Imagens do Oceano Ártico profundo flagram espécies raras; veja vídeo

À primeira vista, as imagens parecem abstratas: partículas brilhantes atravessando uma escuridão avermelhada, fibras girando lentamente na água e pequenos pontos luminosos flutuando como uma tempestade de neve viva nas profundezas Oceano Ártico. Mas o que os cientistas registraram vai muito além de um espetáculo visual. Os vídeos mostram animais vivos se movendo naturalmente em pontos profundos do Ártico, um dos ecossistemas menos observados da Terra.
Essas imagens fazem parte de um estudo conduzido por especialistas da Universidade de Hokkaido e da Universidade de Kyoto, ambas do Japão, cujos resultados foram publicados nessa quarta-feira (6) na revista PLOS One.
Janela para o fundo do mar
O sistema de monitoramento foi desenvolvido para ser o menos invasivo possível. A estrutura incluía câmera, gravador acústico, sensores oceanográficos e luzes LED vermelhas, escolhidas porque esse comprimento de onda é menos perceptível para cetáceos de mergulho profundo, como os narvais.
A câmera gravou vídeos de 10 minutos a cada 20 minutos durante cerca de três dias, enquanto o hidrofone registrou sons continuamente ao longo de toda a semana de experimento. O conjunto inteiro cabia em uma única caixa de transporte e pesava menos de 15 kg, permitindo implantações rápidas em regiões remotas do Ártico.
No total, os pesquisadores identificaram 478 organismos, distribuídos em pelo menos 11 grupos taxonômicos. Cerca de 88% pertenciam aos filos Amphipoda, Copepoda, Hydrozoa e Chaetognatha, que representam pequenos organismos típicos da região hiperbêntica, a camada de água imediatamente acima do fundo do mar. Além deles, os cientistas registraram camarões decápodes, ctenóforos, heterópodes, peixes-caracol da família Liparidae e até narvais (Monodon monoceros).
“Esses vislumbres de suas breves passagens revelam seu comportamento lá embaixo, incluindo o nado lento para trás dos peixes, a fuga em pânico dos copépodes, a locomoção ondulatória característica dos vermes-flecha e a correria frenética dos anfípodes”, aponta Evgeny Podolskiy, autor do artigo, em entrevista à revista Discover.
As observações impressionaram os próprios pesquisadores. Em alguns vídeos, copépodes colidiam com a linha de amarração da câmera e reagiam instantaneamente, saltando para longe em alta velocidade. “Fiquei surpreso com a surpresa dos copépodes ao esbarrarem em nosso equipamento. Normalmente, eles flutuam passivamente com a corrente, e no instante da colisão, os copépodes saltaram da linha de amarração com uma velocidade incrível”, indica Podolskiy.
Narvais, peixes “à deriva” e neve marinha
Entre os registros mais curiosos está o de um peixe-caracol que parecia nadar para trás enquanto era lentamente carregado pela correnteza. O animal enrolou a cauda e permaneceu praticamente imóvel por cerca de 16 segundos antes de desaparecer no escuro. “Também não fazia ideia de que peixes tranquilos estavam à deriva para trás”, comenta Podolskiy. “Não quero ofender nenhum peixe, mas aparentemente não há muito o que fazer lá embaixo.”
Os hidrofones detectaram narvais praticamente todos os dias do experimento. Em uma das gravações, os cientistas captaram simultaneamente vocalizações intensas e o movimento da ponta de uma presa passando diante da câmera.
“Cada vez que eu ouvia que os sons estavam ficando mais altos e, portanto, os narvais estavam se aproximando, meu coração dava um salto”, afirma o pesquisador. Apesar da proximidade, os animais ignoraram completamente o equipamento. Isso chamou a atenção dos autores porque estruturas maiores de monitoramento costumam despertar a curiosidade dos narvais, que às vezes colidem com os aparelhos.
Outro fenômeno importante registrado foi a chamada “neve marinha”: partículas orgânicas e fibras microscópicas suspensas na água, constantemente movimentadas pelas correntes. Em alguns momentos, a densidade dessas partículas dobrava em apenas poucas horas.
A análise revelou que as marés influenciavam diretamente a direção e a velocidade do fluxo dessas partículas. Os cientistas identificaram oscilações de aproximadamente 12 horas, associadas às marés do fiorde. Em períodos de corrente mais intensa, as partículas se deslocavam mais rapidamente e formavam pequenos vórtices turbulentos próximos ao fundo do mar.
Mudanças no Ártico
Além de revelar cenas raras da vida marinha profunda, o estudo reforça uma preocupação crescente: os impactos acelerados das mudanças climáticas no Ártico. O Ártico está passando pela mudança mais sem precedentes da história da humanidade, com menos gelo marinho e basicamente um novo oceano se abrindo, e temos pouca ideia de como é o ecossistema do fundo do mar”, destaca Podolskiy.
Os fiordes glaciais funcionam como importantes centros de produtividade biológica. A água do degelo transporta nutrientes das profundezas para regiões mais superficiais, sustentando cadeias alimentares que sustentam aves marinhas, focas e baleias.
Segundo os autores, espécies observadas nos vídeos — como anfípodes, camarões e peixes-caracol — já foram identificadas anteriormente como presas de focas e narvais na região. Isso sugere que os organismos do fundo do mar podem desempenhar papel importante em todo o ecossistema do fiorde.
O estudo ainda ressalta o potencial científico do monitoramento vídeo-acústico autônomo. Até hoje, poucas observações diretas foram realizadas no fundo do mar Ártico devido ao custo elevado e às dificuldades logísticas extremas.
Os pesquisadores afirmam que sistemas compactos como o utilizado no experimento podem abrir caminho para novas pesquisas ecológicas em larga escala. Um dos próximos desafios será automatizar a análise das imagens com inteligência artificial e visão computacional, já que a revisão manual dos 223 vídeos consumiu mais de 74 horas de trabalho.
(Por Arthur Almeida)






