1998 x 2026

Sérgio Cintra
Para, minimamente, entendermos o cenário político mato-grossense é necessário que façamos uma viagem no tempo, mas apenas pouco mais de três décadas atrás: em 1992, Dante de Oliveira foi eleito, pela 2ª vez, prefeito de Cuiabá, deixando o cargo para concorrer ao cargo de governador (1994), sendo reeleito em 1998, com 53% dos votos válidos, em primeiro turno, com o mote “Casa arrumada, Hora da Virada”. Apesar das dificuldades encontradas no 1º mandato, Dante (já no PSDB) foi beneficiado por uma aliança improvável entre Júlio Campos (PFL) e Carlos Bezerra (PMDB), aliás, Bezerra concorreu ao senado, mesmo sendo senador com mais quatro anos de mandato. Já em 2002, Dante (PSDB), deixa o governo com grande aprovação, concorre ao senado e fica em 3º lugar, perdendo para Serys Slhessarenko (PT) e Jonas Pinheiro (DEM). Sintomaticamente, o megaempresário do agro, Blairo Maggi (PPS), se elege governador de Mato Grosso em 2002. Em contextos diferentes, o atual cenário político estadual mostra algumas semelhanças com 1998 e 2002.
Após as convenções, os principais postulantes ao Paiaguás (sic) e à câmara alta da república são: o então vice-governador e atual governador Otaviano Pivetta (Republicanos), cujo vice Fábio Garcia (União) está sendo investigado pelo escândalo da OI telecomunicações; Wellington Fagundes (PL) que patinha na escolha do vice e a médica e a empresária Natasha Slhessarenko (PSD) apoiada pelas partidos da Federação Brasil da Esperança; já ao senado os principais postulantes às duas vagas são: o ex-governador Mauro Mendes (União Brasil) também investigado no escândalo da OI, José Medeiros (PL), representante da extrema-direita bolsonarista, Janaína Riva (MDB), deputada estadual com forte atuação junto aos servidores públicos, Carlos Fávaro(PSD), senador e ex-ministro da agricultura do governo Lula, Antônio Galvan (Avante), conservador de direita e com forte atuação no agronegócio e Pedro Taques (PSB), ex-governador e ex-senador com atuação excepcional quando do exercício do mandato no senado.
Pelo menos dois vieses devem ser analisados: o econômico e ideológico. Mato Grosso é um estado com a economia capitaneada pelo agronegócio e majoritariamente conservador politicamente: em 2022, Bolsonaro teve 64,08% e Lula apenas 34,92%, apesar da brutal concentração de renda tanto no Brasil quanto em Mato Grosso, levando a uma profunda desigualdade social; a maioria dos 2.474.297 eleitores mato-grossenses aptos a exercerem a cidadania o fazem de forma canhestra contrariando seus próprios anseios e interesses. Dois conjuntos de pautas se opõem: (Esquerda): aumento real do salário-mínimo; Bolsa Família; cotas nas universidades; FIES, Pé-de-Meia; Farmácia Popular; Gás do Povo; Programa de Aquisição de Alimentos; SUS etc., etc., etc. … (Direita): defesa da família; militarização da educação e civismo; segurança e combate ao crime; privatizações e concessões; transferência de renda condicionada etc. Se, por um lado, a Esquerda tem propostas e ações concretas que promovem inclusão social; a Direita, por outro, navega em um mar de subjetividade e falácias que seduzem os mais incautos.
Dante, governador, perdeu a corrida ao senado em 2002; Mauro Mendes, governador, é candidato ao senado em 2026. Em 2026, mesmo com mais de 60% dos votos válidos em 2022, a Direita e a Centro-Direita têm quatro candidaturas ao senado (Mauro, Medeiros, Galvan e Janaína) e a Esquerda e Centro-Esquerda, com quase 35% dos votos, têm duas (Taques e Fávaro). Já para governo, o senador Wellington (PL) tem problemas com a base bolsonarista; o atual governador Otaviano (Republicanos) tem dificuldades com boa parte do legado do governo Mauro/Pivetta. Correndo contra o tempo e apostando na votação de Lula e em sua biografia ilibada, a médica Natasha (PSD) poderá ser a grande surpresa dessas eleições, assim como foi a mãe dela, Serys Slhessarenko. Em 2022, Bolsonaro é o presidente e Lula é o oponente; em 2026, Lula é o presidente e Flávio Bolsonaro é o oponente. Nomes, partidos e contextos dispares colocam neste pleito eleitoral enormes pontos de interrogação; todavia, como afirmou Lenin, em O Estado e a Revolução (1917), ao interpretar o pensamento marxista no ensaio “A Comuna de Paris”: “Aos oprimidos é permitido uma vez a cada poucos anos decidir quais representantes específicos da classe opressora devem representá-los e reprimi-los.” Ambos criticam a subserviência e alienação da classe trabalhadora. Mais de 100 anos se passaram desse cenário tenebroso; esperemos que, como vaticinou Chaplin em “O Grande Ditador” (1940): “O poder que eles tomaram do povo, voltará para o povo.”
Sérgio Cintra é professor de Linguagens e servidor do TCE-MT.
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