Gargalo das Terras Raras | Brasil tem uma das maiores reservas do mundo, mas depende de tecnologia que poucos dominam

O Brasil já sabe onde estão boa parte de suas terras raras. O desafio agora é outro: aprender a transformá-las em produtos de alto valor agregado. Essa é uma das principais conclusões do estudo “Terras Raras no Brasil – Estado da Arte, Cenários e um Mapa do Caminho Estratégico para 2026–2040”, elaborado pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE). Em vez de colocar a mineração no centro da estratégia nacional, o documento identifica o refino como o verdadeiro gargalo para que o país participe da nova economia dos minerais críticos.
O trabalho reúne especialistas de instituições como CETEM/MCTI, USP, UFSC e PUC-Rio. Entre os autores e consultores estão Fátima Ludovico, Fernando Lins, Ysrael Vera, Marcelo Dourado, Fernando Landgraf, Paulo Wendhausen, Juliano Engeroff, Mariele Bonfante, Jéssica Raspini e Wagner Macêdo. A supervisão é de Anderson Stevens Leonidas Gomes, com liderança de projeto de César Augusto Costa.
Segundo os pesquisadores, o maior valor econômico da cadeia não está na extração do minério, mas na capacidade de separar individualmente os 17 elementos das terras raras e transformá-los em óxidos de alta pureza, metais, ligas especiais e, posteriormente, em componentes industriais como ímãs permanentes, catalisadores e materiais ópticos.
O estudo explica que a etapa de separação química representa um dos processos mais complexos da indústria mineral. Como os elementos químicos possuem propriedades muito semelhantes entre si, a individualização exige plantas industriais altamente sofisticadas, com centenas — e, em alguns casos, milhares — de estágios sucessivos de extração por solventes até atingir níveis de pureza superiores a 99,9%, exigidos pelas aplicações tecnológicas mais avançadas. É justamente essa tecnologia que concentra hoje a maior parte da riqueza gerada pela cadeia global.
O documento mostra que a liderança da China não foi construída apenas porque o país possui grandes reservas minerais. O diferencial está no domínio do refino. Segundo o estudo, cerca de 91% da capacidade mundial instalada de refino está localizada em território chinês, resultado de décadas de investimentos públicos, desenvolvimento tecnológico e política industrial voltada à agregação de valor.
Os pesquisadores observam que controlar o refino significa controlar praticamente toda a indústria de alta tecnologia associada às terras raras
Apesar de possuir aproximadamente um quarto da dotação geológica mundial conhecida, o Brasil ainda participa de forma marginal da produção global de óxidos de terras raras. O estudo calcula que, em 2024, a produção nacional representou apenas cerca de 0,15% do total mundial, evidenciando a enorme distância entre potencial mineral e capacidade industrial.
Na avaliação dos autores, esse quadro revela um padrão histórico da economia brasileira: exportar recursos naturais e importar produtos industrializados com alto valor agregado. O capítulo dedicado ao refino conclui que construir plantas industriais não será suficiente.
O Brasil precisará desenvolver conhecimento tecnológico, formar mão de obra especializada, ampliar laboratórios de pesquisa, criar mecanismos de financiamento de longo prazo e estabelecer uma coordenação nacional entre governo, universidades e setor produtivo.
Segundo os pesquisadores, o país também terá de enfrentar desafios regulatórios, ambientais e econômicos, já que o processamento de terras raras envolve reagentes químicos complexos, elevado consumo de tecnologia e rígido controle de resíduos contendo elementos naturalmente radioativos.
Mais do que mineração
Ao longo do estudo, uma mensagem se repete de forma quase constante: o futuro brasileiro não será decidido pela quantidade de minério existente no subsolo, mas pela capacidade de transformá-lo em produtos industriais.
“O foco deve estar em refino, metais, ligas e ímãs, e não apenas na mineração”, resume o guia estratégico elaborado pelo CGEE para orientar formuladores de políticas públicas e investidores.
Na prática, isso significa que o país precisará construir uma cadeia integrada capaz de produzir tecnologia, gerar empregos qualificados e disputar espaço nas etapas mais lucrativas da indústria mundial.
Edilson Almeida | Redação RDM Brasilia






