ENTENDA O QUE ESTÁ ACONTECENDO NESTE MOMENTO – DO BRASIL ÀS RUAS DO MUNDO: A PRIMAVERA QUE REABRIU A DISPUTA PELO FUTURO DA HUMANIDADE

ENTENDA O QUE ESTÁ ACONTECENDO NESTE MOMENTO – DO BRASIL ÀS RUAS DO MUNDO: A PRIMAVERA QUE REABRIU A DISPUTA PELO FUTURO DA HUMANIDADE
Fotos: Divulgação

Paulo Lemos

Há momentos em que a história parece congelada, dominada pelo medo, pela intolerância e pela sensação de que forças autoritárias são invencíveis. Então, a sociedade se movimenta e demonstra que o futuro continua em disputa. A mobilização popular brasileira de outubro de 2026 abriu uma dessas possibilidades. Sua repercussão internacional, somada aos resultados eleitorais recentes nos Estados Unidos, deu novo impulso ao debate sobre uma reação democrática que ultrapassa fronteiras.

Em 4 de outubro, Lula terminou o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro, com 45,16% dos votos válidos contra 47,03%. Em 25 de outubro, venceu com 51,79%, ultrapassando 64 milhões de votos. Foi a primeira reversão de uma disputa presidencial entre turnos desde 1989. A abstenção caiu e milhões de eleitores adicionais compareceram às urnas. Mas a novidade não se resume à aritmética eleitoral: esteve nas ruas, nos bairros, nas universidades e nas redes, onde a política voltou a ser ação coletiva.

Estudantes, trabalhadores, mulheres, lideranças comunitárias, artistas, aposentados, movimentos sociais e pessoas sem militância partidária organizaram manifestações e conversas em seus círculos de convivência. A juventude encontrou na criatividade digital uma ferramenta de mobilização; outros grupos se engajaram na defesa de direitos e da estabilidade institucional. A força dessa experiência foi a conexão entre organização espontânea e participação eleitoral, entre a conversa de porta em porta e a comunicação em escala de milhões.

A Primavera Brasileira, como a denominaram Fabíola Veiga e Pedro Serrano em análises recentes, possui uma singularidade: diferentemente das revoltas contra ditaduras, a sociedade se mobilizou dentro da ordem constitucional, utilizando as regras da democracia para disputar os rumos do próprio Estado. O gesto do L, simples e reproduzível, tornou-se uma linguagem pública de identificação, atravessando gerações, territórios e, depois, fronteiras.

O alcance internacional já pode ser documentado. Claudia Sheinbaum, no México, reproduziu o símbolo; Pedro Sánchez, na Espanha, relacionou a vitória brasileira à possibilidade de uma reação progressista; manifestações na França, Itália e outros países incorporaram o gesto. Na Argentina, Espanha e França, canais de organização digital passaram a adaptar métodos empregados na campanha brasileira. Em 5 de novembro, Lula celebrou publicamente essa apropriação internacional, atribuindo o protagonismo às pessoas que ergueram o símbolo.

O reconhecimento institucional também foi expressivo: até 29 de outubro, o Tribunal Superior Eleitoral havia registrado saudações oficiais de 107 países e 11 organismos e blocos multilaterais. Isso não significa adesão desses governos a um mesmo programa político. Significa, porém, que o resultado brasileiro foi acompanhado de perto e reconhecido em ampla escala diplomática.

Poucos dias depois, em 3 de novembro, os democratas conquistaram o controle da Câmara e do Senado dos Estados Unidos, impondo uma derrota relevante ao Partido Republicano de Donald Trump. A imprensa internacional passou a examinar conjuntamente os resultados brasileiro e americano. Em reportagem publicada neste 7 de novembro, o Le Monde observou que esses reveses expõem limites à expansão da extrema direita nas Américas, embora não signifiquem seu desaparecimento.

