Time-lapse do primeiro buraco negro fotografado revela segredos da matéria ao seu redor

Time-lapse do primeiro buraco negro fotografado revela segredos da matéria ao seu redor
Imagens de M87*: à esquerda, dados do EHT das campanhas de 2017 e 2018; ao centro, simulações magnetohidrodinâmicas relativísticas (GRMHD); à direita, simulações ajustadas à resolução do EHT. — Foto: Event Horizon Telescope

Uma nova análise do primeiro buraco negro já fotografado, o supermassivo M87*, revelou como a matéria se comporta nas proximidades desses objetos extremos. Localizado no centro da galáxia Messier 87, a cerca de 55 milhões de anos-luz da Terra, o M87* foi originalmente fotografado em 2019 pelo Telescópio do Horizonte de Eventos (EHT). Agora, cientistas foram ainda mais longe, analisando seus movimentos na matéria com um nível de detalhamento inédito.

Os novos dados, coletados em 2017 e 2018 e publicados na revista Astronomy & Astrophysics, em 22 de janeiro, mostram como o disco de acreção, uma região formada por matéria girando em velocidades próximas à da luz, muda ao longo do tempo. Usando uma biblioteca de imagens de simulação recentemente expandida com mais de 120.000 imagens adicionais, os pesquisadores descobriram que a porção mais brilhante do disco rotacionou cerca de 30 graus em um ano. Esse fenômeno confirma que o eixo de rotação do buraco negro aponta para longe da Terra.

Outra descoberta marcante foi a confirmação de que o plasma no anel externo do buraco negro provavelmente gira na direção contrária à sua rotação. “Quando o gás espirala em direção a um buraco negro, ele pode fluir no mesmo sentido da rotação ou no oposto. Nos descobrimos que este último caso é mais provável”, afirma León Sosapanta Salas, candidato a doutorado na Universidade de Amsterdã, em comunicado.

O trabalho também reforçou estimativas sobre o tamanho e a massa de M87*. Este titã cósmico tem aproximadamente 6,5 bilhões de vezes a massa do Sol. Observar a evolução de seu ambiente oferece novas pistas sobre o comportamento de buracos negros e como eles interagem com a matéria ao seu redor.

Relevância do estudo

Buracos negros supermassivos estão no centro de quase todas as galáxias conhecidas, incluindo a Via Láctea. Para os cientistas, entender como eles crescem e afetam seus arredores é essencial para compreender a evolução do universo. “Este trabalho destaca o potencial transformador de observar o ambiente do buraco negro evoluindo ao longo do tempo”, enfatiza Hung-Yi Pu, professor assistente da Universidade Normal Nacional de Taiwan e coautor do estudo.

Em 2018, o anel luminoso de 2017 foi confirmado, com rotação de 30 graus. — Foto: Wikimedia Commons
Em 2018, o anel luminoso de 2017 foi confirmado, com rotação de 30 graus. — Foto: Wikimedia Commons

As observações de 2018 confirmaram a presença do anel luminoso capturado pela primeira vez em 2017, com um diâmetro de aproximadamente 43 microsegundos de arco consistente com as previsões teóricas para a sombra de um buraco negro de 6,5 bilhões de massas solares. Assim, a região mais brilhante do anel mudou 30 graus no sentido anti-horário.

“A mudança na região mais brilhante é uma consequência natural da turbulência no disco de acreção ao redor do buraco negro”, explica Abhishek Joshi, candidato a doutorado na Universidade de Illinois Urbana-Champaign. “Em nossa interpretação teórica original das observações de 2017, previmos que a região mais brilhante provavelmente mudaria na direção anti-horária. Estamos muito felizes em ver que as observações em 2018 confirmaram essa previsão!”.

O fato de o anel permanecer mais brilhante na parte inferior também reforça nossa interpretação anterior da orientação do buraco negro. Bidisha Bandyopadhyay, bolsista de pós-doutorado da Universidad de Concepción, acrescenta: “A localização da região mais brilhante em 2018 também reforça nossa interpretação anterior da orientação do buraco negro a partir das observações de 2017: o eixo rotacional do buraco negro está apontando para longe da Terra!”

Usando uma biblioteca recentemente desenvolvida e extensa de imagens geradas por supercomputadores, três vezes maior do que a biblioteca usada para interpretar as observações de 2017, a equipe avaliou modelos de acreção com dados das observações de 2017 e 2018. Segundo Hung-Yi Pu, “O ambiente de acreção do buraco negro é turbulento e dinâmico. Como podemos tratar as observações de 2017 e 2018 como medições independentes, podemos restringir os arredores do buraco negro com uma nova perspectiva.”

(Por Carina Gonçalves)

Astrogildo Aécio Nunes

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