Como bactéria que existe há 100 milhões de anos pode revolucionar combate a pragas

Como bactéria que existe há 100 milhões de anos pode revolucionar combate a pragas
Micrografia eletrônica de varredura de uma bactéria do gênero Streptomyces. Microrganismos têm potencial para uso na agricultura, segundo estudo — Foto: Wikimedia Commons

As bactérias do gênero Streptomyces sp., já conhecidas pela ciência por produzirem antibióticos e compostos terapêuticos, parecem ser ainda mais versáteis e complexas do que os cientistas imaginavam. Um estudo publicado nesta quinta-feira (30) na revista Nature Microbiology descreve uma classe inédita de toxinas produzidas por essas bactérias do solo, capazes de matar insetos com alta eficiência, sem afetar os seres humanos. Segundo a equipe internacional responsável, a descoberta pode abrir novas frentes de pesquisa tanto na agricultura quanto na medicina.

Fábrica química escondida no solo

Os Streptomyces sp. são microrganismos extremamente abundantes e desempenham um papel essencial nos ecossistemas terrestres. Além de serem responsáveis pelo característico cheiro de terra molhada após a chuva, esses micróbios são verdadeiras “indústrias farmacêuticas naturais”, produzindo substâncias usadas em tratamentos contra câncer, infecções e doenças autoimunes.

Agora, os cientistas descobriram que seu repertóri05o químico inclui também toxinas altamente especializadas. Tais moléculas, chamadas de SAIPs (proteínas inseticidas de Streptomyces antiquus), demonstraram ser letais para uma ampla gama células de insetos, sem intoxicar as humanas.

Para entender o funcionamento das SAIPs, o grupo utilizou a técnica de edição genética CRISPR, identificando os fatores necessários para que a toxina atue. O ponto-chave está em uma proteína de superfície chamada “Flower”, presente nas células dos insetos, que funciona como uma espécie de “porta de entrada” para a toxina. Sem ela, as SAIPs não conseguem penetrar nas células, o que explica por que não afetam humanos ou outros organismos.

O estudo também revelou que essas toxinas são extremamente antigas. As análises evolutivas sugerem que elas surgiram há mais de 100 milhões de anos. Essa origem remota levanta hipóteses intrigantes sobre sua possível relação com outras toxinas bacterianas conhecidas.

“É possível que essas toxinas tenham sido o catalisador para o eventual surgimento da toxina causadora da difteria [um tipo de infecção aguda]”, afirma Cameron Currie, que atua como professor na Universidade McMaster, no Canadá, e assina como coautor do estudo, em comunicado à imprensa. Ele ressalta, porém, que essa conexão ainda precisa ser confirmada por novos estudos.

Futuro da pesquisa

Embora a descoberta ainda esteja no campo da ciência básica, suas aplicações práticas já começam a ser vislumbradas. As SAIPs podem ser exploradas como ferramentas para controlar vetores de doenças, como mosquitos transmissores de malária, ou para proteger culturas agrícolas de pragas.

Os pesquisadores já registraram patente da descoberta e iniciaram estudos para viabilizar sua aplicação comercial. O foco está, sobretudo, no setor agrícola, onde as substâncias inseticidas seletivas são altamente valorizadas.

Daqui em diante, os próximos passos incluem testes em sistemas biológicos mais complexos, como grilos e larvas, para avaliar a eficácia e segurança das toxinas em condições mais próximas da realidade. Paralelamente, a equipe busca identificar e caracterizar os compostos antimicrobianos produzidos por essas bactérias.

(Por Arthur Almeida)

Micrografia eletrônica de varredura de uma bactéria do gênero Streptomyces. Microrganismos têm potencial para uso na agricultura, segundo estudo — Foto: Wikimedia Commons

Astrogildo Aécio Nunes

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