Acusações, embates e choro marcam primeiro debate com os seis candidatos ao Governo

Acusações, embates e choro marcam primeiro debate com os seis candidatos ao Governo
Foto: Mayke Toscano

O segundo debate da eleição ao Governo de Mato Grosso — e o primeiro a reunir os seis candidatos na disputa pelo Palácio Paiaguás — foi marcado por três horas de confrontos, troca de acusações, provocações sobre o passado dos adversários e um momento de emoção protagonizado pelo Sargento Laudicério (Agir), que chorou ao falar da mãe, vítima do que classificou como negligência na saúde pública.

Realizado pela TV Vila Real na manhã desta terça-feira (1º), o encontro colocou frente a frente Otaviano Pivetta (Republicanos), Wellington Fagundes (PL), Natasha Slhessarenko (PSD), Rafaell Milas (Missão), Sargento Laudicério (Agir) e Maurício Coelho (Mobiliza).

Feminicídio, segurança pública, saúde, pagamento da Revisão Geral Anual (RGA) dos servidores, incentivos fiscais, infraestrutura, industrialização, emendas parlamentares e uso do fundo eleitoral passaram pela discussão. Em muitos momentos, porém, as propostas foram apresentadas de forma superficial diante do espaço ocupado por acusações e tentativas de colocar os adversários na defensiva.

O clima ficou mais evidente nas rodadas de confronto direto, quando os próprios candidatos escolhiam quem responderia. Em apenas um dos blocos, sete pedidos de direito de resposta foram apresentados à direção do programa. Todos foram negados.

Pivetta e Wellington elevam o tom

O confronto mais duro envolveu os dois candidatos que aparecem nas primeiras posições das pesquisas eleitorais, Wellington Fagundes e Otaviano Pivetta.

Wellington associou Pivetta à gestão do ex-governador Pedro Taques e voltou a desafiá-lo a quebrar os sigilos bancário e fiscal. O senador afirmou que ele próprio e familiares já teriam tornado as informações disponíveis e cobrou a mesma postura do governador.

Pivetta não respondeu objetivamente se aceitaria o desafio. Preferiu dizer que construiu seu patrimônio trabalhando, afirmou ter a consciência tranquila e partiu para o ataque ao adversário.

O governador lembrou os mais de 30 anos de vida pública de Wellington, sua passagem pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) durante governos anteriores e chegou a dizer que o senador passou décadas “sugando o povo de Mato Grosso”.

Na sequência, o tom subiu ainda mais.

“Eu nunca fiz noitadas em Brasília para fazer lobby, para arrumar negócios, para indicar agentes no DNIT, para intermediar negócios. Eu nunca fiz nada disso”, disparou Pivetta.

Wellington reagiu lembrando sua atuação nos municípios, voltou a cobrar a quebra dos sigilos e sustentou que nunca foi condenado durante sua trajetória política.

Os ataques entre os dois se repetiram ao longo do programa e ajudaram a dar o tom de confronto ao debate.

Milas mira Wellington

Wellington também foi o principal alvo de Rafaell Milas. O candidato do Missão levou ao debate operações e denúncias nas quais o nome do senador teria sido citado e questionou sua relação com Cinésio Nunes, servidor do DNIT ligado ao gabinete de Wellington.

Milas citou ainda casos antigos, entre eles a Máfia das Sanguessugas, e provocou o adversário a explicar o que diferentes episódios teriam em comum.

Wellington negou irregularidades e repetiu que, em mais de três décadas de vida pública, nunca foi condenado.

“Não respondo a nenhum processo e nunca fui condenado em 34 anos de vida pública”, afirmou.

Milas insistiu nas críticas e ainda colocou em xeque a identificação de Wellington com a direita, lembrando sua relação com governos de Lula, Dilma Rousseff e Michel Temer.

O senador respondeu classificando Milas como um candidato interessado em “trucidar Wellington Fagundes” por estar à frente nas pesquisas.

Choro de Laudicério muda clima do debate

Em meio aos confrontos, o momento de maior emoção ocorreu quando Sargento Laudicério falou sobre a mãe, Maria Aparecida, que perdeu a visão.

A história já havia sido citada pelo candidato antes do debate, mas voltou à tona durante um confronto com Wellington sobre saúde e denúncias envolvendo o Governo do Estado.

Laudicério atribuiu a perda da visão da mãe à demora e à negligência no atendimento público e responsabilizou políticos que estão há décadas ocupando cargos pelo cenário da saúde.

