Testemunho daqueles que tentaram salvar vidas na pandemia e dos que se negaram: a memória, a responsabilidade política e humanitária

Testemunho daqueles que tentaram salvar vidas na pandemia e dos que se negaram: a memória, a responsabilidade política e humanitária
Fotos: Divulgação

Paulo Lemos

Um testemunho pessoal sobre a pandemia, o esforço coletivo para salvar vidas e a responsabilidade política e humanitária diante das quase 694 mil mortes por Covid-19 no Brasil até 31 de dezembro de 2022.

Nunca vou esquecer aqueles meses.

A sensação era de viver um pesadelo em que o tempo não andava. Conheci famílias que perderam pessoas queridas enquanto buscavam, com desespero, uma vaga de UTI.

Fiz e recebi incontáveis telefonemas, participei de redes de solidariedade, vi mães chorando, filhos pedindo ajuda, amigos tentando encontrar um leito que simplesmente não existia.

Era angustiante. Cada ligação podia ser a diferença entre a vida e a morte.

Ao mesmo tempo, testemunhei o lado mais generoso do povo brasileiro.

Médicos e enfermeiros que se desdobraram, muitas vezes sem equipamentos adequados, colocando a própria vida em risco.

Advogados que orientaram famílias e defenderam o direito à saúde.

Jornalistas que informaram com responsabilidade, enfrentando a desinformação.

E voluntários de todos os tipos, que se mobilizaram para conseguir oxigênio, leitos, remédios, transporte, o que fosse necessário.

Em Mato Grosso, o deputado Lúdio Cabral teve um papel importante, cobrando providências, denunciando omissões e ajudando a dar visibilidade ao drama de milhares de famílias, também pela sua formação enquanto médico sanitarista.

Tudo isso mostrava que, mesmo em meio à dor, havia um esforço coletivo para salvar vidas.

Mas, enquanto a maioria lutava para proteger as pessoas, o então presidente Jair Bolsonaro escolheu o caminho oposto.

Em vez de liderar o país em um momento de tanta tragédia, minimizou a gravidade da pandemia, espalhou desinformação, criticou medidas de prevenção e chegou a fazer gestos públicos para imitar pessoas sem ar, em clara demonstração de desprezo pelo sofrimento de quem lutava pela vida.

Suas atitudes custaram vidas e aprofundaram a dor de milhares de famílias.

O Brasil registrou quase 694 mil mortes por Covid-19 até 31 de dezembro de 2022. Não se trata apenas de um número.

São histórias, sonhos interrompidos, famílias devastadas. E é preciso dizer com todas as letras: essas mortes também têm responsabilidade política e humanitária.

Como advogado e analista político-social, acredito que a memória é fundamental para que o país não repita os mesmos erros.

Precisamos lembrar o que aconteceu, reconhecer o esforço daqueles que tentaram salvar vidas e cobrar responsabilização de quem, por ação ou omissão, contribuiu para a tragédia.

Não podemos normalizar o negacionismo, nem aceitar que a desinformação e o desprezo pela vida se tornem estratégia política.

Defender a memória não é alimentar o ódio, mas reafirmar o valor da vida, da ciência, da solidariedade e da democracia.

É um compromisso com as vítimas, com seus familiares e com as futuras gerações.

É garantir que o Brasil aprenda com essa tragédia e construa um país mais justo, humano e preparado para enfrentar novos desafios.

Memória não é vingança. Memória é responsabilidade. E é por ela que seguiremos lutando.

Divulgação

Paulo Lemos é advogado e analista político-social em Mato Grosso.

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