Evidência mais antiga de morte por peste é encontrada na Sibéria

Um novo estudo publicado na revista Nature nesta quarta-feira (17) analisou os vestígios mais antigos conhecidos da peste, descobertos em sepulturas de caçadores-coletores que viveram na Sibéria há 5.500 anos. Encontrada em um antigo sítio funerário da região gelada, a descoberta antecede as evidências da doença em centenas de anos.
O que chamou a atenção dos pesquisadores foi a quantidade incomum de sepulturas infantis encontradas na área sem motivo de morte aparentes. A curiosidade os levou à coletar o DNA dos restos mortais de 46 pessoas e, posteriormente, descobriram que 18 delas estavam infectadas com a bactéria Yersinia pestis – responsável pela peste bubônica e pneumônica – quando morreram.
Os mortos analisados pelo estudo foram enterradas em valas comuns junto com outras pessoas. A ideia é amparada pela presença de ossadas de primos ou irmãos com idades entre quatro e nove anos – encontradas lado a lado. “Encontramos três meninas muito jovens, todas enterradas ao mesmo tempo. Detectamos uma grande quantidade de DNA da peste bubônica nas três”, contou Ruairidh Macleod, da Universidade de Oxford, em entrevista à NBC News.
Os pesquisadores acreditam que o surto tenha sido um acontecimento quase que instantâneo, uma vez que as valas onde os corpos – na sua maioria, de jovens – foram enterrados apresentam sinais de que tinham sido escavadas às pressas. Para eles, esses sinais sugerem que as vítimas morreram devido a um surto fatal da doença.
Peste na pré-história?
A pergunta é autoexplicativa: estamos falando desses nômades justamente porque eles contraíram e morreram da peste antes mesmo que ela alterasse o curso da história dos europeus ocidentais. “Não esperávamos esse resultado de forma alguma”, disse Macleod à revista New Scientist. “Há uma expectativa de que esses grandes surtos não acontecessem entre caçadores-coletores pré-históricos, [mas apenas] com pessoas que viviam em assentamentos muito povoados”.
As novas evidências indicam que os caçadores-coletores siberianos corriam os riscos da doença muito antes da primeira revolução agrícola. É nesse período que também surgem as aldeias sedentárias, consideradas pelos cientistas uma das causas principais do surgimento da doença. “A expectativa era de que grandes surtos de doenças afetando comunidades inteiras não existissem antes da Revolução Neolítica”, afirmou Macleod.
As várias versões de uma peste
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A bactéria Yersinia pestis pode ser tão mortal quanto os seres humanos. A diferença, no entanto, é que na sua luta pela sobrevivência, ela evoluiu e, bem, o que deu você já sabe: milhares de mortes. De acordo com os registros, tudo começou com a peste de Justiniano, em 541 a.C., seguida pela peste bubônica de 1346 e, até o momento (assim você e eu esperamos), a terceira e última pandemia de peste, iniciada em 1822.
As novas descobertas sugerem que a praga surgiu periodicamente em certas comunidades de caçadores-coletores, já que eles viviam perto de animais selvagens que hospedavam a bactéria. A partir daí, os cientistas acreditam que ela foi transmitida dentro dos grupos familiares para, muito depois, adaptar-se e adquirir a capacidade de se espalhar por meio de picadas de pulga.
Mas isso só chegou a acontecer há 3.800. Então, como os nômades da Sibéria contraíram a doença? A principal hipótese é a de que eles não morreram exatamente de peste bubônica, mas sim de uma peste pneumônica, outra versão de peste, transmitida pelo mesmo vírus e contraída das marmotas, grandes roedores escavadores que viviam ao lado dos caçadores-coletores. Segundo Macleod, ela se espalha pela tosse e é uma infecção extremamente grave e mortal.
Ainda por aqui
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Desde que os caçadores-coletores e os agricultores foram infectados, a doença se espalhou pelo mundo, assim como a bactéria causadora evoluiu. Não há toa, ocasionalmente pessoas que vivem até hoje na Sibéria contraem a praga ao entrar em contato com marmotas ou por consumir carne mal passada.
Os casos modernos de peste não estão limitados à cobertura gélida da região. Diagnósticos da doença continuam a surgir em áreas rurais e, se identificada logo, pode ser tratada com antibióticos. Madagascar registrou mais de 2.400 casos de peste pneumônica em 2017 e uma pessoa no Arizona (Estados Unidos) morreu da infecção em 2025.
(Por Júlia Sardinha)