“Minha mãe é deficiente visual, perdeu as duas visões por causa de negligência e incompetência, pois os senhores que estão há mais de 30 anos são coautores dessa negligência do Estado. Quantas mais Maria Aparecida Machado estão nessa situação?”, questionou.

Na tréplica, o candidato não conteve o choro ao lembrar que a mãe acompanhava o debate, mas não podia vê-lo.

“O senhor acha que ela não queria ver meus olhos? O senhor acha que ela não queria me enxergar? Ela está lá ouvindo. Você acha que ela não queria aqui me assistir?”, afirmou.

Em seguida, disparou contra os adversários: “Covardes os senhores. Os senhores são todos covardes”.

O episódio provocou manifestações posteriores de solidariedade. Pivetta disse lamentar a situação e Wellington, nas considerações finais, lembrou recursos destinados ao Instituto Lions da Visão.

Feminicídio atravessa confronto

A violência contra as mulheres foi um dos poucos assuntos que apareceram em diferentes momentos e a partir de candidatos distintos.

Natasha, única mulher na disputa, questionou Pivetta sobre o fato de Mato Grosso aparecer entre os estados com índices mais elevados de feminicídio e apresentou a proposta de criar uma espécie de “Ficha Suja Maria da Penha”, impedindo que homens condenados por agressão contra mulheres ocupem cargos no governo.

Pivetta classificou a ideia como “sensata” e disse que poderia incorporá-la à própria gestão.

Natasha, porém, criticou as políticas atuais e cobrou uma estrutura específica para mulheres no Estado, além de medidas preventivas para que o poder público atue antes que a violência chegue ao feminicídio.

Laudicério também levou o tema diretamente a Pivetta. O sargento citou a antiga acusação de violência doméstica feita contra o governador pela ex-mulher — caso arquivado pela Justiça — e questionou quais mecanismos o Estado oferece para que uma vítima não precise retornar ao agressor por dependência financeira.

Pivetta citou Patrulhas Maria da Penha, botão do pânico, auxílio-aluguel e programas habitacionais destinados às mulheres em situação de vulnerabilidade.

Laudicério insistiu que, na experiência de quem atende ocorrências policiais, o problema frequentemente começa justamente depois da denúncia.

“O maior problema que nós temos é após o boletim de ocorrência e a vulnerabilidade em que ela está, pois a dependência financeira e a dependência psicológica fazem com que ela volte”, afirmou.

Questionado sobre feminicídio, Milas apresentou o protocolo “Mulher Viva”, com a promessa de integrar o atendimento à vítima desde o primeiro contato com o Estado e oferecer suporte para impedir que a violência evolua até a morte.

Wellington também levou o assunto ao confronto e questionou Maurício sobre políticos acusados de agressão contra mulheres. Maurício afirmou que qualquer acusado tem direito à defesa, mas que quem pretende ocupar cargo público precisa explicar as acusações à sociedade.

RGA divide candidatos

Os servidores públicos também ganharam espaço relevante no debate, principalmente por meio das cobranças pelo pagamento das perdas acumuladas da RGA.

Wellington prometeu pagar a revisão em dia e também buscar a quitação dos valores atrasados. Para ele, servidor deve ser tratado como investimento, e não como gasto.

Natasha prometeu criar uma mesa permanente de negociação com as categorias, realizar concursos, reduzir a dependência de contratos temporários e pagar a RGA represada.

Laudicério, servidor público e policial militar, afirmou que a categoria não pode ser tratada como inimiga pelo Executivo.

“Servidor público não pode ser considerado inimigo. Nós não somos inimigos e queremos uma mesa de diálogo constante e respeitosa”, declarou.

Rafaell Milas foi o candidato mais pressionado sobre o assunto. Questionado inicialmente por Laudicério, reconheceu que perdas anteriores e posteriores à pandemia precisam ser recompostas, mas manteve resistência ao pagamento retroativo referente ao período da Covid-19.

Mais tarde, Maurício voltou ao assunto e tentou convencê-lo a rever o posicionamento, citando o crescimento da arrecadação estadual entre 2020 e 2026.

Milas manteve a posição e afirmou que é necessário avaliar de onde sairão os recursos. Também criticou o que chamou de “populismo” e “pílula mágica” ao tratar a recomposição como uma medida simples.

Unimed vira munição contra Maurício

Um dos confrontos que ganharam contornos pessoais ocorreu entre Maurício Coelho e Pivetta durante a discussão sobre incentivos fiscais.

