Duas agendas, dois projetos diferentes em fatos e números: o que o clã Bolsonaro e o presidente Lula priorizaram — e para quem?

Paulo Lemos
Em 2018, Jair Bolsonaro chegou ao Planalto com uma coalizão de forças que combinava liberais econômicos, militares, evangélicos, ruralistas e caminhoneiros.
Em 2023, Lula voltou ao poder prometendo reconstruir o Estado, retomar políticas sociais e recolocar o Brasil no cenário internacional.
Mais do que governos distintos, os dois períodos representam projetos de país com prioridades, aliados e beneficiários claramente diferentes.
Entender essa diferença é essencial para avaliar não apenas o que cada gestão entregou, mas a quem cada uma decidiu servir. Governar é escolher — e toda escolha tem endereço.
A coalizão que chegou ao poder
Nos primeiros 200 dias do governo Bolsonaro, ficou evidente o padrão de atendimento às bases eleitorais.
O presidente tomou decisões que agradaram diretamente militares, policiais, evangélicos, ruralistas e caminhoneiros.
Entre as medidas, abriu crédito para caminhoneiros, negociou regras mais brandas de aposentadoria para as polícias e carreiras de segurança pública, ampliou o financiamento de comunidades terapêuticas majoritariamente ligadas a igrejas e manteve isenta a contribuição previdenciária sobre a produção agropecuária exportada.
A oposição criticou o estilo de governar sinalizando para suas bases eleitorais.
O senador Humberto Costa resumiu: Bolsonaro fez a opção de governar para os identificados com o bolsonarismo propriamente dito.
Governa para um núcleo duro ligado a ele, deixando vários segmentos da sociedade sem atenção.
No governo Lula, a coalizão é outra. O CEPR registra que o terceiro mandato implementou leis que apoiaram trabalhadores.
Nova lei do salário mínimo, ampliação de ações afirmativas no setor público, igualdade salarial entre gêneros, licença-maternidade estendida e subsídios de crédito para trabalhadores informais.
O Bolsa Família teve o valor médio recebido por famílias de baixa renda aumentado em mais de 70% em termos reais.
Um governo se mede pelos amigos que senta à mesa — e pela gente que deixa de fora.
Agenda econômica: liberalismo versus crescimento com inclusão
A agenda econômica do governo Bolsonaro foi marcada pelo neoliberalismo radical.
O ministro Paulo Guedes defendia privatizar tudo, introduzir reforma tributária e previdenciária e abrir a economia.
A Reforma da Previdência de 2019, a EC nº 103/2019, alterou profundamente as regras de aposentadoria: idade mínima de 65 anos para homens e 62 para mulheres, com exigência de 40 anos de contribuição para homens e 35 para mulheres para alcançar 100% do benefício.
O Banco Central foi alçado à condição de autônomo, a participação dos bancos públicos no mercado de crédito foi reduzida e o gasto público foi contido como proporção do PIB.
O tripé macroeconômico — câmbio flexível, meta de inflação e meta fiscal — foi mantido, com aceno explícito ao mercado financeiro.
Bolsonaro conseguiu vender refinarias, gasodutos, a Liquigás e a BR Distribuidora, embora a privatização da Petrobras tenha sido barrada.
No governo Lula, a orientação é distinta. O CEPR documenta que o governo combinou expansão do gasto social com reformas tributárias e equilíbrio fiscal.
Hoje, as necessidades dos pobres estão diretamente representadas no orçamento, os super-ricos passaram a pagar imposto de renda pela primeira vez e o gasto social foi ampliado.
Lula rejeita a ideia de que o ajuste fiscal deva recair sobre os mais pobres.
Ninguém vai me fazer fazer o pobre pagar o preço de qualquer ajuste fiscal.
O crescimento econômico também se diferenciou. O PIB brasileiro cresceu 3,2% em 2023, 3,4% em 2024 e 2,3% em 2025, acumulando 8,9% entre 2022 e 2025, contra uma média de 5,7% dos vizinhos sul-americanos.
No governo Bolsonaro, o crescimento médio foi de 1,4%, segundo comparação feita pelo próprio Lula.
Não existe neutralidade econômica: todo orçamento é uma declaração de prioridades.
Agenda social: desmonte versus reconstrução
A diferença talvez mais dramática entre os dois governos esteja nas políticas sociais. Durante o governo Bolsonaro, o salário mínimo perdeu poder aquisitivo e atingiu o menor nível desde 2012.
