O MEC dá mau exemplo aos estudantes

Suzana Germosgeschi Luz
OEnem (Exame Nacional do Ensino Médio) foi implantado em 1998 com a adesão de 115.575 participantes e era uma prova que posso chamar de “simpática”, pois ocorria em uma única manhã. Ele continha 45 questões e uma redação com tema razoavelmente acessível como “Viver e aprender” e “Cidadania e participação social”.
Em 2009, o Enem passou a ser utilizado como único mecanismo de acesso à educação superior e substituiu o vestibular na maioria das universidades, sob o protesto de vários alunos, sobretudo daqueles que não tinham condições de migrar para outros estados, mas viam a chance real de alunos forasteiros ocuparem as vagas em suas cidades de residência.
Segundo o governo da época, o Enem auxiliaria o Ministério da Educação a elaborar políticas pontuais e estruturais de melhoria do ensino e a ampliar oportunidades na educação superior. Uma prova grandiosa como essa, que contou, em 2024, com mais de 3 milhões de participantes, requer uma logística assombrosa sobretudo no que diz respeito à prova de redação que vale mil pontos, ou seja, 20% do valor da avaliação. Nela são avaliadas 5 competências que coloco em ordem conforme o próprio MEC apresenta:
COMPETÊNCIA I – Demonstrar domínio da norma culta da língua escrita.
COMPETÊNCIA II – Compreender a proposta de redação e aplicar conceitos das várias áreas de conhecimento para desenvolver o tema, dentro dos limites estruturais do texto dissertativo-argumentativo.
COMPETÊNCIA III – Selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos, opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista.
COMPETÊNCIA IV – Demonstrar conhecimento dos mecanismos linguísticos necessários para a construção da argumentação.
COMPETÊNCIA V – Elaborar proposta de intervenção para o problema abordado, demonstrando respeito aos direitos humanos.
Dentre elas, quero dar destaque à Competência 3 que se tornou o fantasma de alunos e professores, mas deveria ser uma preocupação também do MEC. Explico: da parte do alunado, pertencente a uma geração que busca rapidez e é educada a ser imediatista, há uma tendência à busca de modelos prontos, ou seja, a apresentação de uma fórmula em que, em tese, seria possível acomodar qualquer ideia referente a qualquer tema. Claro que, se isso fosse realmente possível, não se requereriam anos e anos de curso de redação para se atingir o nível máximo na produção textual; nem haveria cursos superiores para isso, quanto menos o ensino de técnicas para escrever texto jurídico, texto jornalístico, texto acadêmico, etc.
Entretanto, muitos jovens acreditam piamente nessa possibilidade esdrúxula de composição textual via cópia, talvez porque alguns poucos candidatos foram espertinhos a ponto de suas notas serem suficientes para o ingresso em algum curso pouco concorrido, mas são casos isolados.
“O MEC tem atribuído notas altas a textos que, evidentemente, apresentam indícios de usarem estruturas e frases previamente elaboradas”
Da parte dos professores, também há dificuldades quanto à competência 3. Ocorre que, embora não conste no descritor, o participante precisa atingir um grau de “AUTORIA”. Para se ter ideia do quanto esse requisito é complexo, em documento oficial, o MEC/Inep tenta esclarecer: “Para nós, no processo de correção, o conceito de autoria não é considerado um critério de avaliação. (…) Isso significa que uma redação com autoria é aquela em que o participante apresenta um projeto de texto estratégico e em que consegue cumprir com êxito, de maneira consistente, o que foi programado, ou seja, apresenta ao leitor”.
Pode parecer confuso aos que não têm intimidade com o processo de correção, mas a autoria é uma “condição” daquele texto de quem atinge exemplarmente uma seleção, uma relação e uma organização de informações, fatos, opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista de forma ORIGINAL. Agora, imagine-se como professor frente a alunos que são conduzidos – pela cultura imediatista já mencionada – a apenas copiar!!! Este é um paradoxo que se tornou um monstro a ser enfrentado no dia a dia da sala de aula.
Para piorar a situação, o MEC tem atribuído notas altas a textos que, evidentemente, apresentam indícios de usarem estruturas e frases previamente elaboradas.
Vamos ver alguns exemplos das redações nota mil, ou seja, que foram consideradas com autorais, mas que, a meu ver, apresentam indícios evidentes de elaboração prévia:
Segundo o filósofo Inmanuel Kant, “o homem é aquilo que a educação faz dele”.
Este é o período inteiro colocado dentro de um parágrafo. Pela singeleza da estrutura sintática e pela falta de juízo de valor quanto ao que o filósofo expressou, definitivamente não se pode considerar que o candidato tenha cumprido aquelas metas de fazer um “projeto de texto elaborado” e de ter desenvolvido “informações, fatos e opiniões de maneira consistente”.
Outro exemplo de como os critérios têm sido pouco considerados pelo MEC ao atribuir nota é o que se vê na sentença abaixo em que o candidato nota mil escreveu:
Logo, é urgente sanar os desafios e enfrentar a problemática.
Eu leio meia dúzia de vezes por semana a frase acima. É possível que o corretor do Enem tenha lido umas tantas dúzias também. Mesmo assim, ignora os critérios e atribui nota máxima a um texto com outros indícios de formulação prévia como fica evidente nos excertos de dois candidatos do Enem 2023, os quais conservam a mesma estrutura sintática, amplamente encontrada em “redações prontas” em sites especializados:
Ademais, é relevante considerar a ampliação de disparidades sociais como uma consequência direta da problemática do cuidado invisibilizado.
Ademais, é imperioso mostrar a postura inerte do Estado brasileiro quanto à tentativa de invisibilização que acomete a problemática.
Há absurdos maiores, como são os casos de apresentação de excertos baseados em redações nota mil de anos anteriores. Assim, um dos alunos nota mil de 2024 repetiu frases de outro contemplado em 2022, mas – repriso – não isoladamente, pois a estrutura abaixo é copiada e colada à vontade pelo alunado brasileiro:
2022
Portanto, é essencial que o governo mitigue os desafios supracitados.
2024
Portanto, medidas necessitam ser tomadas para mitigar os desafios supracitados.
Existem as irmãzinhas, todas de alunos nota mil do Enem:
Então, são necessárias medidas de mitigação dessa problemática para o alcance do bem-estar da sociedade.
Fica claro, portanto, que medidas necessitam ser tomadas para solucionar a problemática.
Infere-se, portanto, a necessidade de combater essa problemática no Brasil.
Logo, é essencial analisar e intervir sobre essa problemática.
Mas… pode piorar: em um site que ensina modelos prontos, uma redação publicada em 2020, trazia o seguinte parágrafo como “modelo” para quem não sabe escrever:
Na obra “Utopia”, do escritor inglês Thomas More, é retratada uma sociedade perfeita, na qual o corpo social padroniza-se pela ausência de conflitos e problemas.
Uma candidata da cidade de Lagarto, conforme divulgado amplamente pela imprensa, fez a paráfrase e alcançou o objetivo de nota máxima na C3 quando fez o Enem:
Na obra “Utopia”, de Thomas More, é retratada uma sociedade perfeita e em harmonia, a qual é livre de conflitos e mazelas.
Não tenho nada contra a estudante, mas a banca aceitar a conhecida, desgastada e até enjoativa fórmula, é algo que deve ser revisto!
Enfim, o MEC precisa rever sua forma de premiar as redações nota mil. É preciso que haja um corpo de corretores que possa verdadeiramente identificar os modelos prontos que recebem nota máxima para não dar mau exemplo aos nossos estudantes.
Suzana Germosgeschi Luz é professora de redação
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