Maurício questionou o governador sobre o volume de renúncias concedidas pelo Estado e perguntou se empresas ligadas a Pivetta recebem benefícios fiscais.

Pivetta defendeu o modelo, argumentando que os incentivos são utilizados para atrair investimentos, industrializar Mato Grosso e gerar empregos. Ao falar de sua trajetória empresarial, provocou o adversário.

“Eu sou empreendedor cívico, graças a Deus, e minhas empresas geram muitos empregos de qualidade e são empresas saudáveis, diferente da tua, que é a Unimed, né?”, disparou.

A provocação remete à relação de Maurício com a antiga administração da Unimed Cuiabá. Publicitário, ele atuou como marqueteiro do ex-presidente da cooperativa Rubens Carlos de Oliveira Júnior e posteriormente se tornou alvo da Operação Short Code, da Polícia Civil, que investiga uma estrutura de ataques virtuais e conteúdos considerados difamatórios contra a atual direção da cooperativa.

Maurício também é marido da advogada Jaqueline Larréa, ex-assessora jurídica da Unimed, que foi alvo da Operação Bilanz, investigação relacionada a suspeitas de fraudes contábeis e ao rombo estimado em aproximadamente R$ 400 milhões nas contas da cooperativa referentes a 2022. As acusações ainda são objeto de investigação, e os envolvidos contestam irregularidades.

No debate, Maurício rebateu Pivetta afirmando que nunca foi gestor da Unimed e sustentou que o trabalho desenvolvido por ele teria resultado em mais de R$ 100 milhões de lucro.

Em seguida, devolveu a provocação citando a Cooperlucas e dizendo que Pivetta teria explicações a dar sobre a cooperativa de Lucas do Rio Verde.

Wellington aproveitou o confronto para também atacar Pivetta, questionando os incentivos fiscais concedidos pelo Estado e destacando que, apesar de possuir empresas há décadas, nunca teria recebido benefícios semelhantes.

ASSISTA À INTEGRA DO DEBATE

Incentivos fiscais colocam Maurício contra Pivetta

A discussão sobre a Unimed surgiu justamente de um dos temas que Maurício mais explorou durante o debate: as renúncias fiscais.

O candidato do Mobiliza prometeu fazer uma auditoria nos benefícios concedidos às empresas e reduzir incentivos que considerar desnecessários.

Segundo ele, parte desses recursos poderia ser revertida para diminuir impostos cobrados diretamente da população, com redução do ICMS sobre energia e do IPVA.

Pivetta respondeu que a política de incentivos é essencial para atrair empresas e transformar economicamente as regiões do Estado. Também questionou se a proposta de Maurício não acabaria afastando novos investimentos.

“Você seria o candidato que ia espantar as indústrias do Estado de Mato Grosso?”, provocou.

O confronto expôs uma diferença concreta entre os dois: enquanto Pivetta defende a continuidade do modelo de incentivos adotado pela atual administração, Maurício propõe reduzir de forma significativa o volume das renúncias.

Segurança: facções, efetivo e inteligência

Na segurança pública, os candidatos convergiram na necessidade de enfrentar o avanço das facções, mas apresentaram caminhos diferentes.

Natasha defendeu integração entre as forças estaduais, Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal, além do uso de inteligência, reconhecimento facial, aumento de efetivo e novos presídios.

Para a candidata, “o crime organizado entra onde o Estado falha”.

Laudicério concentrou sua proposta na valorização dos profissionais. Defendeu aumento do efetivo, inteligência policial, saúde mental, progressão nas carreiras e segurança jurídica para policiais envolvidos em ocorrências.

“Facção não resolve só com viatura”, afirmou.

Milas apresentou uma proposta de presídio de segurança máxima, que batizou de “Inferno Pantaneiro”, e defendeu uma estrutura específica de inteligência voltada também à Polícia Penal.

Saúde tem hospitais, fila digital e inteligência artificial

Na saúde, Pivetta utilizou boa parte de suas intervenções para destacar os hospitais construídos pela atual gestão, especialmente o Hospital Central, além das unidades regionais.

Ao perguntar a Milas sobre o setor, o governador exaltou os investimentos físicos e aproveitou para provocar adversários ao lembrar que o Hospital Central permaneceu décadas com as obras paralisadas.