A desigualdade e a pobreza atingiram níveis recorde, e o Brasil voltou ao Mapa da Fome da FAO.
Em 2022, mais de 58% da população enfrentava insegurança alimentar em algum nível, e mais de 33 milhões de pessoas passavam fome.
O país passou por um abandono e desconstrução ativa das políticas sociais, nas palavras de estudo do Dieese.
A política econômica de austeridade fiscal linear, com o teto de gastos, sacrificou prioridades sociais.
O desmonte afetou especialmente meio ambiente, saúde, educação, direitos humanos, cultura e políticas de gênero.
No governo Lula, o quadro se inverte.
A pobreza caiu de 31,6% da população em 2022 para 23,1% em 2024 — queda de cerca de 27% —, enquanto a extrema pobreza recuou mais de 40%.
A insegurança alimentar grave diminuiu aproximadamente 22% entre 2023 e 2024, e em 2025 o Brasil foi removido do Mapa da Fome da FAO após a subnutrição crônica cair abaixo de 2,5%.
O desemprego caiu de 9,3% no segundo trimestre de 2022 para 5,4% no segundo trimestre de 2026 — redução de cerca de 42% —, o menor patamar da série histórica.
O salário mínimo real subiu 12,7% entre 2022 e meados de 2026, e o rendimento médio real do trabalho cresceu cerca de 13%.
Quando a política social deixa de ser prioridade, a fome deixa de ser estatística e vira rotina.
Interesses atendidos: para quem cada governo governou
A pergunta central é: a quem cada governo serviu?
O governo Bolsonaro atendeu prioritariamente militares, policiais, evangélicos, ruralistas e caminhoneiros — sua base eleitoral —, além do mercado financeiro, que viu a agenda liberal avançar com autonomia do Banco Central, reforma da Previdência e redução do papel dos bancos públicos.
A política ambiental foi capturada pela coalizão ruralista: o desmatamento cresceu 57% nos três primeiros anos do governo em comparação com o triênio anterior, e houve deslegitimação da ciência, questionando dados do INPE.
A agenda anti-indígena e anti-ambiental foi marca registrada, inclusive com o genocídio Yanomami.
O governo Lula, por sua vez, atendeu trabalhadores, população de baixa renda e movimentos sociais.
A política de valorização do salário mínimo, a ampliação do Bolsa Família e a retomada de programas como o Luz para Todos — que levou energia elétrica a 17 milhões de pessoas — são exemplos concretos.
No plano internacional, Lula reposicionou o Brasil como defensor do multilateralismo, rejeitando a teoria do mais forte e priorizando a integração sul-americana, os BRICS e a reforma da ONU.
Todo governo tem um retrato: basta olhar quem aparece em primeiro plano.
O que os números revelam
A comparação entre os dois governos não é apenas ideológica; ela se traduz em resultados mensuráveis.
A inflação dos alimentos, que acumulou alta de 56% durante os quatro anos de Bolsonaro, subiu 13,6% no governo Lula — quase quatro vezes menos.
A inflação geral caiu de uma média de 6,2% para 4,5%. O Brasil criou 10,6 milhões de empregos desde 2023, contra cerca de 6 milhões no governo anterior.
Números não votam, mas contam — e contam para quem.
Conclusão: dois projetos, duas prioridades
Os governos Bolsonaro e Lula representam projetos distintos de país, com agendas e beneficiários claramente definidos.
O primeiro priorizou a agenda liberal — reforma da Previdência, autonomia do Banco Central, privatizações, contenção de gastos — e atendeu militares, evangélicos, ruralistas e o mercado financeiro, com custos sociais expressivos: fome, desemprego e desmonte ambiental.
O segundo priorizou a inclusão social, a valorização do salário mínimo, a reconstrução de políticas públicas e o multilateralismo, atendendo trabalhadores e a população mais pobre.
Reconhecer essas diferenças não significa ignorar os desafios que permanecem — juros altos, endividamento das famílias, preços ainda elevados.
Significa, isso sim, abandonar a falsa simetria que trata governos com projetos opostos como se fossem equivalentes.
No Brasil, a política importa. E os números mostram para quem. Negar isso é negar a própria democracia.

Paulo Lemos é advogado em Cuiabá-MT.
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