Existiram dinossauros pequenos? Estudo investiga um dos maiores mistérios da evolução

Existiram dinossauros pequenos? Estudo investiga um dos maiores mistérios da evolução
Uma réplica de Microraptor em exposição no Museu Americano de História Natural. O Microraptor era um dos menores dinossauros conhecidos, pesando cerca de meio quilo — aproximadamente o tamanho de um coelho grande. — Foto: Álvaro Keding / ©AMNH

Ao pensar em dinossauros é comum imaginar gigantes como o Tyrannosaurus rex ou o Apatosaurus, mas um novo estudo publicado na revista Evolution sugere ter desvendado o processo evolutivo do tamanho dos dinossauros: por que mesmo os menores deles nunca se tornaram verdadeiramente minúsculos.

Pesquisadores do Museu Americano de História Natural, nos Estados Unidos, e da Universidade de Princeton usaram modelos matemáticos para investigar como o tamanho corporal evoluiu entre diferentes grupos de vertebrados. A análise revelou que, embora fatores fisiológicos expliquem o tamanho de mamíferos, aves e tartarugas, eles não são suficientes para entender por que os menores dinossauros não aviários continuaram relativamente grandes ao longo de milhões de anos.

Mesmo os menores representantes conhecidos desse grupo pesavam cerca de 450 gramas, aproximadamente o tamanho de um coelho grande. Em comparação, o menor pássaro vivo, o beija-flor-abelha (Mellisuga helenae), pesa apenas 1,75 grama, enquanto o menor mamífero, o musaranho-etrusco, chega a cerca de 1,8 grama. Hoje, cerca de 75% das espécies de mamíferos e 90% das espécies de aves são menores do que o menor dinossauro não aviário já identificado.

“Todo mundo adora um dinossauro gigante, mas decidimos olhar para o outro extremo da escala. A ausência de dinossauros minúsculos pode ser tão interessante quanto a existência de dinossauros gigantes”, afirma Roger Benson, curador de Paleobiologia de Dinossauros do Museu Americano de História Natural e coautor do estudo, em comunicado.

Segundo ele, os resultados sugerem uma relação de competição entre diferentes grupos de animais durante a Era dos Dinossauros. “Já sabíamos que os dinossauros impediram que os mamíferos evoluíssem para tamanhos grandes antes da extinção em massa do fim do Cretáceo. Agora, sugerimos que os mamíferos, por sua vez, impediram que os dinossauros evoluíssem para tamanhos pequenos”, diz.

A ausência dos menores dinossauros

Uma hipótese é que dinossauros muito pequenos não foram preservados no registro fóssil, já que animais minúsculos possuem ossos delicados e têm menor probabilidade de fossilizar. Porém, os autores consideram essa explicação pouco provável.

Depósitos fossilíferos que preservam dinossauros costumam conter também fósseis de animais muito menores, como mamíferos, anfíbios, lagartos e outros vertebrados. Se dinossauros do tamanho de um rato tivessem existido, argumentam os pesquisadores, seria esperado encontrar ao menos alguns exemplares.

Para investigar a questão, a equipe utilizou modelos matemáticos baseados na relação entre obtenção de energia e reprodução, uma abordagem que prevê quais tamanhos corporais tendem a ser favorecidos pela seleção natural. O método conseguiu reproduzir a distribuição de tamanhos observada em mamíferos, aves e tartarugas, mas falhou ao explicar os dinossauros não aviários.

Os dinossauros ficaram famosos por seus gigantes, mas um estudo mostra que a ausência de espécies realmente minúsculas pode revelar muito sobre a evolução do grupo — Foto: Petr Kratochvil/Domínio público
Os dinossauros ficaram famosos por seus gigantes, mas um estudo mostra que a ausência de espécies realmente minúsculas pode revelar muito sobre a evolução do grupo — Foto: Petr Kratochvil/Domínio público

A equipe também analisou fatores ecológicos, como competição por alimento, predação e disponibilidade de nichos ecológicos. Esses fatores provavelmente estabeleceram um limite mínimo para o tamanho desses animais.

“Os pequenos animais dominam os ecossistemas modernos. Se quisermos entender como a biodiversidade atual evoluiu, precisamos compreender por que os dinossauros minúsculos parecem ter desaparecido”, afirma Stephanie Lechki, pesquisadora de pós-doutorado da Universidade de Princeton e autora principal do estudo.

O voo permitiu quebrar as regras

O estudo também apresentou uma explicação sobre a origem das aves, descendentes diretas dos dinossauros. Enquanto seus ancestrais permaneceram relativamente grandes, as primeiras aves passaram por uma rápida redução de tamanho logo após surgirem, no início do Cretáceo. Os modelos mostram que essa transformação também não pode ser explicada apenas pela fisiologia. Para os autores, a evolução do voo abriu um conjunto completamente novo de oportunidades ecológicas.

“A capacidade de voar pode ter aberto novas formas de vida. Quando as aves passaram a explorar esses novos nichos ecológicos, ficaram livres para evoluir para tamanhos corporais que simplesmente não eram possíveis para outros dinossauros”, explica Lechki.

Embora o estudo não ofereça uma resposta definitiva, ele reforça que a evolução do tamanho corporal depende não apenas da biologia dos organismos, mas também das relações ecológicas que estabelecem com outras espécies.

“Estamos diante de uma situação incomum: os ancestrais dos dinossauros podiam ser minúsculos. Seus descendentes vivos, as aves, também podem ser minúsculos. Mas os próprios dinossauros pareciam estar impedidos de atingir esses tamanhos”, conclui Benson. “Ainda não entendemos completamente por quê, mas responder a essa pergunta será essencial para compreender a biologia e a evolução desses animais extraordinários.

(Por Carina Gonçalves)

Astrogildo Aécio Nunes

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Posso ajudar?