Chapada dos Guimarães: o lugar onde escolhi morar dentro de mim

Chapada dos Guimarães: o lugar onde escolhi morar dentro de mim
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Laura Lucena

Existem cidades onde a gente nasce. Outras onde trabalha. Algumas apenas atravessa. Mas existem aquelas raras que, em algum momento da vida, nos adotam sem pedir licença. Para mim, esse lugar chama-se Chapada dos Guimarães.

Conheci Chapada em 1977. Desde então, muita água escorreu pelas cachoeiras, muitos ventos atravessaram seus paredões de arenito e incontáveis pessoas chegaram imaginando conhecer apenas um belo destino turístico. Eu também pensei assim. Demorei pouco para descobrir que Chapada não é um lugar que se visita. É um lugar que nos transforma.

Há quem veja apenas as cachoeiras, o Véu de Noiva, a Cidade de Pedra, o Morro de São Jerônimo ou os pores do sol que parecem pintados à mão. Tudo isso existe e encanta. Mas a verdadeira Chapada mora entre uma árvore e outra, no silêncio quebrado pelo canto dos pássaros, no perfume do cerrado depois da chuva, nas histórias dos antigos moradores, na sabedoria dos povos originários, nas lendas que atravessam gerações e naquele céu estrelado que faz qualquer pessoa se sentir pequena diante da grandeza do universo.

Dizem que Chapada tem uma energia diferente. Não sei explicar. Talvez seja o paralelo 15, talvez sejam as pedras com milhões de anos guardando memórias que jamais conheceremos. Talvez seja apenas a natureza lembrando ao ser humano que ele também faz parte dela.

Nem tudo, porém, são flores. Como toda cidade, Chapada enfrenta desafios. Há decisões que ferem sua paisagem, intervenções que ignoram sua identidade, patrimônios naturais que precisam ser protegidos com mais respeito e uma população que, muitas vezes, luta para ser ouvida. Amar uma cidade também é isso: defendê-la quando ela precisa de quem a ama.

Talvez seja justamente por isso que meu amor por Chapada nunca tenha sido um encantamento passageiro. É um amor maduro. Daquele que conhece as virtudes, enxerga os defeitos e, ainda assim, escolhe permanecer.

Foi aqui que fiz amigos que se tornaram família. Foi aqui que encontrei espaço para exercer o jornalismo, o turismo, a cultura e o voluntariado. Foi aqui que plantei sonhos e vi muitos deles florescerem.

Aprendi que qualidade de vida não se mede pelo tamanho da casa, mas pela paz com que se acorda ouvindo os passarinhos, pelo privilégio de respirar ar puro, de contemplar um pôr do sol sem pressa e de entender que viver bem é, muitas vezes, aprender a desacelerar.

Hoje, quando me perguntam por que continuo aqui, respondo sem hesitar: porque foi Chapada que escolheu morar em mim.

E, quando chegar a hora de escrever os últimos capítulos desta minha passagem pela Terra, espero que eles sejam escritos aqui. Sob este céu imenso, embalados pelo vento que percorre os cânions, pelo perfume do cerrado florido e pela certeza de que existem lugares que deixam de ser endereço para se tornarem destino da alma.

Parabéns, Chapada dos Guimarães.

Que você continue encantando quem chega, acolhendo quem fica e resistindo, com a força das suas pedras milenares, para que as futuras gerações também tenham o privilégio de descobrir que alguns lugares não cabem nos mapas. Cabem apenas no coração.

Astrogildo Aécio Nunes

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