O que o comportamento está tentando dizer?

O que o comportamento está tentando dizer?
Imagem Pessoal

Andréa Fernandes da Rocha

O nome da criança foi alterado para preservar sua identidade.

Todos os dias, Laura, de seis anos, chegava da escola irritada. Chorava, gritava e parecia explodir diante das menores frustrações. Seus pais já haviam tentado de tudo: conversar, ignorar as crises e adotar uma postura mais firme. Mesmo assim, nada parecia funcionar. Além da preocupação com a filha, carregavam outro peso: a culpa de também perderem a paciência depois de um dia igualmente cansativo.

Quando a mãe veio conversar comigo, percebi que, antes de pensarmos em como mudar aquele comportamento, precisávamos compreender o que estava acontecendo com Laura.

Ela havia mudado recentemente para uma escola mais exigente. Todos os dias, fazia um enorme esforço para acompanhar a nova rotina, lidar com regras diferentes, adaptar-se aos colegas e responder às expectativas daquele ambiente. Era um esforço silencioso, quase invisível para quem a observava.

Ao chegar em casa, porém, encontrava o lugar onde finalmente podia relaxar.

As explosões não aconteciam porque a família era o problema. Aconteciam justamente porque aquele era o lugar onde Laura se sentia segura para deixar de sustentar todo o esforço que havia feito ao longo do dia.

Em vez de pensar apenas em como interromper aquelas crises, propus aos pais que olhassem para a necessidade que existia por trás delas.

Combinamos que Laura teria um tempo para desacelerar antes que novas demandas surgissem. Menos perguntas, menos comandos e menos cobranças logo na chegada. Um lanche tranquilo, um momento para brincar, assistir a um desenho ou simplesmente estar com a família antes de retomar a rotina da casa.

Também conversamos sobre algo que considero fundamental: ajudar as crianças a nomearem aquilo que sentem.
Esse processo faz parte da alfabetização emocional.

Assim como ensinamos uma criança a reconhecer letras e palavras, também precisamos ajudá-la a reconhecer, compreender e expressar suas emoções. Quando consegue dizer “estou cansada”, “estou frustrada”, “estou com medo” ou “estou triste”, deixa de depender apenas do comportamento para comunicar aquilo que acontece dentro dela.
Pouco a pouco, Laura e sua família encontraram uma nova forma de viver esse momento da chegada em casa. As crises diminuíram. Não porque ela tivesse aprendido a esconder suas emoções, mas porque encontrou um ambiente que a ajudava a organizá-las.

Esse caso ilustra uma realidade que observo com frequência na clínica: muitas vezes, adultos procuram ajuda para mudar um comportamento. Mas, ao olharmos com mais atenção, percebemos que o comportamento é apenas a parte visível de um processo muito maior.

Por trás de uma birra, de uma explosão, de uma recusa ou de um choro, podem existir cansaço, medo, insegurança, dificuldade para lidar com mudanças, sobrecarga emocional ou experiências que a criança ainda não consegue colocar em palavras.

É claro que alguns comportamentos precisam de limites. Mas limites e compreensão não são caminhos opostos. Pelo contrário. Quanto melhor compreendemos o que sustenta um comportamento, maiores são as chances de respondermos de forma verdadeiramente educativa.

Talvez uma das tarefas mais importantes de quem convive com crianças seja justamente essa: olhar além do comportamento e perguntar:

O que esta criança está tentando comunicar?

Porque, muitas vezes, o comportamento não é o problema.

É a melhor forma que a criança encontrou, naquele momento, para comunicar aquilo que ainda não consegue dizer com palavras.

Andréa Fernandes da Rocha:
Livro: Pequenos e Decisivos Passos na Infância
Terapeuta Ocupacional – CREFITO2: 019067- TO
Instagram:@andrea.desenvolvimentoinfantil

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Astrogildo Aécio Nunes

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