# Agosto Lilás: quando a violência deixa marcas que a saúde também precisa enxergar

# Agosto Lilás: quando a violência deixa marcas que a saúde também precisa enxergar
Imagem Pessoal

*Por Luma Amaral*

Há violências que deixam hematomas. Outras alteram o sono, aumentam a ansiedade, provocam dores persistentes, silenciam comportamentos e modificam, pouco a pouco, a maneira como uma mulher se relaciona consigo mesma e com o mundo.

Por isso, falar sobre violência contra a mulher é também falar sobre saúde.

O Agosto Lilás, instituído nacionalmente como mês de conscientização para o fim da violência contra a mulher, ganha significado especial em 2026, quando a Lei Maria da Penha completa 20 anos. Duas décadas depois de sua promulgação, o avanço jurídico é inegável, mas permanece diante de nós um desafio que ultrapassa a esfera policial e judicial: reconhecer a violência antes que suas consequências se agravem e compreender todas as dimensões pelas quais ela se manifesta.

Quando pensamos em violência, a agressão física ainda costuma ser a primeira imagem que surge. Mas a violência contra a mulher pode ser física, psicológica, sexual, patrimonial e moral. Pode aparecer na ameaça, na humilhação constante, no controle excessivo, no isolamento de amigos e familiares, na vigilância, na desqualificação, na coerção sexual, na destruição da autonomia financeira ou na tentativa de fazer com que a mulher passe a duvidar de sua própria percepção.

E nem sempre quem olha de fora consegue perceber.

## O corpo também conta essa história

A violência pode produzir consequências imediatas, mas também repercussões que persistem por muito tempo. A Organização Mundial da Saúde reconhece a violência contra as mulheres, especialmente aquela praticada por parceiros íntimos e a violência sexual, como um importante problema de saúde pública e de direitos humanos.

Entre suas possíveis repercussões estão lesões físicas, cefaleias, dores crônicas, distúrbios gastrointestinais, problemas de saúde sexual e reprodutiva, alterações do sono, ansiedade, depressão e transtorno de estresse pós-traumático.

Isso significa que algumas mulheres chegam aos serviços de saúde apresentando sintomas recorrentes sem necessariamente relatarem, em um primeiro momento, a situação de violência que vivenciam.

Às vezes, procuram atendimento pela dor.

Pela insônia.

Pela ansiedade.

Pelas crises recorrentes.

Pela alteração do comportamento alimentar.

Pelo medo que não conseguem explicar.

E é justamente por isso que os serviços e os profissionais de saúde ocupam uma posição tão importante na rede de proteção.

Não cabe ao profissional investigar a vida da mulher como se conduzisse um interrogatório. Cabe saber observar, acolher, escutar sem julgamento e conhecer os caminhos adequados para orientação e encaminhamento quando surgirem sinais ou relatos de violência.

Uma escuta qualificada pode ser o primeiro espaço em que aquela mulher consegue falar.

## “Por que ela não vai embora?”

Talvez essa seja uma das perguntas que mais precisemos abandonar.

Quem observa uma relação violenta de fora frequentemente enxerga uma porta de saída que, para quem está vivendo aquela realidade, pode estar cercada por medo, dependência financeira, filhos, ameaças, isolamento social, dependência emocional, insegurança e ausência de uma rede de apoio.

A pergunta mais adequada não deveria ser por que uma mulher permanece em determinada situação, mas *quais condições precisam existir para que ela possa sair dela com segurança*.

Essa mudança de perspectiva é fundamental porque retira da mulher a responsabilidade pela violência que sofre e direciona a atenção para aquilo que realmente importa: proteção, acesso à informação, autonomia, acolhimento e funcionamento efetivo das redes de apoio.

Não basta dizer a uma mulher que procure ajuda se, ao fazê-lo, ela encontrar julgamento, descrédito ou despreparo.

A rede precisa estar preparada para recebê-la.

## Violência também adoece

Quando uma pessoa vive continuamente sob ameaça, medo, humilhação ou controle, não estamos falando apenas de um problema de relacionamento. Estamos diante de uma situação capaz de comprometer diferentes dimensões da saúde e da vida.

Isso também explica por que o enfrentamento à violência não pode ser responsabilidade exclusiva da segurança pública ou do sistema de Justiça.

Ele envolve saúde, assistência social, educação, trabalho, família, comunidade e políticas públicas.

Envolve também a capacidade de reconhecer comportamentos que, durante muito tempo, foram naturalizados como ciúme, cuidado, temperamento difícil ou “problemas de casal”, quando na realidade podem representar formas de controle e violência.

Prevenir significa também educar.

Ensinar meninas e mulheres a reconhecer limites e direitos. Ensinar meninos e homens que controle não é cuidado, posse não é amor e agressividade não é demonstração de afeto.

Significa construir relações em que respeito, autonomia e liberdade não sejam concessões de uma pessoa à outra, mas pressupostos básicos da convivência.

## Muito além de um mês no calendário

Campanhas como o Agosto Lilás têm o mérito de ampliar a visibilidade do tema. Mas o verdadeiro resultado não pode ser medido apenas pela quantidade de prédios iluminados de lilás, postagens nas redes sociais ou eventos realizados durante agosto.

A campanha ganha sentido quando a informação chega a quem precisa dela.

Quando alguém reconhece um comportamento abusivo que antes considerava normal.

Quando uma família deixa de perguntar “o que você fez?” e passa a perguntar “como podemos ajudar?”.

Quando um profissional identifica sinais que antes passariam despercebidos.

Quando uma mulher encontra acolhimento em vez de julgamento.

E quando as instituições trabalham de forma articulada para impedir que uma situação de violência avance até consequências irreparáveis.

Depois de 20 anos da Lei Maria da Penha, há muito a reconhecer em termos de avanços legais e sociais. Mas há também muito a fazer.

O Agosto Lilás nos lembra que enfrentar a violência contra a mulher não é uma responsabilidade que começa quando ocorre uma agressão grave. Ela começa muito antes: na educação, no reconhecimento dos primeiros sinais, no fortalecimento da autonomia feminina, na existência de redes de proteção e na disposição da sociedade para não normalizar aquilo que machuca, controla, humilha ou ameaça.

Porque algumas violências aparecem na pele.

Outras aparecem na saúde.

E nenhuma delas deveria permanecer invisível.

*Por Luma Amaral*

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Astrogildo Aécio Nunes

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