamos entender o que aconteceu.”

A menina que olhava para mim precisava aprender conteúdos, mas precisava, acima de tudo, descobrir que uma resposta errada não mudava o vínculo nem o seu valor. Confiança não nasce de uma história sem erros, mas da certeza de que um erro não encerra as nossas possibilidades.

Andréa Fernandes da Rocha Terapeuta ocupacional, mãe de três e autora do livro Pequenos e Decisivos Passos na Infância (Alta Books). Instagram: @andrea.desenvolvimentoinfantil

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Astrogildo Aécio Nunes

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