Mulher de 65 anos para no hospital por estar “feliz demais”; estudo analisou caso

Mulher de 65 anos para no hospital por estar “feliz demais”; estudo analisou caso
Experiências que envolvem emoções positivas muito intensas podem ativar algumas das mesmas vias de resposta ao estresse envolvidas em situações negativas — Foto: Puwadon Sang-ngern/Pexels

Uma mulher de 65 anos chegou ao pronto-socorro com dor no peito e falta de ar após participar do casamento da filha. Os sintomas, que tinham começado logo depois da celebração e durado três dias, pioravam durante atividades físicas. Os exames indicavam que algo estava errado com o coração, mas os médicos não encontraram artérias obstruídas. O que havia desencadeado o problema, na verdade, era uma emoção positiva intensa.

Segundo o relato do caso, descrito em um artigo científico publicado em julho na revista Oxford Medical Case Reports, a paciente, que estava no Catar, já tinha dores no peito sem causa identificada há meses. Exames anteriores apresentaram resultados normais, mas ela deixou de comparecer às consultas de acompanhamento. Depois do casamento da filha, porém, a dor voltou acompanhada de falta de ar, levando-a primeiro a uma clínica.

Um eletrocardiograma mostrou alterações na atividade elétrica do coração, um dos sinais que podem aparecer durante um ataque cardíaco. Por isso, ela foi encaminhada às pressas para o pronto-socorro de um hospital. Quando chegou, a dor já havia diminuído, mas um novo eletrocardiograma revelou outras alterações.

Um coração enfraquecido

Os exames de sangue mostraram níveis elevados de troponina, proteína que chega à corrente sanguínea quando há danos no músculo cardíaco. Um ultrassom também revelou que o ventrículo esquerdo, principal câmara de bombeamento do coração, não estava se contraindo adequadamente, como aponta o site Live Science.

A fração de ejeção — quantidade de sangue que o coração bombeia para o corpo a cada batimento — havia caído de 58%, registrada cinco meses antes, para 35% (o saudável é de 50% a 70%). O ventrículo esquerdo também apresentava uma dilatação na ponta, dando ao órgão um formato semelhante ao de um balão.

Os resultados poderiam indicar um ataque cardíaco. No entanto, uma angiografia mostrou que as artérias estavam desobstruídas. Uma radiografia confirmou o formato observado no ultrassom, enquanto uma ressonância magnética não encontrou sinais de danos permanentes provocados por um ataque cardíaco silencioso ou de cicatrizes no tecido cardíaco.

Diante dos resultados, os médicos diagnosticaram a paciente com cardiomiopatia de Takotsubo, também conhecida como cardiomiopatia de estresse ou “síndrome do coração partido”. A condição enfraquece temporariamente o músculo cardíaco, causando sua dilatação, e pode produzir sintomas muito semelhantes aos de um ataque cardíaco.

A cardiomiopatia de Takotsubo costuma estar associada a experiências emocionalmente negativas, como a morte de uma pessoa querida ou um diagnóstico grave. Mas emoções positivas intensas também podem desencadear a condição.

É o que caracteriza a chamada “síndrome do coração feliz”, uma forma rara de Takotsubo descrita pela primeira vez por pesquisadores em 2016. A ideia é que uma experiência de alegria ou excitação muito intensa possa ativar algumas das mesmas vias de resposta ao estresse envolvidas em situações negativas. No caso da paciente, o casamento da filha foi considerado o possível gatilho para o episódio.

Acredita-se que a cardiomiopatia Takotsubo esteja relacionada a uma descarga repentina de hormônios do estresse, como a adrenalina, que pode afetar temporariamente o funcionamento do coração. O diagnóstico exige descartar outras possíveis causas para os sintomas e verificar a ausência de obstruções arteriais significativas.

Felicidade também traz problemas

Como destaca o site ScienceAlert, a cardiomiopatia de Takotsubo representa cerca de 1% a 3% dos casos de síndromes coronarianas agudas, e a variante associada a emoções positivas é ainda mais incomum. Uma análise do Registro Internacional de Takotsubo, com dados de mais de 1,7 mil pacientes, identificou emoções positivas como gatilho em cerca de 4,1% dos casos em que havia um fator emocional envolvido. A grande maioria estava relacionada a luto, medo ou outras experiências angustiantes.

A síndrome do coração feliz também pode apresentar um padrão diferente de dilatação do músculo cardíaco, afetando mais frequentemente a região central ou a base do coração em vez da ponta. Esse padrão, no entanto, não foi observado na paciente do caso.

A mulher recebeu medicamentos usados no tratamento da insuficiência cardíaca, como betabloqueadores, e recebeu alta depois que seu quadro se estabilizou. Ela foi encaminhada para acompanhamento em uma clínica especializada e voltou às atividades cotidianas sem limitações. Em um exame posterior, a função de bombeamento do coração havia se recuperado para 56%, próximo do valor registrado antes do episódio.

Os autores destacam que alguns estudos sugerem que pessoas com cardiomiopatia de Takotsubo desencadeada por emoções positivas podem apresentar sintomas mais leves e melhores resultados durante a hospitalização do que aqueles pacientes em que o quadro é provocado por eventos negativos. Ainda assim, são necessários mais dados para confirmar essa diferença.

(Por Sarah Macedo)

Astrogildo Aécio Nunes

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