Milas reconheceu os investimentos, mas afirmou que pretende avançar na digitalização. Sua proposta prevê prontuário integrado pelo CPF, uso de inteligência artificial, acompanhamento das filas pelo celular, controle digital dos estoques de medicamentos e telemedicina.

Natasha também defendeu informatização da regulação e transparência nas filas de atendimento.

Cobrado por Laudicério sobre quem seria efetivamente responsável pelo paciente no sistema, a candidata afirmou que pretende colocar as informações da fila diretamente nas mãos dos usuários e ampliar especialistas na rede básica.

Fundão, QR Code e emendas parlamentares

O financiamento das campanhas também virou assunto.

Maurício, que afirma ter recusado recursos do fundo eleitoral, criticou os milhões destinados às candidaturas dos adversários e questionou Laudicério sobre a utilização de dinheiro público nas campanhas.

O sargento respondeu expondo a diferença entre sua estrutura e a dos principais concorrentes. Disse que percorre Mato Grosso de motocicleta e chegou a mostrar diante das câmeras um QR Code para receber doações.

“Foge da minha realidade isso aí de gastar milhões e milhões, sendo que eu estou andando de moto”, afirmou.

O episódio rendeu um dos momentos mais inusitados do debate, com Laudicério repetindo a exibição do QR Code na tréplica.

Já as emendas parlamentares dividiram Natasha, Milas e Wellington.

Milas classificou o atual modelo como um “câncer do Brasil” e defendeu que parlamentares não tenham controle sobre parte do orçamento. Natasha reconheceu que emendas podem gerar benefícios, mas alertou para o risco de corrupção.

Wellington, por outro lado, defendeu o instrumento como forma de atender demandas apresentadas por prefeitos, vereadores e comunidades, mas evitou dizer qual percentual destinaria às emendas estaduais caso seja eleito.

Acusações até nos bastidores

O clima de tensão não ficou restrito às câmeras.

Durante uma das interrupções para o horário eleitoral, Maurício procurou jornalistas para afirmar que teria sido ameaçado por Roberto, marido de Natasha, em razão de uma pergunta feita à candidata.

Segundo Maurício, o episódio ocorreu durante o intervalo e teria relação com questionamentos feitos por ele no decorrer do debate.

A acusação, feita pelo candidato aos jornalistas, acrescentou mais um componente à temperatura já elevada do confronto. Por se tratar de uma alegação feita por Maurício, eventual publicação do episódio exige também manifestação do citado.

Propostas perdem espaço

Ao fim de quase três horas, os candidatos conseguiram colocar na discussão parte dos assuntos que devem ocupar a campanha até outubro. Houve diferenças claras sobre incentivos fiscais, RGA, emendas parlamentares, segurança pública e modelo de gestão, além de propostas específicas para saúde e proteção das mulheres.

O formato de confronto direto, entretanto, levou boa parte do tempo para o terreno das acusações.

Wellington e Pivetta revisitaram décadas de vida pública um do outro. Milas buscou vincular Wellington a denúncias e operações. Maurício e Pivetta transformaram a discussão econômica em um embate envolvendo Unimed e Cooperlucas. Natasha foi cobrada pelas alianças políticas, enquanto Laudicério recorreu à própria história pessoal e profissional para questionar adversários com maior tempo de atuação política.

Nas considerações finais, cada um buscou voltar ao discurso central da campanha.

Pivetta defendeu a continuidade da atual administração e afirmou representar um modelo que recebeu um Estado “quebrado” e o colocou numa trajetória de desenvolvimento.

Wellington prometeu um “governo humano” e voltou a destacar políticas para as mulheres e servidores.

Natasha reforçou sua experiência como médica, professora e servidora pública e encerrou com um apelo contra a violência de gênero.

Laudicério buscou se apresentar como representante dos servidores e do cidadão comum.

Maurício afirmou que o debate permitiu separar quem possui propostas de quem recorre ao “embromation” e voltou a destacar a recusa ao fundo eleitoral.

Milas utilizou seu último minuto para apresentar a biografia, reforçar sua candidatura e defender o projeto político do Missão.

No saldo final, o primeiro encontro com os seis concorrentes deixou mais claros alguns dos antagonismos da corrida pelo Palácio Paiaguás, mas entregou menos aprofundamento do que a quantidade de temas discutidos poderia permitir. Entre propostas, acusações e histórias pessoais, o confronto político terminou como o principal personagem do debate.

Da Redação – Alline Marques / Reportagem local – Aline Costa e Izabelle Borges

Astrogildo Aécio Nunes

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