Cachorro de 30 milhões de anos era atarracado, escalava árvores e armava emboscadas

A família dos cães modernos estão entre os mamíferos mais eficientes para percorrer longas distâncias. Parentes como lobos, coiotes e raposas conseguem perseguir presas por quilômetros graças às patas alongadas e ao corpo adaptado para a corrida. Mas nem sempre foi assim. Um fóssil de cerca de 30 milhões de anos revela que um antigo canídeo tinha pernas curtas, corpo robusto e preferia surpreender suas presas em emboscadas em vez de persegui-las.
Descrito em um estudo publicado em 29 de maio na revista Journal of Paleontology, o animal pertence à espécie Mesocyon coryphaeus. O esqueleto, encontrado no Monumento Nacional dos Leitos Fósseis de John Day, no estado americano do Oregon, é considerado o exemplar mais completo já descoberto dessa espécie e um dos fósseis de cães da era pré-glacial mais completos da América do Norte.
A história da descoberta começou ainda no fim da década de 1980. Quando o fóssil foi retirado do solo, os paleontólogos acreditavam que ele pertencia a um oreodonte — um grupo extinto de mamíferos parentes distantes de ovelhas, camelos e porcos. Apenas anos depois, ao separar o crânio para exibição, os pesquisadores perceberam que se tratava de um antigo canídeo. Em 2012, o restante do esqueleto foi finalmente preparado, revelando um espécime excepcionalmente preservado.
Segundo a paleontóloga Anne Kort, da Universidade de Michigan (EUA), responsável pela descrição do fóssil, o animal preserva praticamente todo o esqueleto, faltando apenas a cauda e partes das mãos e dos pés. O exemplar ainda conserva o báculo — um osso presente no pênis de muitos mamíferos —, o que permitiu identificar que o indivíduo era um macho. Além disso, ele apresentava um osteocondroma, um crescimento ósseo hereditário no punho observado em cerca de 60% dos fósseis dos primeiros cães conhecidos.
“É uma ligação hereditária direta muito interessante que normalmente não encontraríamos”, disse Kort, em comunicado. “Esta é mais uma evidência, e isso nos dá uma ideia de quão incrível é este fóssil.”
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Um cachorro muito diferente dos atuais
Embora o crânio do M. coryphaeus seja claramente semelhante ao dos cães, o restante do corpo surpreendeu os pesquisadores. O animal tinha pernas mais robustas, pés mais curtos e uma estrutura corporal baixa e atarracada, bastante diferente da anatomia dos canídeos modernos. As articulações dos cotovelos permitiam girar os antebraços, característica útil para agarrar e até escalar. Já seus membros inferiores indicam que ele caminhava apoiando parte do calcanhar no chão, em vez de correr permanentemente na ponta dos pés como fazem os cães atuais.
“O que mais me fascinou foi o quão pouco parecido com o de um cachorro era o esqueleto do M. coryphaeus, especialmente o quão distintamente semelhante a um cachorro era o crânio”, disse Kort à revista Discover.
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Essas adaptações sugerem que o M. coryphaeus não era um corredor de longa distância. Em vez disso, provavelmente fazia deslocamentos curtos e rápidos e caçava escondido entre a vegetação, atacando as presas de surpresa. Na época em que viveu, o planeta passava por uma transição ambiental: florestas densas davam lugar a áreas mais abertas de bosques e arbustos, oferecendo cobertura suficiente para esse tipo de estratégia de caça.
Os pesquisadores estimam que o animal tinha o porte semelhante ao de um coiote atual. Ele representa uma fase intermediária na evolução dos canídeos, entre ancestrais menores que caçavam pequenos roedores — como o Hesperocyon, considerado um dos primeiros e mais primitivos ancestrais dos cães, que viveu na América do Norte cerca de 40 milhões de anos atrás — e linhagens posteriores que desenvolveram corpos maiores e dietas mais especializadas em carne.
A evolução dos cães
Os primeiros canídeos surgiram na América do Norte há cerca de 40 milhões de anos. O M. coryphaeus apareceu aproximadamente 10 milhões de anos depois, mas ainda não possuía as adaptações que tornaram os cães modernos excelentes corredores. Essas características só evoluíram posteriormente à medida que as pradarias se expandiram e favoreceram animais capazes de percorrer grandes distâncias em busca de alimento.
Segundo Kort, essa capacidade de percorrer longos trajetos provavelmente foi decisiva para o sucesso evolutivo dos canídeos atuais. Enquanto o Mesocyon desapareceu há cerca de 21 milhões de anos — possivelmente devido à competição com outros carnívoros —, as linhagens que desenvolveram adaptações para a corrida sobreviveram, se espalharam para regiões além da América do Norte há cerca de 8 milhões de anos e hoje estão presentes em todos os continentes, com exceção da Antártida.
Além de ajudar a reconstruir a evolução dos cães, o fóssil também lembra que nem todas as linhagens ancestrais deixam descendentes vivos. “Este fóssil não é o tataravô dos nossos cães atuais, porque toda essa linhagem foi completamente extinta. E com essa extinção, perdemos todo um tipo de ecologia canina que simplesmente não vemos mais”, disse Kort. “[…] A evolução nunca encontra uma solução perfeita, ela encontra soluções adequadas. Então, quando perdemos algo, isso se perde para sempre. Nunca será perfeitamente substituído, e acho que essa é uma lição importante para tirarmos quando pensamos em extinções hoje em dia.”
(Por Sarah Macedo)