Nos Estados Unidos, pesaram também a insatisfação com o custo de vida, a guerra com o Irã e preocupações com a condução do governo. Levantamento divulgado em 7 de novembro aponta que políticos identificados com o negacionismo eleitoral perderão pelo menos 41 posições no Congresso e em cargos estaduais. Não há fundamento para afirmar que a mobilização brasileira causou esses resultados: existem processos nacionais distintos, mas que, observados em conjunto, sugerem mudanças importantes no cenário político internacional.

Outra constatação recente é igualmente necessária. Em encontro acadêmico na Universidade de Princeton, em 2 de novembro, pesquisadores observaram que Lula venceu a Presidência, enquanto o PL consolidou expressiva força no Congresso. Parte dos votos do segundo turno representou resistência ao retorno do bolsonarismo, não necessariamente adesão integral a uma agenda de esquerda. A democracia, portanto, não amanheceu resolvida em 26 de outubro. Continuam em disputa os projetos de país, o poder econômico, o Legislativo, os meios de comunicação e a capacidade do Estado de responder às demandas sociais.

O alerta encontra respaldo no Instituto V-Dem: seu relatório de 2026 identifica 44 países em autocratização e estima que 74% da população mundial viva sob regimes classificados como autocráticos. A primavera democrática ocorre, assim, em meio a um inverno institucional ainda extenso. Exatamente por isso, não basta vencer eleições: é preciso tornar a democracia efetiva na vida cotidiana.

A liberdade de votar perde substância quando o trabalhador sofre coação, a juventude encontra portas fechadas, o acesso à saúde depende da renda e o crescimento econômico convive com desigualdades persistentes. Tampouco haverá democracia robusta se o debate público estiver submetido à desinformação, à manipulação algorítmica e à concentração do poder tecnológico e financeiro. Participação popular sem proteção institucional pode se dissipar; proteção institucional sem justiça social pode perder legitimidade.

Daí emerge a tarefa mais importante desta conjuntura: converter energia social em um projeto de desenvolvimento civilizatório. Não apenas administrar emergências, mas construir um horizonte decenal de metas públicas, financiadas, verificáveis e submetidas ao controle da sociedade. Educação e ciência, reindustrialização sustentável, saúde integral, segurança alimentar, trabalho digno, tributação mais equilibrada e redução das desigualdades precisam dialogar com inovação, soberania digital e distribuição dos ganhos de produtividade.

A crise climática obriga a ampliar ainda mais essa ambição. Preservar a Amazônia, a biodiversidade, os rios, os oceanos e as condições de habitabilidade do planeta não é um adereço ambiental: é pressuposto da economia e da própria existência humana. O multilateralismo precisa deixar de ser apenas discurso diplomático e se materializar em cooperação científica, financiamento climático, proteção dos direitos humanos e soluções coletivas para problemas que nenhum país resolverá sozinho.

Também será indispensável recuperar a convivência democrática. Quase 60 milhões de brasileiros votaram no candidato derrotado; não constituem um bloco uniforme, nem podem ser excluídos da comunidade política. O enfrentamento a condutas antidemocráticas exige responsabilização individual e respeito ao devido processo legal, enquanto o pluralismo requer espaço legítimo para a oposição e para uma direita comprometida com a Constituição. Uma democracia só se fortalece quando suas regras protegem inclusive aqueles que não venceram.

Ainda é cedo para proclamar um tsunami mundial irreversível. Mas é tarde para ignorar a circulação internacional da experiência brasileira e os movimentos de reação democrática em diferentes sociedades. O que hoje se vê é menos uma vitória definitiva sobre o autoritarismo do que a reabertura de possibilidades políticas que pareciam encerradas.

A grandeza da Primavera Brasileira não estará apenas na virada das urnas, nas multidões ou no L que cruzou oceanos. Estará em sua capacidade de inspirar participação permanente, instituições responsáveis, prosperidade compartilhada e respeito à vida em todas as suas formas. O povo demonstrou que pode modificar o curso de uma eleição. A pergunta decisiva, agora, é se conseguiremos transformar essa força em mudanças duradouras no rumo da civilização.

Paulo Lemos é advogado e analista político em Cuiabá e todo Mato Grosso.

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