Deepfake

Deepfake
Imagem Pessoal

WIDSON OVANDO

Imagens, vídeos e vozes produzidos ou alterados por inteligência artificial estão cada vez mais convincentes. Para especialistas, o desafio já não é apenas descobrir o que é falso, mas aprender a verificar antes de acreditar e compartilhar.

Durante décadas, uma fotografia ou uma gravação de vídeo foi considerada uma espécie de prova. Ver era, em grande medida, acreditar. Na era da inteligência artificial generativa, essa relação mudou.

Hoje, uma pessoa pode aparecer em uma fotografia em um lugar onde nunca esteve, fazer uma declaração que nunca fez ou ter a própria voz reproduzida artificialmente. O resultado pode ser tão convincente que, em muitos casos, apenas olhar ou ouvir não é suficiente para determinar se aquele conteúdo é verdadeiro.

Esses conteúdos são conhecidos como deepfakes, termo usado para designar imagens, vídeos e áudios criados ou modificados artificialmente com recursos de inteligência artificial. A Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) publicou, em julho deste ano, um estudo específico sobre o tema e chamou atenção para os impactos dos deepfakes sobre a privacidade, a segurança, a informação e a confiança no ambiente digital.
Apontando um alarmante crescimento de 126% nos ataques que utilizam clonagem de voz, imagem e identidades falsas em comparação ao ano anterior (2025).

Quando a voz deixa de ser uma prova

Um dos aspectos mais preocupantes é a possibilidade de reproduzir a voz de uma pessoa.

Com ferramentas disponíveis atualmente, criminosos podem utilizar gravações para produzir áudios que imitam pessoas conhecidas. A estratégia pode ser usada para convencer alguém de que está falando com um familiar, amigo, funcionário de uma empresa ou autoridade.

A Anatel alertou, em campanha lançada em março de 2026, que vídeos, áudios e imagens manipulados podem imitar com alto grau de realismo a voz, o rosto e o comportamento de pessoas conhecidas. Segundo a agência, esse tipo de conteúdo já é utilizado em tentativas de fraude para obter dados pessoais ou provocar prejuízos financeiros.

A recomendação é simples, mas exige uma mudança de hábito, não tomar uma decisão importante apenas porque recebeu uma mensagem de voz ou viu um vídeo aparentemente verdadeiro.

Se alguém pedir dinheiro, senha, código de segurança ou uma transferência urgente, é preciso confirmar a informação por outro meio.

O problema chegou à saúde

O risco não está restrito aos golpes financeiros. No início de setembro, o Ministério da Saúde informou ter identificado 97 perfis que utilizavam inteligência artificial para simular médicos e outros profissionais de saúde. Os conteúdos apresentavam personagens artificiais como especialistas e divulgavam informações falsas, inclusive promessas de curas e tratamentos sem comprovação científica. O material foi encaminhado às autoridades e levou a uma notificação ao YouTube para remoção ou adoção de medidas de alerta e contextualização.

O caso mostra uma mudança importante na desinformação. Antes, uma informação falsa precisava ser inventada e divulgada. Agora, também é possível fabricar uma pessoa aparentemente real para dar autoridade à mentira. E isso pode ser particularmente perigoso quando envolve saúde. Uma pessoa convencida por um vídeo falso pode deixar de procurar atendimento, interromper um tratamento ou consumir um produto sem eficácia comprovada.

Nem tudo que parece estranho é deepfake

Existe outro problema, a tentativa de identificar uma falsificação apenas pela aparência.

Olhos estranhos, movimentos artificiais, falhas na iluminação ou uma voz diferente podem, em alguns casos, levantar suspeitas. Mas esses sinais não devem ser tratados como uma prova definitiva.

O FBI, nos Estados Unidos, orienta que alterações no movimento, na iluminação, no áudio, na voz e nas características do rosto podem indicar conteúdo artificial. Ao mesmo tempo, a própria evolução dessas tecnologias torna a identificação cada vez mais difícil. Por isso, a pergunta mais importante talvez não seja, “Consigo perceber que esse vídeo é falso ?” Mas,“Tenho elementos suficientes para afirmar que ele é verdadeiro?”

