O golpe mudou de endereço: agora passa pelo algoritmo

Paulo Lemos
Por muito tempo, a gente aprendeu a reconhecer um golpe de Estado pelas imagens de sempre: tanques na rua, quartéis em movimento, Congresso fechado, tropas ocupando prédios públicos. O século 21 colocou uma nova arma nas mãos de quem quer enfraquecer a democracia. E essa arma cabe na palma da mão.
O golpe moderno pode começar no seu celular.
Antes de atacar as instituições de concreto, ataca-se a confiança que temos nelas. Repete-se, todos os dias, que a eleição foi fraudada, que nenhuma autoridade merece crédito, que a imprensa mente, que quem pensa diferente é inimigo e que só uma ruptura pode “salvar” o país. Milhões de pessoas recebem, diariamente, conteúdos escolhidos por programas que conhecem seus medos, seus desejos, suas mágoas e suas preferências melhor do que qualquer marqueteiro político saberia.
É aí que o algoritmo deixa de ser só tecnologia e vira poder.
O Brasil já sentiu o tamanho desse risco. As investigações sobre as milícias digitais revelaram estruturas de produção, publicação, financiamento e atuação política que, segundo o STF, atentavam contra a democracia e o Estado de Direito. As redes sociais também aparecem nas investigações sobre a mobilização que terminou nos atos de 8 de janeiro de 2023. Isso não quer dizer que as big techs armaram um complô golpista. Quer dizer algo talvez mais assustador: uma estrutura privada, capaz de organizar boa parte do debate público, pode ser usada por quem quer corroer uma democracia.
Com a inteligência artificial, essa capacidade virou indústria.
Hoje é possível fabricar vídeos, vozes, fotos, discursos e personagens que nunca existiram — em segundos. É possível criar milhares de mensagens diferentes para milhares de públicos diferentes. O TSE percebeu a gravidade do problema e endureceu as regras para 2026: sistemas de inteligência artificial não podem ranquear, recomendar, sugerir ou priorizar candidatos, partidos e campanhas, nem recomendar voto ou manifestar preferência eleitoral. Conteúdos sintéticos (criados por IA) também têm regras específicas.
E isso nos leva ao Vale do Silício.
Não é preciso imaginar uma sala secreta onde magnatas americanos decidem o futuro do Brasil. A realidade já é grave o suficiente sem teorias da conspiração: algumas das empresas privadas mais poderosas da história controlam as plataformas por onde passa uma parcela gigantesca da informação que os brasileiros consomem. Seus códigos são secretos. Seus algoritmos são opacos. Seus interesses são empresariais. E boa parte das decisões sobre o que ganha alcance ou desaparece das telas brasileiras é tomada fora do Brasil.
Soberania, portanto, deixou de ser só território. Soberania também é dado, informação, tecnologia e algoritmo.
Do outro lado dessa mesma estrutura de poder está aquilo que a gente convencionou chamar de Faria Lima.
Também seria simplista dizer que todo o mercado financeiro é inimigo da produção. Bancos e o mercado de capitais financiam empresas, infraestrutura e investimentos. O problema começa quando uma economia passa a remunerar extraordinariamente o dinheiro só por ele ser dinheiro, enquanto produzir, industrializar, inovar e gerar empregos vira uma aventura cada vez mais cara.
Em setembro de 2026, mesmo depois de reduções, a Selic estava em 13,75% ao ano. O investimento brasileiro, por sua vez, tinha sido de apenas 16,8% do PIB em 2025.
Eis uma contradição que o Brasil precisa discutir: quem ganha quando especular é mais atraente do que produzir?
A Faria Lima que financia uma fábrica ajuda o Brasil. A que transforma juros altos em modelo permanente de acumulação precisa ser questionada. O Vale do Silício que desenvolve tecnologia pode contribuir para a humanidade. O que concentra dados, poder sobre a informação e controle sobre a esfera pública precisa se submeter às leis dos países democráticos.
Não se trata de ser contra tecnologia, empresas ou mercado financeiro.
Trata-se de entender onde está o poder do nosso tempo.
O poder de hoje se concentra, cada vez mais, em dois códigos: o algoritmo que decide o que enxergamos e o preço do dinheiro que decide o que conseguimos produzir.
Uma nação que perde o controle dos dois pode continuar tendo bandeira, hino, território e eleições — e, ainda assim, descobrir tarde demais que parte importante das decisões sobre seu futuro deixou de ser verdadeiramente sua.
Defender a democracia brasileira hoje exige mais do que proteger as urnas.
É preciso proteger a soberania sobre a nossa informação, a nossa economia e, sobretudo, a vontade livre do povo brasileiro.

Paulo Lemos é advogado e analista político em Mato Grosso.
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