Mato Grosso cresce. Mas como está a saúde mental das pessoas?

Paulo Lemos
Mato Grosso é uma potência econômica, ante o que se observa em seus números, apesar da concentração patrimonial e de capital exorbitantes.
A despeito ou em parte disso, existe uma pergunta que os indicadores econômicos não conseguem responder: como estão as pessoas que vivem no Estado que tanto cresce?
Quando olhamos para a saúde mental, encontramos razões para preocupação.
Em 2024, Mato Grosso registrou 1.873 notificações de violência autoprovocada e 315 mortes por lesão autoprovocada intencional, segundo a Secretaria de Estado de Saúde.
São números que não podem ser tratados apenas como estatística.
Por trás deles estão jovens, trabalhadores, mães, pais, filhos e famílias inteiras. Pessoas que, em algum momento, chegaram a um nível extremo de sofrimento.
É justamente aí que precisamos mudar nossa forma de pensar a saúde mental.
Durante muito tempo, construímos sistemas preparados principalmente para atender a doença depois que ela aparece.
Na saúde mental, isso significa frequentemente esperar a crise: a depressão grave, a dependência, a automutilação, o surto, a tentativa de suicídio ou a necessidade de internação. Precisamos cuidar antes.
Os jovens merecem atenção especial. Dados analisados a partir dos registros do SUS revelam importante demanda por internações relacionadas a transtornos mentais e comportamentais nessa população.
Entre homens jovens, diversas válvulas de escape autodestrutivas possuem peso relevante.
Entre mulheres, aparecem com destaque transtornos de humor e quadros depressivos.
Transtornos de ansiedade se instalaram como febre generalizada, inclusive em crianças e adolescentes.
Há outro sinal importante: cerca de 65% dos atendimentos de saúde mental de jovens na Atenção Primária ocorrem por demanda espontânea.
Isso significa que muitas vezes esperamos que uma pessoa em sofrimento perceba que precisa de ajuda, saiba onde encontrá-la e tenha forças para procurá-la. Não deveria ser assim.
A escola pode perceber mudanças de comportamento. A unidade de saúde pode identificar sinais precoces. A assistência social conhece famílias vulneráveis. O ambiente de trabalho pode reconhecer adoecimento. A família e a comunidade também fazem parte dessa rede.
Mato Grosso avançou. Possui Política Estadual de Saúde Mental, Rede de Atenção Psicossocial, CAPS, serviços especializados, cofinanciamento estadual e ações de capacitação profissional.
Mas ainda existem vazios importantes.
No final de 2024, dados do Ministério da Saúde indicavam 46 CAPS federalmente habilitados e cobertura ponderada de 0,78 por 100 mil habitantes, abaixo da média brasileira de 1,13.
A rede vem sendo ampliada, mas o próprio planejamento estadual chegou a estimar a necessidade de 111 serviços de saúde mental para alcançar cobertura mais adequada.
Há uma dificuldade adicional: Mato Grosso possui 141 municípios espalhados por um território gigantesco.
Não é razoável imaginar que todo pequeno município consiga manter sozinho estruturas especializadas completas.
A solução passa pela regionalização: CAPS e serviços de maior complexidade nos polos, combinados com Atenção
Primária fortalecida, equipes multiprofissionais, atendimento remoto e fluxos rápidos de referência para quem vive nas cidades menores e no campo.
Também precisamos transformar prevenção ao suicídio em política dos doze meses do ano.
Cada notificação de violência autoprovocada deveria gerar acompanhamento ativo. A pessoa recebeu atendimento depois da crise? Retornou em sete dias? Continua sendo acompanhada após 30 ou 90 dias? Abandonou o tratamento?
Esse acompanhamento pode salvar vidas.
Outra prioridade é levar a saúde mental definitivamente para dentro das escolas. Não apenas por meio de campanhas, palestras ou semanas temáticas, mas com protocolos permanentes para identificar bullying, ansiedade, depressão, automutilação, uso problemático de drogas, violência e risco suicida.
Precisamos olhar também para quem trabalha.
Pressão por produtividade, endividamento, insegurança familiar, jornadas exaustivas, isolamento e dificuldades econômicas também adoecem.
No campo, as enormes distâncias acrescentam barreiras de acesso ao atendimento. Entre povos indígenas, qualquer política precisa considerar cultura, território e organização comunitária.
Saúde mental, portanto, não é assunto apenas de psiquiatras, psicólogos ou hospitais.
É uma política de desenvolvimento humano. Talvez esteja justamente aí o próximo grande desafio de Mato Grosso, tanto quanto ou mais do que industrialização, cuidar das pessoas humanas, seus direitos sociais, cidadania, dignidade entre outros valores humanitários.
O desespero verificado no número de suicídios e outros atentados contra à própria condição e de terceiros, não podem ser a regra do modelo vigente.
Já demonstramos enorme capacidade de produzir riqueza. Agora precisamos ampliar nossa capacidade de transformar essa riqueza em qualidade de vida, educação, proteção social, oportunidades, segurança e bem-estar, vitalidade para sociedade e seus indivíduos.
Porque desenvolvimento não pode ser medido somente pela quantidade de soja, milho, algodão ou carne que produzimos, pelos bilhões exportados ou pelo tamanho do nosso PIB.
Precisamos acrescentar outra medida. A qualidade de vida que estamos construindo para as pessoas, real e concreta, percebida, não só a do papel frio.
Uma sociedade próspera não é somente aquela que cresce. É aquela em que as pessoas conseguem encontrar razões, condições e esperança para viver.

Paulo Lemos – Advogado e analista político
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