Essa diferença é fundamental. A armadilha daquilo que confirma o que já pensamos

Um deepfake não precisa convencer todo mundo.

Ele precisa convencer as pessoas que têm maior probabilidade de acreditar naquela história. Uma declaração falsa de uma autoridade política, por exemplo, pode ser compartilhada rapidamente porque confirma aquilo que determinado grupo já pensa. Uma falsa notícia sobre uma celebridade pode ganhar força porque provoca indignação. Um vídeo falso de um médico pode alcançar pessoas que procuram uma solução rápida para um problema de saúde.

A inteligência artificial, portanto, não cria sozinha a desinformação. Ela aumenta a capacidade de produzi-la e de torná-la convincente. A própria ANPD chama atenção para esse problema ao relacionar os deepfakes à transformação dos mecanismos de produção, circulação e validação da informação. A agência aponta que o enfrentamento desse cenário depende também de educação digital e da capacidade das pessoas de avaliar criticamente aquilo que recebem.

O Brasil já percebeu o tamanho do problema

Uma pesquisa do Observatório Febraban divulgada em julho de 2026 mostra um dado revelador, embora 92% dos brasileiros entrevistados tenham afirmado já ter ouvido falar em inteligência artificial, somente 34% disseram acreditar que conseguem reconhecer sempre ou quase sempre conteúdos produzidos por IA.

Ou seja, conhecer o termo “inteligência artificial” não significa necessariamente saber reconhecer seus efeitos. Essa diferença é importante porque o conteúdo falso pode chegar ao usuário justamente no ambiente em que ele mais confia, o grupo da família, o aplicativo de mensagens, a rede social ou a conversa com um conhecido.

Então, como se proteger?

Não existe uma fórmula capaz de identificar todo deepfake. A proteção mais eficiente começa por desacelerar. Antes de compartilhar um vídeo surpreendente, vale fazer algumas perguntas, Quem publicou? Qual é a fonte original? Outros veículos confiáveis estão divulgando a mesma informação? A pessoa ou instituição apresentada no vídeo confirmou aquilo em algum canal oficial? Existe algum pedido de dinheiro, senha, código ou ação urgente? A informação parece verdadeira porque há evidências ou simplesmente porque combina com aquilo que eu já acreditava?

Em caso de dúvida, uma busca pelo nome da pessoa, pela declaração ou pelo acontecimento pode revelar se outros veículos confiáveis registraram o mesmo fato. A Anatel recomenda justamente a confirmação de informações suspeitas nos canais oficiais das instituições ou nos perfis verificados das pessoas envolvidas antes do compartilhamento.

O futuro não será um mundo sem imagens falsas A questão central não é imaginar que a tecnologia desaparecerá. É o contrário. As ferramentas de inteligência artificial tendem a ficar mais acessíveis e os conteúdos sintéticos, mais difíceis de distinguir dos registros reais.

O FBI já alerta que a produção de conteúdos sintéticos se tornou mais acessível e pode ser utilizada em fraudes, manipulação e campanhas de desinformação. Isso significa que a sociedade precisará desenvolver uma nova relação com imagens, vídeos e áudios. Durante muito tempo, aprendemos que uma imagem valia mais do que mil palavras.

Agora, talvez seja necessário aprender uma nova regra, uma imagem pode parecer uma prova e ainda assim não ser verdadeira. O desafio da inteligência artificial não será apenas produzir conteúdos cada vez mais realistas. Será preservar a capacidade das pessoas de distinguir informação de manipulação. E, nesse novo cenário, a ferramenta mais importante talvez não esteja no celular. Está na capacidade de parar, desconfiar, verificar e só depois compartilhar.

Widson Ovando é jornalista, graduado em gestão pública, bacharel em Ciência e Tecnologia (UFMT) e pós-graduado em Ciências Políticas.

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias Aef News

Astrogildo Aécio Nunes

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