DNA revela identidade de marinheiros de lendária expedição perdida

Uma das maiores tragédias da história náutica continua a gerar debates e descobertas até hoje. Em março de 1845, 129 marinheiros partiram da Inglaterra em direção ao Ártico com a expedição Franklin. O objetivo era encontrar a Passagem Noroeste, uma rota livre de gelo que liga os oceanos Atlântico e Pacífico. Nenhum dos tripulantes sobreviveu.
Foram três anos de agonia e de mortes por motivos diversos, desde envenenamento por chumbo, desnutrição e hipotermia até especulações fantasiosas que incluem o ataque de criaturas mitológicas. Nos anos seguintes, outras expedições encontraram parte dos restos mortais e, agora, novas descobertas elevaram de dois para seis o número total de vítimas identificadas.
A jornada contou com duas embarcações equipadas com a melhor tecnologia da época: o HMS Erebus e o HMS Terror. Ao longo de sua viagem para o norte, ambos os navios ficaram presos no gelo próximos do Canadá. O próprio líder da missão, John Franklin, morreu em 1847 e, no ano seguinte, os 105 homens sobreviventes decidiram tentar atravessar a pé o gelo marinho da Ilha do Rei William até o continente, mas não tiveram sucesso.
Novas atualizações
Nesta quinta-feira (7), uma nova pesquisa publicada na revista Polar Records revelou a identidade do marinheiro Harry Peglar, capitão do HMS Terror. De acordo com Douglas Stenton, da Universidade de Waterloo (Canadá), o seu corpo foi encontrado a 130 km de distância das outras três vítimas reconhecidas. A identificação só foi possível ao se comparar o material genético extraído dos restos mortais com o de parentes vivos.
“Três dos marinheiros que identificamos são do HMS Erebus e todos morreram na Baía de Erebus”, contou Stenton em comunicado. Tratavam-se dos tripulantes William Orren, marinheiro de primeira classe; David Young, grumete de primeira classe; e John Bridgens, mordomo de oficiais subalternos. As identificações foram publicadas por pesquisadores na revista Journal of Archaeological Science: Reports na última quarta-feira (6).
Congelados no tempo
Os restos mortais dos tripulantes da expedição Franklin têm sido encontrados desde a metade do século 19, especificamente desde 1849, um ano após a morte de todos os 129 homens. Muitos dos corpos foram encontrados em excelente estado de conservação em decorrência do frio e do congelamento.
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Tanto o HMS Erebus quanto o HMS Terror foram fortemente reforçados com placas de ferro e equipados com motores a vapor para propulsão e suprimentos extras. Mas uma nota escrita por um dos oficiais – e encontrada em um monte de pedras anos mais tarde – confirmou que eles ficaram presos no gelo até o final de 1846.
O antigo comunicado também afirmou que o capitão Franklin e outros 23 tripulantes morreram até o final de 1848, quando os sobreviventes resolveram embarcar na missão fatal de cruzar o gelo em direção ao sul. “Deve ter sido [uma morte] horrível. Provavelmente estava a -30ºC e esses homens não estavam saudáveis depois de três anos no Ártico”, disse Stenton em entrevista à Scientific American.
Além disso, entre os chamados “documentos de Peglar” foram encontrados o certificado de marinheiro do capitão, bem como poesias e descrições de eventos que ocorreram no Ártico. “O corpo [de Harry Peglar] foi encontrado com praticamente todos os únicos documentos escritos da expedição já encontrados”, destacou Robert Park, também da Universidade de Waterloo.
Descendentes ao resgate
As quatro descobertas seguem as identificações dos outros dois tripulantes, feitas em 2021 e 2024. Em ambos os casos, os pesquisadores contaram com o DNA de descendentes dos tripulantes do HMS Erebus, sendo eles o capitão James Fitzjames e o engenheiro John Gregory.
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Os dois casos anteriores mostraram como amostras de materiais genéticos de descendentes são cruciais para a identificação dos corpos das vítimas, bem como para esclarecer a história por trás das mortes. Já “para os descendentes vivos, essas descobertas fornecem detalhes antes indisponíveis sobre as circunstâncias das mortes de seus parentes, bem como a identidade de alguns dos companheiros de navio que morreram com eles”, disse Stenton.
Mas como os descendentes são identificados? Muito do processo depende dos próprios descendentes, que entram em contato com os pesquisadores para verificar se são elegíveis, isto é, se possuem uma linhagem materna ou paterna direta e ininterrupta com um dos marinheiros da expedição Franklin.
Um dos descendentes descobertos, por exemplo, foi Rich Preston, jornalista da BBC News. “Foi uma surpresa saber que meu DNA era compatível com o de um dos marinheiros [o de John Bridgens]. (…) descobrir que existe uma história tão interessante no passado da minha própria família é muito emocionante”, contou.
Para revelar as quatro identidades mais recentes, Stephen Fratpietro, da Universidade Lakehead (Canadá), extraiu DNA de amostras arqueológicas e as comparou com o DNA mitocondrial – da linhagem materna – e com o DNA do cromossomo Y – da linhagem paterna – de descendentes. Em todos os casos, a comparação apresentou correspondência com distância genética zero, o que quer dizer que há forte compatibilidade ancestral.
(Por Júlia Sardinha)






