Venha ver os animais surpreendentes encontrados por pesquisadores em Angola

Ainda existem lugares no planeta que permanecem desconhecidos pela ciência. Um deles fica no leste de Angola, onde um remoto planalto alimenta alguns dos maiores rios da África e abriga ecossistemas que passaram décadas isolados por guerras, minas terrestres ou por serem difíceis de acessar. Agora, uma expedição científica revelou que essa paisagem esconde dezenas de espécies nunca vistas antes.
Realizada em fevereiro, a expedição ao planalto de Lisima identificou oito espécies inéditas de libélulas, três novas espécies de gafanhotos e aproximadamente 60 mariposas e borboletas potencialmente desconhecidas pelos pesquisadores. As descobertas fazem parte do Atlas da Vida de Cassai, levantamento conduzido pelo The Wilderness Project em uma região considerada uma das últimas grandes lacunas de biodiversidade do continente africano.
Singularidades de Lisima
Entre as descobertas mais impressionantes estão as libélulas. O levantamento registrou 103 espécies de libélulas e donzelinhas, elevando para 163 o número conhecido na região. Dessas, 34 nunca tinham sido registradas em Lisima e seis passaram a integrar oficialmente a lista nacional de Angola.
O destaque ficou para oito espécies que ainda nem possuem descrição científica formal. Segundo Klaas-Douwe B. Dijkstra, do Centro de Biodiversidade Naturalis, na Holanda, as características hidrológicas da região ajudam a explicar essa riqueza biológica. “O planalto arenoso de Lisima libera algumas das águas doces mais claras e confiáveis da África, o que se reflete nas libélulas e libelinhas da região, com diversas espécies altamente especializadas que não são encontradas em nenhum outro lugar”, afirmou em comunicado.
Os cientistas acreditam que o isolamento prolongado desses ambientes favoreceu a evolução de espécies únicas, adaptadas às condições específicas das nascentes e áreas alagadas do planalto.
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Mas as descobertas não se limitaram aos insetos aquáticos: a equipe também registrou 47 táxons de gafanhotos e grilos, incluindo três espécies novas para a ciência. Esse número ainda deve crescer, já que diversos exemplares aguardam análises detalhadas por especialistas.
Entre as mariposas e borboletas, os resultados foram igualmente surpreendentes. Mais de mil indivíduos foram catalogados durante a expedição, revelando uma mistura incomum de espécies típicas da floresta do Congo, dos ecossistemas do Cabo e dos bosques da região. Os pesquisadores também observaram mudanças significativas na composição das espécies em distâncias relativamente curtas, um indício de que a região funciona como uma importante zona de transição ecológica.
As análises preliminares sugerem que até 6% de todas as espécies de mariposas registradas podem ser novas para a ciência. Além disso, a criação de lagartas em laboratório permitiu associar 25 espécies de mariposas a 19 plantas hospedeiras diferentes, ampliando o conhecimento sobre as relações ecológicas no ambiente.
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Os vertebrados também chamaram a atenção dos pesquisadores. O levantamento registrou 47 táxons, sendo 24 espécies de anfíbios e 23 de répteis. Entre os registros mais notáveis estão a víbora-de-gabão, a víbora-arbustiva-variável, a cobra-de-anchieta e a rara cobra-de-galho-de-Oates.
Nas cavernas da região, a equipe encontrou outro componente pouco conhecido da biodiversidade local: populações do morcego-de-folha-redonda de Sundevall e do morcego-ferradura de Rüppell, além de moscas parasitas e outros organismos associados a esses mamíferos.
Descobertas em um momento de urgência
Além de ampliar o conhecimento científico, os resultados lançam um alerta sobre o futuro da região, que por anos permaneceu geograficamente isolada devido à presença de campos minados que limitaram a ocupação humana.
No entanto, a expansão das estradas e a remoção gradual das minas estão abrindo caminho para atividades como mineração de diamantes, exploração madeireira e agricultura de corte e queima. Os impactos já começam a ser percebidos: a cobertura florestal diminui, os rios apresentam níveis crescentes de sedimentação e os habitats naturais têm se tornado cada vez mais fragmentados.
De acordo com os biólogos e cientistas envolvidos na expedição, o importante agora é compreender a biodiversidade das nascentes de rios ali localizadas. “Essas nascentes não são apenas vitais para a biodiversidade; elas também fornecem água, resiliência ecológica e sustentam meios de subsistência. Uma compreensão clara da biodiversidade aqui é essencial para a proteção eficaz de todo o sistema”.
Confira a seguir outras espécies registradas em Lisima:
Espécies descobertas em Angola
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(Por Júlia Sardinha)






